Todo o talento e insanidade de Wally Wood em CANNON - OZYMANDIAS_REALISTA

Breaking

Ano IV! Quadrinhos, cinema, opinião, downloads, xadrez e mais 200 coisas.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Todo o talento e insanidade de Wally Wood em CANNON


Eu acho legal como tem vários autores de HQs que metem o louco às vezes e fazem uns negócios muito sem-noção. Acho que quase todos fazem isso, até Alan Moore, Mark Millar, você vê umas coisas completamente insanas. CANNON é desse tipo, mas tem suas várias particularidades. O trabalho foi trazido ao Brasil pela editora Pipoca & Naquim, que tem uma história muito interessante. Eles eram um blog e um vlog do Youtube, com o nome "Pipoca & Nanquim", que comentavam sobre cultura pop. Diferente de muita gente que se coloca a falar disso sem entender nada, dizendo um monte de asneiras, eles trabalham no mercado com edição e tradução de quadrinhos e livros, sendo não só muito familiarizados, como também apaixonados pelo assunto. Os três principais eram o Alexadre Calari, Bruno Zago e Daniel Lopes, que são os que aparecem nos vídeos, mas ainda tem uma outra turminha que ajuda por trás da câmera.

Além de serem inteligentes, os três têm um puta carisma

É muito raro eu acompanhar vídeos de canais do Youtube, seja youtubers ou canais de videogames, pela simples razão de que eu não gosto, nunca tive paciência mesmo. O Pipoca se destaca como o único que eu procuro assistir quando quero uma boa fonte de informações, o que, infelizmente, muitas grandes referências não são faz tempo. A proposta deles como uma editora, de acordo com os próprios, é pegar muitos materiais que eles se perguntam, "como ninguém nunca publicou isso aqui?" e trazer pra nós.  Eis que eles trazem CANNON do falecido escritor/desenhista Wallace Wood.


É uma personalidade meio tabu. Ex-soldado militar, Wood foi um dos melhores no território da nona arte, marcando em revistas de comédia como Mad, HQs de super-heróis, ficção científica, eróticas, terror e até publicidade. Workaholic, sofria de enxaquecas crônicas devido ao pouco sono e a rotina movida a cigarros, cerveja e café. Após sofrer de falência renal e ter um derrame, Wood viu que o estado do seu corpo não permitiria mais que ele desenhasse, que era a única coisa que fazia, e numa frequência monstruosa. Eis que na noite de Dia das Bruxas de 1981, Wood com 54 anos se matou com um tiro na cabeça sem deixar qualquer bilhete. Não surpreende que o nome dele seja menos popular que o do Stan Lee... Mas vamos falar da vida dele! Vamos falar de CANNON!


"-Aliás, Bill, o que você acha de hippies de cabelo comprido?
-Me mostra um que eu mato!"

As revistas de CANNON eram publicadas como entretenimento para os soldados americanos que estavam lutando na guerra do Vietnã em 1969 e precisavam de alguma forma de distração. CANNON era um grande soldado americano que havia sido capturado pelos comunistas e sofrido lavagens cerebrais. A CIA conseguiu recuperá-lo, mas viu que a única saída era fazer outra lavagem cerebral resetando Cannon completamente, o transformando em uma máquina de matar sem qualquer sentimento. A partir daí o homem é mandado em missões secretas onde a fanfarronice rola sem qualquer limite. Eles seguem na onda dos filmes do 007 que estavam fazendo sucesso na época e o soldado se vira das formas mais zueras, seguindo seu papel de "soldado sem qualquer sentimento!" Diferente do 007, que pegava mais mulher do que atirava, aqui o romance é ainda mais absurdo! A cada dois quadros tem uma mulher pelada ou semi-nua, sem exagero, acho que nem filme pornô tem tanta mulher pelada.


É como se as minas não conseguissem dar dois passos sem que as camisas abram de alguma forma. Em qualquer parte que você abra vai perceber que o negócio é super zuado. É tudo preto e branco em formato horizontal. Em alguns momentos o machismo erótico chega aos níveis da misoginia. É tipo assim:
"-Ai Cannon, estava pensando que a gente poderia passar mais tempo juntos...
-Não vai me falar que você quer casar, caralho?
-Oh, Cannon..." e a mina começa a chorar.

Mas é pura doideira, trash de ação como poucos. Eu, particularmente, que nunca tivê paciência pra 007, sempre achei idiota, me diverti mais com o Cannon, que pelo menos se assume como uma história sem noção mesmo. Há até o Hitler que possui a psique de um cara do nada e aí ele vira o Hitler!!!

É difícil achar uma página que não tenha uma mulher pelada

Uma coisa curiosa, é que enquanto muitos clássicos antigos de HQs, como os X-Men do Chris Claremont, soam ultrapassados, com muito texto, isso não acontece com CANNON, a narrativa é extremamente ágil e os desenhos muito bem feitos, principalmente de equipamentos, como veículos e armas (o próprio Wood havia sido militar) e, é claro, as mulheres bonitonas que aparecem o tempo todo sensualizando, mesmo quando não faz o menor sentido. Claro que não é uma HQ tradicional, como uma HQ feita pra soldados em guerra seria tradicional? Mas tendo isso em mente é uma leitura interessante que dura bastante tempo, diverte pra quem gosta de besteirol. Me surpreendeu pra um material de tantos anos atrás. Claro que, uma mulher mais sensibilizada com vulgaridades pode achar tudo muito ofensivo, mas é bom ter em mente o contexto da publicação.


O mais interessante pra mim foi conhecer o Wally Wood, que eu NÃO TINHA A MÍNIMA IDEIA DE QUEM ERA!!! O cara é um dos maiores nomes dos quadrinhos e eu nunca tinha ouvido falar, estranhei. A razão é de que ele passou pouquíssimo tempo no mercado de super-heróis mainstream, que é o que costuma chegar com mais barulho no meio popular. Sendo todos os envolvidos no Pipoca & Nanquim muito apaixonados por HQs, dá pra notar a dedicação no design todo, resultando em uma publicação muito bonita, claramente com o intuito de apresentar o gênio do Wally Wood pras pessoas, o que pelo visto eles conseguiram. Particularmente, fiquei curioso pra conhecer os trabalhos de space opera do cara, onde dizem que ele também foi um expoente. Pornô não é bem minha praia...


Outras publicações que a editora Pipoca & Nanquim fez foram "Espadas e Bruxas" de Esteban Maroto, uma adaptação em quadrinhos de "Moby Dick" por Christophe Chabouté, "Beasts of Burden" de  Evan Dorkin com Jill Thompson e "Um Pequeno Assassinato" do Alan Moore, que logo que puder eu posto uma análise pra vocês. Eles têm sempre trazido coisas que soam um tanto inéditas, são sempre publicações interessantes. O foda é que é um negócio meio elite, você não vai achar uma HQ deles que custe menos de cinquenta reais, é tudo assim "chic". Engraçado, acho meio paradoxo. Nos últimos anos tenho parado de comprar algumas HQs que acompanhava porque ficou tudo mais caro com a crise e tal. Enquanto isso abre uma editora nova começa a publicar AINDA MAIS gibis, e teve a popular Darkside também, que começou a publicar HQs ano passado, que já deve ter lançado uns 4 ou 5 títulos em menos de um ano. Tudo nesse estilo assim, "pra elite". Engraçado, e eu sem dinheiro, hehehehe. Mais opções pra gente comprar, mas temos que ter dinheiro pra comprar, hehe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar este blog