Adeus, George Perez



Este post será um tanto atípico, pois trata-se de um obituário, porém um obituário de uma pessoa que ainda está viva, pelo menos por enquanto. Hoje foi um dia bem triste para o mundo dos quadrinhos, porque o grande artista George Perez anunciou que está com câncer de pâncreas terminal e que também não pretende fazer quimioterapia. Basicamente, ele optou por não sofrer e morrer. Perez há tempos vinha tendo problemas de saúde: há quase vinte anos atrás, teve uma tendinite enquanto desenhava a capa de Liga da Justiça vs Vingadores; e há alguns anos atrás, anunciou sua aposentadoria, em razão de problemas de vista.


Filho de imigrantes de Porto Rico, George Perez era um artista inato e apaixonado por HQs de super-heróis. Seu talento o levou a ser contratado pela maior editora de quadrinhos da época e ainda hoje, a Marvel. Seu primeiro trabalho na editora foi uma história curta paródia de Deathlok, na Astonishing Tales no 25, em 1974. Não demorou muito para que Perez assumisse a arte da maior superequipe da Marvel, os Vingadores, tornando-se um desenhista recorrente, ilustrando várias sagas clássicas, como a Saga da Coroa da Serpente e outras. Perez também desenhou regularmente uma fase do Quarteto Fantástico naquela época.

Porém, a lua de mel com a Marvel chegou ao fim após Perez fazer a arte de Avengers no 200. Nessa polêmica edição, Carol Danvers, a Miss Marvel aparece misteriosamente grávida e dá à luz a Marcus Immortus, um dos filhos do Immortus, tradicional vilão dos Vingadores. A questão é que Marcus na verdade engravidou Carol Danvers de si mesmo, pois a atraiu para uma dimensão, usou seus poderes de empatia para transar com ela e engravidá-la e assim pode nascer em nossa realidade. Para alguns, isso seria estupro. Perez, como sempre foi um cara com tendências mais feministas, sentiu-se profundamente incomodado de ter de desenhar essa história e resolveu fazer as malas para a Distinta Concorrente da Marvel, a DC Comics.


George Perez na verdade pretendia trabalhar com a joia da coroa da DC, queria assumir a Liga da Justiça, mas, em vez disso, lhe ofereceram a oportunidade de assumir a arte de Os Novos Titãs. Não muito satisfeito de ter de trabalhar com uma equipe reformulada de sidekicks, Perez topou a empreitada. Essa foi sua sorte grande, pois, ao lado do roteirista Marv Wolman, os Titãs foram alçados de meros sidekicks para uma das maiores superequipes da DC. Perez foi responsável por reformular Robin, Moça-Maravilha e Kid Flash, ao mesmo tempo que criou novos personagens, Ravena, Estelar e Ciborgue, e trouxe para a equipe Mutano, ex-Rapaz-Fera da Patrulha do Destino.

Os Novos Titãs em certa medida concorriam diretamente com o título mais vendido da Marvel naquele momento, que era o X-Men de Chris Claremont e John Byrne, e, há bem da verdade, até havia algumas similaridades entre as equipes, no sentido de alternarem aventuras de super-herói com soap opera. Claremont era conhecido por seu estilo novelesco nos X-Men; por sua vez, em Os Novos Titãs, a vida pessoal e o drama dos membros da equipe não ficavam em segundo plano para a ação, e todos tinham seus dramas e dilemas. O romance de Robin com Estelar, o conflito de Ciborgue por causa da perda da humanidade, Ravena tendo de lidar com seu lado negro e emoções etc.



