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Hoje é Dia de Sala Especial, Baby

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Seus olhos brilharão em festiva nostalgia, caro leitor das antigas do Marreta, você que já está na faixa etária dos 45 anos para mais, quando eu revelar o tema desta postagem.
Sua memória, tal e qual a minha, uma fita Basf de ferro já desgastada e desmagnetizada pela vida e pela lida se acenderá em leds a sinalizar as estradas vicinais do passado. Você que não se lembra nem do que comeu ontem (ou quando foi a última vez que comeu alguém) terá reativadas as mais recônditas de suas memórias : a memória afetiva e, sobretudo, a memória punhetiva.
O assunto, hoje, é, rufem os tambores : a Sala Especial.
Lembrou dela, né? Claro que lembrou. Com seus dois cérebros; com sua massa encefálica e com sua massa fálica. Se não ficou em riste, ao menos uma meia-bomba, tenho certeza, a lembrança lhe provocou.
Aos mais novos, cabe aqui um breve esclarecimento histórico.
A Sala Especial era um dos principais - se não o principal - carros-chefe da programação da TV Record dos fins da década de 1970 a meados da de 1980. Era a atração semanal da TV mais aguardada pelos punheteiros deste Brasil dantes mais varonil. Um respiro de luxúria em uma época em que a necessária e terapêutica pornografia era artigo escasso. Época em que, só a lhes dar uma ideia, revistas como a Playboy não podiam exibir a genitália nem os bicos das tetas das gostosas.
A Sala Especial exibia a nata, o suprassumo da vasta produção da pornochanchada brasileira sempre às sextas-feiras no horário das 23:30 h (embora sempre começasse depois da meia-noite) e, geralmente, após a Sessão Faixa Preta, dedicada a filmes de kung fu, gênero de filme então muito em voga. Que é disso que o macho das antigas gosta, de pancadaria e de buceta.
A Sala Especial era o horário nobre da TV Record. O Fantástico dos punheteiros.
Porém, nem tudo eram flores. Quando o filme começava a esquentar, quando, finalmente, parecia que veríamos uns peitinhos, uma bucetinha, ou uns amassos mais ousados, a cena era cortada. Ou entravam os comerciais, ou a cena era dirigida para uma tomada externa, o calçadão de Copacabana, o centro de São Paulo, uma bucólica fazenda etc.
Esta era a grande sacanagem da Sala Especial : não mostrar a sacanagem. 
E não era só isso. Não era só esperar chegar a sexta-feira, ligar a TV e pronto. Nada disso. Assistir à Sala Especial não era atividade simples e tranquila. Envolvia toda uma preparação, uma estratégia quase que de guerra e estávamos sempre sob grande estresse.
Éramos adolescentes, morávamos com os pais, e a putaria não era aceita e liberada como é hoje. Para assistir à Sala Especial tínhamos que estar sempre atentos para burlar a vigilância e a censura materna - muito piores que as do Geisel e as do Figueiredo.
Primeiro, chegado o grande dia, tínhamos de esperar (e torcer muito para) que os pais fossem dormir, o que nem sempre acontecia. Depois, uma vez os genitores em seus justos e merecidos sonos, não podíamos deixar que o som da TV - um gemido mais gozoso de uma atriz - os acordasse e os alertasse do que estávamos a assistir. Fechávamos, pois, a porta que dava para o corredor e que separava a sala dos quartos e dos banheiros. Mais : pais dormindo, porta da sala fechada, havia ainda o risco de um dos queridos genitores se levantar para ir ao banheiro, ou acordar com algum barulho na rua e aproveitar para dar uma fiscalizada na sala. Assim, assistíamos à Sala Especial grudados ao aparelho de TV, para que, ao menor ruído no corredor, trocássemos rapidamente de canal; é, meus caros, na época, controle remoto era item de ficção científica, o negócio era no dedo mesmo, nos botões analógicos e barulhentos da TV, a cada troca de canal era um clec, clec, clec desgraçado. Desenvolvi, inclusive, uma elaborada técnica para trocar de canal sem produzir barulho nas teclas.
