domingo, 11 de setembro de 2016

Serj Tankian: utopia em forma de música


"The arms of time are breaking off! Civilization is on trial! The clocks eliminating time! Do you believe in me?"

Um cara que tem a discografia do "System of a Down" no histórico pode deitar com as pernas jogadas pra cima e relaxar o resto da vida que sempre será lembrado como um artista único. Mas mesmo assim não fica por aí... Além do tempo lutando em System City, há outros trabalhos paralelos que Serj faz enquanto fica escondido na System caverna. Mas antes de falar deles... pra quem não conhece vamos começar introduzindo...


O que foi o System of a Down?


"What's in us that shuts a deaf ear to the cries of human suffering?!"

O que foi, ou ainda é? Difícil descrever com certeza, os caras tinham voltado a tocar ao vivo recentemente, mas voltar com músicas novas tá difícil. Então vamos ficar no passado mesmo. Em 1992 surgia a banda armênia gritando "whyyyyyy motherfuckeeeer genociiiiide fuck yooou sugaaaar" logo que saiu de dentro da barriga da mãe. Desde o princípio eles demonstraram singularidade com seu estilo pesado e misto em estilos, às vezes fazendo versões pesadas de folk armênio, tocando de forma extremamente suave e no oposto tocando bem pesado com estilo de Metal Industrial. Na real, ninguém consegue encaixar bem o estilo deles em uma definição, porque meio que tem nada parecido. Eles são o System of a Down. Pesadíssimos, muitas vezes caricatos e completamente loucos, mas nunca sem ter uma criatividade e sensibilidade invejáveis. É impressionante como eles podem parecer sensacionalistas com seu jeito de "gritalhões", mas são uma das bandas populares mais inteligentes que existe.


Apesar de preferirem não explicar suas letras (algumas são bem pesadas), eles não se importam de falar sobre suas visões de política, religião e ideologias, que é do que se trata muito do que escrevem. Incluído nisso está o vocalista Serj Tankian, não o único letrista da banda, mas um dos principais. Ele conta como seus avós foram refugiados sobreviventes do genocídio armênio e quando garoto ele ouvia as histórias deles. As músicas, na grande maioria politizadas, ou com alguma análise/crítica de sociedade e comportamento, acabam refletindo isso.



Com três membros de uma banda tão talentosa a menos, a previsão acaba sendo que um trabalho solo de um membro do System of a Down passaria naturalmente uma impressão fraca, ainda mais se tratando do Serj, que apesar de apresentar um vocal incrível, teve a voz claramente desgastada com o passar dos anos. Hehe... mas as coisas são engraçadas. Eis que ele nos surpreende com...


Elect The Dead (2007)


"Wouldn't be great to heal the world with only a song?"

O Sr. Tankian já estreia provando que mesmo por conta própria ele não é brincadeira. O início do álbum chega a lembrar um pouco o System of a Down, principalmente a segunda faixa, "The Unthinking Majority", que apresenta ritmos bem inesperados e inconstantes. Não chega a ser completamente conceitual, mas a ideia usada para a maior parte das músicas é bem interessante. Serj apresenta a seguinte lógica: o mundo está perdendo para a civilização. O avançar da humanidade, o chamado progresso, ocorre de forma diretamente proporcional à destruição dos recursos naturais do planeta Terra.


O comprometimento artístico é impressionante. Pra não dizer supremo. Poeticamente o cara fataliza com todas as letras, deve nada aos trabalhos no SOAD. Há algumas metáforas que até são difíceis de entender a princípio, como "Honking Antelope", mas fascinam mesmo assim. Há algumas letras bem dramáticas e pesadas que parecem referenciar ao genocídio, como "Falling Stars" e "Empty Walls", cujo clipe se passa em um tipo de creche, com crianças brincando como se estivessem em uma guerra. Esse foi o primeiro clipe liberado, e falando neles, há clipes pra todas as músicas! "Elect The Dead" não se trata de uma mera produção paralela! É um álbum muito bem trabalhado. Quase todos os clipes são diferenciados. Mesmo nem todos envolvendo o vocalista Tankian, eles se utilizam de atuação, modelagem e direção sempre de forma curiosa.


