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domingo, 19 de maio de 2019

TEXTÃO DE FACEBOOK



[Texto da tag “Escritor Convidado”, escrito por Rodrigo Nemo, publicado originalmente no blog: http://nemoink.blogspot.com/]

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Nota do Ozy: Li esse texto em 2016, e até hoje guardo ele na memória. Apesar de não ter conseguido contato com o Nemo, acredito que vale a pena republicá-lo para mais pessoas. Nemo é roteirista de ilustrador de quadrinhos independentes, membro do meu zine preferido de todos os tempos: El Fanzine, que tinha suas tiras republicadas aqui no blog quase toda semana, eram as “Historietas de Quinta”. ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓



Estamos imersos em mistério e não nos damos conta dele. O mistério perpassa tudo, está ao nosso redor. Nós o atravessamos como peixes que não se dão conta de estar submersos, porque afinal, nasceram sob a água. Algumas vezes temos um vislumbre desse mistério, da grande beleza que se esconde no mundo e nas coisas; percebemos sua presença e a realidade ao redor se transfigura. Nunca (pelo menos acho que nunca, talvez um gênio consiga) chegamos a compreender e apreender a totalidade desse mistério, só enxergamos fragmentos, cacos de um mosaico construído por algo muito maior do que nós. Mesmo quando isso nos faz sentir minúsculos diante do universo, ainda assim não nos esmaga, ao contrário: nos deslumbra, porque sentimos ali, mesmo sem compreender totalmente, o proposito da criação.



Por isso os clássicos, obras criadas há séculos, ainda nos falam do mesmo mistério. Porque o mistério é o mesmo. Há situações e coisas na vida que nos permitem construir pontes entre o cotidiano e esses vislumbres escassos - um amor, o prazer, as amizades, a arte. Das artes, talvez a música faça a ligação mais direta com o mistério, uma espécie de escada rolante. Pra mim, a literatura também tem esse poder, e às vezes os quadrinhos. Não tenho talento genuíno pra nada, escrevo mal demais pra ser escritor e desenho mal demais pra ser artista plástico - mas engano o suficiente nos dois pra arriscar algumas histórias em quadrinhos. Elas são menos ambiciosas do que eu gostaria e tentaria fazer se tivesse começado cedo, com mais tempo. Porque a arte - a grande arte, principalmente, mas até a boa arte, simplesmente - precisa resvalar no mistério, no sagrado. Mesmo que o autor não saiba ou despreze essas idéias, é preciso ser tocado por elas para criar alguma coisa que dure, que fale a um estranho como se falasse diretamente a ele e só a ele. Mas para isso é preciso criar sem ódio ou a necessidade de dar um "tapa na cara da sociedade", criar sem tentar afetar um arzinho rebelde, sem seguir nenhuma modinha, criar porque é preciso explorar honestamente o mistério do mundo e da vida. Metade do que se faz hoje é negar o mistério, abraçar soluções sarcásticas e espertinhas, numa afetação hipster de quem acaba de ser desmamado e já quer arrancar o bico do seio materno na dentada. Em vez de buscar essa comunhão com o eterno, por mais pretensiosa que pareça esta ambição, os quadrinhistas brasileiros (com raras exceções) optam por abraçar o perfil "engraçadinho-espertinho-descolado-hipster-irônico-despachado-nem aí-largadão-militante-contestador de esquerda (contestador a favor da ideologia dominante/hegemônica, como pode?)". Investem na precariedade e no amadorismo como ferramentas de autopromoção e marketing pessoal, em vez de seguir o caminho do profissionalismo e de uma arte mais original e séria no sentido de comprometida com verdades universais, eternas e incômodas ou com um impulso criativo honesto e visceral, que ignora as posturas artificiais e os agrados aos patronos da mediocridade.

Em algum ponto do século 20 tornou-se cool assumir uma postura blasé contra tudo isso, negar cinicamente a existência de verdades essenciais em favor do relativismo moral, da militância politicamente correta e da "gambiarra is beautiful", e desde então a humanidade caminha mancando. Fazemos por menos e nos vendemos baratinho por uma popularidade que parece não chegar nunca na medida esperada. Nada pode parar a "chopada descolada de barzinho de intelectual universitário progressista de esquerda" que virou a cultura mundial. E, desse jeito, nada pode nos tirar do poço sem fundo da banalidade. Isso vale para tudo, todas as artes, mídias e veículos - até o El Fanzine, que ajudei a fundar, às vezes escorrega nisso aí, nessa postura "adolescentão fanzineiro nem aí pro leitor ou pra lógica editorial".

E depois ninguém sabe porque nada aqui dá certo; não é culpa do governo, do mercado, das editoras, de ninguém além de nós mesmos. Somos um povo cultural e intelectualmente inferior, e é preciso aceitar essa realidade para que possamos enfrentá-la. Enquanto continuarmos fingindo não enxergar o óbvio, continuaremos sendo vítimas dele,   vitimas de circunstâncias cujo surgimento foi autorizado e facilitado por nós mesmos. Mas é claro que...



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