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quarta-feira, 17 de julho de 2019

Vade Retro Ré no Quibe

Uma vez ao ano, às vezes nem isso, mas quando sim, geralmente nas férias de julho, lavo minha bolsa de lona cáqui, que carrego a tiracolo com os apetrechos de meu triste e desprestigiado ofício.
Desocupada, lavada e a secar no varal, o seu conteúdo, espalhado por sobre a mesa da sala, estava a atrapalhar a faxina iniciada por minha esposa, também de férias.
Recebi peremptória ordem de dar um jeito àquilo. Aos livros, cadernos e folhas avulsas, fiz-lhes uma gaveta no fundo de uma cadeira, posta com o assento no tampo da mesa e pernas ao ar para permitir a limpeza do piso. Às canetas, vi uma garrafa plástica vazia de água mineral (500 ml) e, com ela, fiz-lhes um estojo improvisado.
Gostei do resultado. Achei-o interessante. Contemplei-o por um momento.
Então, a ficha me caiu : eu tivera uma ideia de um designer de móveis e interiores. Pãããããta que o pariu!!! É o complô internacional para o embichamento planetário tentando pegar o Azarão.
Eu acabara de criar um objeto-conceito, que traz em si, e ao mesmo tempo, a fusão do elemento utilitário com o decorativo; a função mecanicista e pragmática do porta-canetas exercendo também a função artística do adorno.
Eu acabara de conceber uma peça dessas vendidas em modernosas lojas de decoração, tipo Tok & Stok, uma peça dessas expostas em salões de utensílios arrojados e pra frentex. Minha criação só não é mais vanguardista porque poucas coisas são mais antigas do que a expressão "pra frentex". Tanto que só o Jotabê entenderá.
Pra piorar : além do utilitário em união com o artístico, percebi que minha criação também atendia e comungava com as prementes necessidades ambientais do planeta, por se tratar de um exercício de reuso da embalagem. Meu porta-canetas se revelou utilitário, artístico, ecológico e autossustentável.
Pããããããta que o pariu!!! Foi por pura sorte que meu cu não começou a piscar, que minhas pregas não começaram a bater palminhas. 
Mas, por vasta experiência, sei que não posso me fiar na sorte. Olhei fixo para o porta-canetas. Tentei espanar as desmunhecantes ideias da minha cabeça. Concentrei-me em vê-lo como um simples e prático objeto. Um porta-canetas das antigas.
Foi então que, olhando para as canetas encapsuladas na garrafa - as tintas em suas cargas, germens de textos e de poemas à espera de viris reprodutores e de hábeis parteiras que os fecundem e os deem à luz do papel em branco -, ocorreu-me que elas são como óvulos congelados em nitrogênio líquido nos bancos de uma clínica de fertilização. Tanto podem explodir em cores e vida como continuarem ali, inertes, para sempre. Para sempre apenas possibilidades, potenciais.
Então, mais uma vez, a ficha me caiu : eu tivera uma ideia de artista de Bienal.
Uma ponte transgressora entre o prosaico e o acadêmico, a minha obra; entre o aterro sanitário e o vernissage. A desconstrução da água mineral enquanto recurso natural monetizado. A revalorização da caneta como obra de arte em si, como fonte geratriz, não apenas como um vetor, como ferramenta condutora de grandes clássicos. Os bastidores feitos em palco e protagonista.
Pãããããta que o pariu!!!! Embichei de vez!!!
Gostei do porta-canetas improvisado, é bem verdade; mas por via das dúvidas e em prol da integridade de minhas velhas pregas, assim que a bolsa secar, as canetas voltarão para um de seus bolsos internos. De onde nunca deveriam ter saído.
Vade retro ré no quibe!!! 

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