Se mostrando um menino prodígio, Serj não só cantou e escreveu como tocou quase todos os instrumentos (que são bem variados, não só aqueles clássicos de bandas de rock, há piano e outros) além de ter sido o produtor do álbum, na gravadora fundada por ele próprio, chamada "Serjical Strike". Phil Collins e Dave Grohl se morderiam de inveja com tanta versatilidade. O baterista John Dolyman do SOAD contribuiu com as faixas de bateria, além de haver alguns outros colaboradores, mas o Serj fez quase tudo. Há até um making-of de sarro onde ele aparece entrevistando a si próprio e fazendo toda a gravação do álbum, como editor, instrumentista e empresário. Ouvir "Elect The Dead" do início ao fim, ainda mais contando com os clipes, você passa por uma série de reflexões, pois Tankian trabalha tanto as suas filosofias macroscópicas quanto ao estado do mundo, quanto problemas pessoais de seres humanos, seja nas músicas que expõe a guerra e o genocídio, ou mesmo em algumas faixas dramáticas sobre relacionamentos, como "Baby". É um trabalho inteligentíssimo, quando ele termina você está perdido tentando se encontrar em tanta coisa que passou pela sua cabeça. Uma obra de arte completa.



Elect The Dead Symphony (2010)


"Why do we sit around and break each other's hearts tonight?"

Serj excursionou bastante com sua banda de apoio, os F.C.C. (Flying Cunts of Chaos/Bucetas Voadoras do Caos), em shows que ele não tocava as músicas do SOAD, apenas as do seu trabalho autoral e um cover de "Holiday in Cambodia" dos "Dead Kennedys". Mas em 2009 ele fez algo bem diferente, tocando as músicas com toda uma orquestra, o que levou ao "Elect The Dead Symphony", que foi gravado em DVD. Bem diferente do que se esperaria do frontman do System of a Down, uma banda sempre lembrada pela imagem de gritaria e postura "fuck the system". Em "Elect The Dead Symphony" não há intervenções de rock ou heavy metal, todas as faixas são tocadas com instrumentos de música clássica. É incrível como fora da sua (até o momento, na época) área de atuação, Tankian foi extremamente competente e elogiado pela sua legião de fãs.

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O experimento foi bem sucedido e de suma influência pro futuro próximo...


Imperfect Harmonies (2010)


"We have built our lives without nature in mind. Slowly, we've become the disease. But we won't go..."

A ideia das letras continuou a mesma (que afinal, é bem ampla) e aqui o músico continua produzindo em caminho do infinito. Serj é tão ecologicamente consciente que o álbum atrasou porque os livretos que vinham juntos iam ser impressos sem papel de árvore(!). "Imperfect Harmonies" quase não lembra o System of a Down, no que se trata da sonoridade. Uma das faixas mais chamativas, "Borders Are" é bem suave, sendo intensa do mesmo jeito. É praticamente o que acontece com todas as faixas, a exceção é "Left of Center", a única que soa mais agressiva.

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Os experimentalismos com a orquestra resultaram em AINDA MAIS versatilidade, aqui há influências de jazz, eletrônica e música clássica. As filosofias das letras continuam contando com metáforas muito boas, mas aqui são mais abstratas. A forma que ele escreve/canta com um monte de palavras complicadas, estranhas de se ver em música, continuam carimbando a identidade do armênio. Vou deixar uma parte de "Peace Be Revenged" de exemplo

"When the rain washes all the mitochondria
Try to steer your intentions into love
When your tears mixed with rain wash your ocean's fear,
I won't be here then, you won't be here when"


Quem que pensaescreve isso? A resposta está escrita no post inteiro: Serj Tankian.

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Em "Imperfect Harmonies" Serj faz algo que sonoramente parece completamente diferente de "Elect The Dead" e ainda assim mantém suas principais características: coragem, criatividade, subjetividade, crítica... uma enorme inteligência. Ele é poético e amoroso traçando seu retrato do nosso mundo e os que vivem nele, às vezes dando suas agulhadas revoltadas como fazia tão bem no System of a Down. Há até uma faixa chamada "Yes, It's Genocide/Sim, É Genocídio". Mais uma vez... um trabalho indispensável.

"Pense diferente."


Harakiri (2012)


"Without an education there is no real democracy. Without an education there is only autocracy."

Voadora? Hadouken? Fatality? Precisamos de um novo golpe para descrever um impacto desses... Acho que podemos chamá-lo de "Harakiri". Sabe tudo que eu falei e puxei saco até aqui? Neste terceiro trabalho não só se repete, como talvez até melhore. Só não dá pra afirmar com tranquilidade que "Harakiri" é melhor que todos os outros, pois os outros também não são simples de se comparar. Não são trabalhos ordinários, cara! É o contrário, são extraordinários!


