HERÓIS: ENTRE O ARQUÉTIPO E O ESTEREÓTIPO



Texto escrito por Ricardo Cunha no Medium 

Publicado originalmente aqui


Heróis são típicos. Sim, são personagens que despertam o interesse do homem comum e em torno dos quais são desenvolvidas narrativas. Mais do que terem poderes extraordinários, ideais superiores, empreendido conquistas ou grandes feitos, o herói é aquele que puxa o fio da história. Não apenas vence: Prevalece! Reunindo com rara felicidade qualidades excepcionais e o vaticínio dos deuses, é a pessoa que atravessa situações extremas sucessivas e continua enquanto os outros vão caindo um por um. Luz que brilha na noite dos tempos, seu nome parece reunir as esperanças d’um povo, plasmando em seu carácter aquilo que deseja de cada indivíduo.

Contar histórias é, por via de regra, falar de heróis. Pode-se inclusive traçar como distinção entre não-ficção e ficção o movimento temporal feito pelo narrador em face d’esse herói. Com efeito, o cronista histórico parte dos factos e seus responsáveis, regredindo em direção às origens n’um esforço de compreender como as coisas se deram como se deram. Evidente que haverá muita invenção, especulação e interpretação parcial do que se narra, mas o fim da narrativa é sempre uma realidade concreta no momento em que a história é contada: A cidade onde se vive; o poder que ora governa, as crenças que se compartilha… N’esse sentido de História — entendida não como ciência, sim como passado comum aceito por um grupo — o herói se aproxima da ideia de mito arquetípico, isto é, aquele que (existindo de facto ou não) nos gerou. Já a história (com minúscula mesmo, quando não corrompida em “estória”) apresentada pelo contador de contos — exactamente por não findar com uma realidade concreta, sim uma idealidade abstrata — tem como movimento temporal a evolução.

Aquiles, Teseu, Moisés, David… são tão extraordinários quanto o Super-Homem, o Homem-Aranha ou o Incrível-Huck… Sim, desafio após desafio, avançam em direção a uma glória apoteótica! Repare-se que, tanto na História quanto na história, o herói exerce atração irresistível sobre aquele que lê ou escuta a narrativa. Esse carisma de quem se sente capaz de realizar o impossível vai além do destemor do guerreiro face à morte ou do sacrifício do altruísta em favor do colectivo. De facto, é uma autoconfiança que beira a insanidade temerária sustentada por uma lista pregressa de feitos cada vez mais ousados e improváveis. Na segurança do teatro ou na calma da biblioteca, acompanhamos suas peripécias por terras distantes bem como seus dilemas de consciência… Suas aventuras e lutas extraordinárias contrastam com nossas existências tranquilas e limitadas.

Aliás, é justamente esse contraste que torna os heróis e suas histórias tão recorrentes. Fabricador de heróis, o narrador perpetua e embeleza sua trajectória em conformidade com os interesses vigentes. Sob sua pena, a submissão da personagem ao sobrenatural, por exemplo, será exaltada ou omitida. Mais: A vitória de todo um povo ao longo de várias gerações será resumida e concentrada em torno d’uma única figura excepcional. O narrador, quer cronista histórico; quer fabulista, assume a tarefa de oferecer ao público uma personalidade admirável um universo diverso onde mesmo a verossimilhança possa ser alterada. N’esse sentido, embora não testemunhemos milagres ou maravilhas em nosso quotidiano, no mundo de Moisés mares são abertos para a passagem d’uma multidão de eleitos e a morte de avanguardas de forças opressoras… Enquanto isso, na Manhattan de meados do século XX, um mutante envenenado por uma aranha se mantém alerta para combater criminosos e conspiradores… E ainda, diante da Tróia sitiada, Aquiles assombra os helenos com sua resolução de não combater mais, como se sozinho valesse mais que todos os seus mirmidões juntos… E, por incrível que pareça, valia! Vidrados, torcemos por aquela entidade mítica como se fosse nosso irmão mais velho com a missão de pôr, sozinho, o eixo da realidade de volta no lugar.

Multiversos à parte, o estereótipo do herói merece algumas linhas de reflexão. Afinal, o herói só se torna herói à medida em que se torna inspirador para os outros. Isso faz d’ele previsível amontoado de lugares-comuns: Ele é muito forte ou inteligente ou ambos; está sempre do lado do bem e lidera antes pelo exemplo do que pela autoridade; embora humano e mortal, não hesita em correr riscos e, invariavelmente, escapa; mesmo quando derrotado, não é submetido, embora quase sempre vença e avance; seus erros são mínimos ao passo que seus acertos retumbantes. O herói perfeito é um aventureiro que ao longo de guerras e viagens conquista para nós a tranquilidade do modo de vida de que desfrutamos. Logo, devemos tudo o que somos e temos a ele e seu sacrifício.

Considerando que à medida que se recua no tempo nosso conhecimento sobre o passado remoto se torna cada vez mais incerto e limitado, sempre foi interessante — quando não conveniente — eleger figuras de destaque, liderança ou relacionadas decisivamente com um evento relevante sempre foi uma necessidade para a construção de sentido das, digamos, narrativas coletivas. N’um processo onde histórias se tornam História Oficial (não confundir com Ciência Histórica), o herói adquire o status de mito fundador. N’esse sentido, recordá-lo, se torna uma obrigação patriótica quando não religiosa. Deificado ou santificado, o mito explica o que precisa ser explicado, oferecendo com sua vida a validade d’uma verdade transformadora. Ao se identificarem com a figura e sua verdade, as pessoas se tornam seguidoras d’este ente e se ordenam em torno da ideia que lhes faz defender um território físico e a manutenção d’uma identidade nacional.

A realidade da Ordem Social é, portanto, perpetuada pela narrativa heroica repetida na formação das novas gerações. Isto, se por um lado reforça aspectos da personalidade do herói mítico e seus feitos, nos condena a cultuar uma fantasia que se pretende histórica e ainda assumir valores questionáveis como “bons costumes”. Eternamente adiada, a reflexão acerca da Ordem Social construída sobre a laicidade e o bem-comum no governo da coisa pública parece ainda muito frágil diante da necessidade de pacificar as massas com moralidades exemplares de pessoas que viveram há muito tempo atrás.

Sem embargo, mesmo quando atemporais ou futurísticos, os heróis das ficções pouco se afastam das mesmas estratégias moralizantes que seus pares míticos recebem. Escrever com sucesso nos dias de hoje ainda é construir universos irreais habitados por pessoas excepcionais em existências extraordinárias … Esse tipo de Literatura que tende antes ao entretenimento do que à compreensão do mundo em que vivemos parece nos condenar ao mesmo jugo de nossos antepassados que se acreditavam reunidos por terem um antepassado comum ou por acreditarem n’um mesmo líder religioso perfeito.

Faz-se urgente, n’esse sentido, que a necessidade de heróis seja discutida com honestidade e que as novas narrativas sejam capazes de desmistificar seus protagonistas para que mais do que heróis se pareçam com os seres humanos que desejam emular com vias a problematizar o quotidiano.

Betim — 23 01 2020


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