Em 1986, Marv Wolfman e George Perez foram encarregados pela DC de construírem a saga Crise nas Infinitas Terras, que deveria ser um evento-chave para a reformulação dos personagens da editora. Seria o primeiro grande reboot dos quadrinhos, em que décadas de cronologia seriam simplificadas e o Multiverso da DC seria extinto. O objetivo era atualizar os heróis da DC para novos leitores, e foi algo bem ambicioso para a época. Felizmente, Wolfman era um escritor de mão cheia e pôde escrever uma saga realmente complexa de super-heróis, em que heróis e vilões de todo o Multiverso da DC se levantam para enfrentar a ameaça do Antimonitor, um dos maiores vilões da história da DC. O saldo dessa saga foi um universo DC reformulado e enxuto e várias mortes, a maioria sem expressão, é verdade, com exceção das mortes do Flash Barry Allen e da Supergirl, que realmente foram mortes bem importantes. Uma curiosidade é que John Constantine faz uma ponta em Crise nas Infinitas Terras, e até hoje há certa confusão de quando foi sua primeira aparição cronológica, em Crise ou nas histórias do Monstro do Pântano de Alan Moore.





Em seguida, George Perez foi encarregado da reformulação da maior super-heroína da DC, quiçá do mundo, a Mulher-Maravilha. Na verdade, se a gente está falando hoje da Mulher-Maravilha, isso é por causa de Perez. Basicamente, ele fez da personagem o que ela é hoje. Perez enxugou toda a breguice que vinha acompanhando a heroína desde a Era de Prata e a modernizou para uma nova geração de leitores. Ele fez algo meio parecido com o que Walt Simonson realizou nas histórias do Thor. Simonson bebeu da mitologia nórdica para dar base às histórias do Deus do Trovão, e Perez, por sua vez, bebeu da mitologia grega. Sua Diana está muito imersa no rico universo mitológico da Grécia Antiga, ao mesmo tempo que também tem de conviver com os homens, fora de Themyscera. Perez também reformulou a arqui-inimiga da Mulher-Maravilha, a Mulher-Leopardo, e criou a identidade de Bárbara Minerva. Sua Mulher-Leopardo era uma híbrida de humana com felina, ao contrário da Mulher-Leopardo original, que só usava um uniforme.



Nos anos 90, George Perez fez as pazes com a Marvel e assumiu a arte da saga Desafio Infinito, escrita por Jim Starlin, em que os heróis enfrentavam Thanos e sua manopla com as Joias do Infinito. Porém, Perez já não queria trabalhar sob pressão naquela época e desenhou apenas metade da saga. Essa saga foi bem livre adaptada em Guerra Infinita. Perez ainda desenhou uma importante história do Hulk escrita por Peter David, Futuro Imperfeito, que introduziu o vilão Maestro, uma versão tirânica do Golias Esmeralda.




Em 1998, após a saga Heróis Renascem, Perez voltou a ilustrar os Vingadores, dessa vez com os roteiros de Kurt Busiek, nesta que provavelmente foi a última grande fase da equipe, pelo menos como a conhecemos, porque, depois dos Novos Vingadores de Brian Bendis, os Vingadores tornaram-se uma versão Marvel da Liga da Justiça. Busiek e Perez também se reuniram para elaborar o crossover Liga da Justiça e Vingadores, crossover este que demorou vinte anos para ser feito. E é também o último crossover Marvel e DC realizado, uma vez que a animosidade corporativa entre as duas editoras só aumentou ao longo dos anos, com a ajuda dos fãs acéfalos.




Perez diminuiu sua carga de trabalho nos anos 2000 e 2010, mas ainda fez algumas coisas, como o retorno de The Brave and the Bold, escrito por Mark Waid. Nos Novos 52, Perez assumiu o roteiro de Superman, porém dá para ver que ele estava meio incomodado com os rumos editoriais da DC, pois essa fase que ele escreveu para o Homem de Aço é bem meia boca. Sem contar que o Superman dos Novos 52 é a pior versão do herói já criada. E também não pode ficar de fora o belo trabalho que ele fez com os títulos da editora Crossgen, tudo inédito no Brasil.

Enfim, esse post foi apenas para lembrar e destacar alguns dos trabalhos que George Perez realizou ao longo de sua vida. Provavelmente, esqueci de alguns, mas creio que os principais estão listados aí. Que sua passagem para o outro mundo seja breve e indolor. Adeus, e obrigado por tudo.






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