Esse é mais próximo do rock, como "Elect the Dead", mas... em algumas faixas. Aquela versatilidade absurda continua. A primeira faixa já é impressionante: "Cornucopia", também nome de uma música antiga do "Black Sabbath". Cornucopia tem um significado amplo, mas dá pra resumir como fertilidade. Serj dá um up nas suas mensagens sobre a mãe-natureza que já podiam ser conferidas em alguns de seus trabalhos mais antigos como "Holy Mountains" e "Science".

"Você acredita em clima de tempestade, clima de tempestade?
Furacões brincam de dança das cadeiras com casas e mobília
Os tornados dervixe rodopiantes exalam todo o desastre
Tsunamis balancês, dão e tiram, qual é o problema?
Eu te amei ao nascer do sol
Você perseguiu a lua com uma lança
Eu rezo pra que você seja todo meu
Você baba pela boca e desaparece..."
Em sequência vem aquele monte de faixas criticando questões políticas e sociais, o incrível são duas das melhores músicas que vem em sequência: "Harakiri" e "Occupied Tears" o álbum poderia acabar aí na sexta faixa e já seria perfeito. Eis que após mais quatro músicas vem "Uneducated Democracy", um rock extremamente diferenciado e várias das marcas registradas de Serj, como as melodias que passam de rock pesado pra ritmos que parecem ter saído de uma animação musical como "O Estranho Mundo de Jack". Os clipes continuam bem especiais, o de "Uneducated Democracy" segue o estilo de bonequinhos como já rolava com "The Unthinking Majority" e "Left of Center". A última, "Weave On", é devastadora, a única que teve a letra escrita por outra pessoa que não o cantor, Steven Sater, que inclusive também escreveu "Tyrant's Gratitude", uma das faixas extras, que também são inacreditáveis.

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Nota 10.

Mais uma vez, Serj compartilha com o público toda a sua imensa coragem, inteligência e criatividade. O título do post cabe bem a todos esses trabalhos. Ele toca sobre paz, a natureza, destruição, sentido e significado. É utopia em forma de música. Poesia sobre temas infinitos. Uma tremenda viagem que você tem certeza que vale a pena. Não é só indispensável para fãs de Metal e System of a Down. É indispensável para todo mundo. Inclusive porque a forma mais convidativa ao grande público que ele canta aqui do que no SOAD provavelmente atrai mais pessoas que não estão acostumadas com o estilo pesado. Nesses trabalhos Serj mostra que apesar de ter perdido boa parte do potencial de sua voz quando começou, ainda consegue fazer gravações dignas de nota, mesmo sem ficar gritando loucamente o tempo inteiro.

"Eu acho que todo artista deveria seguir sua visão, seus corações. É o que eles precisam revelar, não algo que a sociedade esteja esperando."


Serart (2003), Orca (2013) e Jazz-Iz-Christ (2013)



Pois é, tem mais. Como o próprio diz, ele é praticamente um mago da música, compondo o tempo inteiro. Tankian faz um monte de músicas, às vezes ele vende pra games, pra séries, faz trilhas de filmes armênios, ele diz até que gostaria de trabalhar com grandes diretores famosos como Quentin Tarantino, quem sabe um dia, não é mesmo? É de toda essa variedade que surgem tantos trabalhos, mas além desses que eu citei ainda há produções mais alternativas:

Serart: Álbum homônimo de Serj junto a seu amigo Arto Tunçboyaciyan. Como dá pra notar, o título é mistura do nome dos dois. É um gênero meio estranho, bem diferente de todo o resto.

Orca: Após "Harakiri" o músico voltou completamente à sinfonia clássica. "Orca" é dividido em quatro atos instrumentais. O nome do animal veio de que a orca é conhecida como a baleia assassina, mas é na verdade um golfinho escuro, servindo como simbolismo para a dicotomia humana.


Jazz-Iz-Christ: Enquanto em "Orca" a dedicação é virada para a clássica, aqui Serj grava um trabalho todo de jazz. Há faixas sem vocal, enquanto outras são cantadas por outras pessoas, só quatro pelo Serj. É curioso, assim como o título que parece ser só de zuera, já que há nenhuma discussão clara sobre religião, só a capa do álbum com um saxofone crucificado.

