Texto da tag "Escritor
Convidado", escrito por: Raphael Machado
Publicado originalmente no canal do
Telegram @camaradamachado e escrito
originalmente AQUI.
Terminei recentemente o Cobra Kai, uma boa série para passar o tempo. Não me recordo bem de boa parte do conteúdo, mas para uma série nascida de uma piada em um sitcom há alguns apontamentos interessantes a fazer.
A narrativa é uma
"história de amadurecimento", mas com a peculiaridade de que o
protagonista da narrativa é já um adulto de meia idade - que não obstante ainda
se comporta como um adolescente. O âmago disso vai ficando mais claro aos
poucos, e é mais pro final que nós percebemos a causa do desenvolvimento
"interrompido" do Johnny Lawrence.
Me recordo que
inicialmente achei a proposta do Cobra Kai interessante não apenas porque de
fato o LaRusso tinha os seus problemas como protagonista no Karatê Kid, mas também
porque a filosofia marcial do dojô do Kreese (herdado pelo Lawrence)
representava um bom contraponto ativo à abordagem passiva do Miyagi. Em uma
leitura guenoniana do Cobra Kai, é possível ver como a dualidade Cobra
Kai/Miyagi-Dô representa bem as distinções entre Ocidente e Oriente, com o
Ocidente marcado por uma pura agitação ativa e o Oriente caracterizado por um
caráter mais contemplativo.
Não obstante, em uma
abordagem mais evoliana da "ação", a violência guarda sua própria via
de transcendência, desde que ela esteja integrada em uma perspectiva superior e
seja conduzida asceticamente, e fiquei na expectativa de uma
"redenção" da "via ativa" como representando a própria
redenção do Lawrence.
Transferindo a moldura
analítica para a "jornada do herói", vemos também que no Karatê Kid
temos duas jornadas se chocando, com a de Lawrence interrompida no
"nadir" do ciclo, no momento de maior dificuldade e atribulação (na
descida ao submundo, no estômago da baleia, etc.), fundamentalmente porque seu
mestre John Kreese foi um mau mestre que quis oferecer a ele um atalho ilusório
e que, depois, o abandonou completamente quando ele, supostamente,
"fracassou". Johnny Lawrence ficou preso por décadas neste exato
momento de sua vida e não avançou um único passo até o início do desenrolar da
história.
O interessante, porém, é
que o percurso de cura e redenção de Lawrence se inicia com ele tendo que
assumir a função de "mestre" para um outro jovem, sendo que ele
próprio não havia cumprido a sua jornada. Nesse sentido, ao longo da série, ele
vai sendo simultaneamente mestre e discípulo, e inclusive se vê tendo que
enfrentar o seu próprio mestre e matá-lo simbolicamente no meio do caminho, o
que finalmente o fez avançar um pouco mais em sua jornada. Conhecer a Carmen
também o fez avançar em sua jornada precisamente pelo fato dela desempenhar no
monomito o papel da Musa ou Deusa que através do seu amor eleva e fortifica o
herói.
Tudo isso leva bastante
tempo e se arrasta por temporadas até Lawrence forjar uma amizade com LaRusso.
Essa amizade, ademais, possui um caráter peculiar por representar - já em outra
moldura - a reintegração entre o yang desviado ou perdido com o yin, o que é
simbolizado na unificação entre o dojô de Lawrence e o dojô de LaRusso. Que se
trata de uma integração de Lawrence em LaRusso é demonstrado pelo fato de que o
local de treinamento passa a ser o do Miyagi-Dô.
Essa integração fez algum
bem para ambos na medida em que houve também uma fusão de princípios, mas a
jornada de Lawrence não estaria completa se ele, ao final - e após
"perdoar o pai/mestre" Kreese - não tivesse se separado novamente de
LaRusso para reconstruir um Cobra Kai renovado e purificado, completando
simultaneamente a própria jornada, ao ter a grande vitória que ele sempre mereceu
(alcançando assim sua apoteose), e curando o "princípio ativo" após o
mergulho nas águas escuras do "princípio passivo".
O drama adolescente da
série não me interessou minimamente e penso que talvez a série pudesse ter sido
encurtada, mas não obstante, enquanto entretenimento, é uma obra interessante
que permite construir diversas análises construtivas.