E tudo isso, para quê? Para quase vermos um peitinho? Uma sombra de peito, um mamilo eriçado visto na contraluz, feito em um teatro de sombras, já nos dava inspiração para a punheta da semana inteira. Apesar de todo o risco e da pouca recompensa, não desistíamos : na sexta-feira seguinte, estávamos todos lá de novo, a postos.
E todos aqueles peitinhos e aquelas bucetinhas que nos foram negados ao longo dos anos? Para onde iam depois que a cena era cortada? Onde ficavam? Por onde andarão todos eles?
Então, ontem, ao ligar a TV no canal Netflix, surgiu a sugestão de um filme recém-colocado no catálogo do canal : "Histórias que nosso cinema (não) contava.
Li a sinopse e meus olhos marejaram. Ali, bem à minha frente e ao toque do meu controle remoto. Ali estavam todos eles, os peitinhos e as bucetinhas não nos mostrados na Sala Especial.
O filme-documentário foi engenhosamente montado apenas com cenas de vários filmes de pornochanchada das décadas de 1970 e 1980, cenas que foram cortadas não apenas da Sala Especial, mas também dos cinemas em que tiveram suas exibições. Cenas estirpadas das películas pelo departamento de censura da época, por motivos moral e/ou político.
Costuradas em ordem cronológica, as cenas não apresentam apenas os peitinhos e as bucetinhas há tanto escondidos de nós. Embora este seja o fio condutor do filme - os peitinhos e as bucetinhas -, ele pretende também montar um painel social e político do Brasil do "milagre econômico".
Tanto que, caro leitor, você terá de resgatar aquela velha paciência do passado, aquela paciência de atirador de elite em campana à espera do alvo, a paciência de quando assistia à Sala Especial, para passar pela primeira meia hora de filme, a partir do quê, peitinhos, bundinhas e bucetinhas começarão a balouçar e a pulular pela sua tela. 
Peitos das antigas. Sem silicone. Cada um de um formato. Cada um de um tamanho. Uns mais em pé, outros menos. Uns mais caídos, outros menos. Uns mais rosados, outros mais morenos. Todos apetitosos. Destaques para Vera Fischer e Sandra Bréa no auge de suas gostosuras
Além das gostosas, outra tônica do filme são algumas falas dos atores. Falas que fariam arrepiar os pelos das pernas e dos suvacos das feministas. A exemplos : dois amigos olhando para uma cuzuda na praia, comentam : com um rabo desses, eu vivia de renda, diz o primeiro; e ficaria rico, conclui o segundo; dois outros amigos estão a apreciar o derrière de uma mulata e um deles fala : se bunda pagasse imposto, essa mulata tava falida; e, a melhor de todas, dita pelo depois galã global Rubens de Falco, o Leôncio de A Escrava Isaura : "vocês, mulheres, é que são felizes, já nascem com um talão de cheques entre as pernas".
Pããããããããta que o pariu!!!!! Perto disso, o que hoje é considerado politicamente incorreto é um escoteirinho bem comportado.
O filme foi montado com cenas de alguns dos clássicos da pornochanchada nacional : A Super Fêmea, As aventuras amorosas de um padeiro, Amadas e Violentadas, Cada um dá o que tem, o Corpo Devasso, o Enterro da Cafetina, Histórias que Nossas Babás não Contavam, Os Mansos, Palácio de Vênus, A Ilha das Cangaceiras Virgens, Elas São do Baralho etc.
Abaixo, cenas de dois dos grandes campeões de audiência e de punhetagem da Sala Especial.
 A Super Fêmea; com Vera Fischer
As Histórias que Nossas Babás Não Contavam; com Adele de Fátima, ex-mulata do Sargentelli, no papel de Clara de Neves, com direito a sete anões bem-dotados e tudo. Pããããta que o pariu!!! Repito, perto disto, o que hoje chamamos de politicamente incorreto  é nada mais que um tímido e pudico coroinha.

Devo confessar, no entanto, que apesar de muito ter apreciado os peitinhos e as bundinhas censurados, alguma coisa pareceu faltar. Algumas coisas. Primeiro, faltaram os meus 14 anos. Depois, faltou a espera pela sexta-feira, a expectativa, faltaram a tensão e a orelha sempre em pé para não ser flagrado. Faltou até a TV Telefunken, em preto-e-branco, à válvula e com suas teclas barulhentas. 
Enfim, faltaram todas as coisas que o despotismo do tempo nos cortou, todas as coisas as quais a ditadura do tempo censurou.

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