Demoraria muito pra eu escrever aprofundadamente sobre tudo que ele faz, inclusive porque já tô querendo publicar isso desde o ano passado... Esses trabalhos também são curiosos, mas deixo só como menção. Os essenciais são "Elect The Dead", "Imperfect Harmonies" e "Harakiri"; indispensáveis. Há pouco tempo, esse ano mesmo, Serj publicou um vídeo parecendo um eremita, tocando um violão cantando uma música em homenagem aos 20 anos de independência da República de Artsakh. A música é na língua dele, mas não vou ficar explicando porque consegui achar um vídeo com legendas em português.

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"Com rock, a quantidade de poder que você pode gerar, a intensidade por trás das intenções das suas letras que podem refletir pelo rock - você não pode fazer isso com jazz. Você não pode fazer isso com música clássica."


Serj e Daron, a dupla perfeita


Observando os trabalhos antigos dos caras após ouvir os solo é interessante notar as influências de cada um. O guitarrista/vocalista Daron também tem um trabalho paralelo com o baterista John, se chama "Scars On Broadway", daria para um outro post separado. Mas dá pra notar como muito da parte que desce a unha na pele vem do Daron, nos trabalhos solo do Serj mesmo tendo algumas zueras, ele até canta palavrões de vez em quando, mas dificilmente tem coisas como "My cock is much bigger than yours", "Fuck you pig", "Gonorrhea, gorgonzola" entre outros. Isso faz notar também como o System é uma união tão perfeita! Eles são ótimos separadamente e juntos são melhores ainda.


Quanto ao futuro? Infelizmente não dá pra fechar com nada muito promissor, pelo contrário. Recentemente a banda havia voltado a tocar ao vivo, inclusive tocaram no Brasil fechando a última edição do Rock in Rio e passando em São Paulo também, com setlists enormes. Mas apesar de terem se reunido, Tankian diz com todas as palavras que não tem tempo para gravar um novo álbum do System.

"Não posso escrever um álbum forçado. Não é uma escolha. Não é como fazer uma pizza."

Ele explica que os álbuns do SOAD demoram muito para serem gravados, não havendo sequer previsão de um retorno criativo. Os últimos dois álbuns foram lançados em 2005, "Hypnotize" e "Mezmerize". Se esses fossem os últimos álbuns da banda seriam uma despedida lindíssima e perfeita, já que é o que esses álbuns são. Difícil imaginar como quatro pessoas conseguem gravar uma sequência tão grande de músicas tão malucas e incríveis (B.Y.O.B, Cigaro, Radio/Video). Por outro lado, eles são tão bons que ficamos babando por mais. Os trabalhos solo do Serj são a única continuação. Eu não vou explicar "Hypnotize" e "Mesmerize", cara, isso também daria outro post. Se você não ouviu, simplesmente ouça, não há chances de se arrepender.


Atualmente Serj é ativista político e ainda trabalha com música constantemente, mas nesses trabalhos paralelos dele, não parece haver previsão de um novo álbum. Ele continua trabalhando com trilhas, fez exposições de quadros sobre suas canções, além de ter tido um filho que ainda tem dois anos; então não dá pra ter certeza se ele vai sacrificar temporariamente o trabalho pra ficar mais próximo do filho neném. E é isso, meus queridos leitores. Vou fechar deixando a letra e o clipe da minha favorita: Occupied Tears.

"I forgot to... bring you roses...
When you hit the floor
Your nouveau poses
Asking for war
Have you forgot the wall?
I've foreseen it all
We've foreseen it all
Holocaust... you taste the great fear...
How can you just occupy another child's tear?
Don't you all know?
Don't you all care?
Don't you all see how this isn't fair?
Are we all blind? Do we not see?
Do we not bleed?
The faint cries of lost limbs...
Mimes surrounded by mines...
Without warning signs, of the great sacrifice.
Holocaust... you taste the great fear...
How can you just occupy another child's tear?
Don't you all know?
Don't you all care?
Don't you all see how this isn't fair?
Are we all blind? Do we not see?
Do we not bend to misery?
Of course we all know
Of course we all care
Of course we all see how this isn't fair
We are not blind, yes, we do see
It's time to end this misery
It's time to go up to bed
No more sipping on our regret
Tuck the kids in without worry
No more running out in a hurry
No more bombs falling over head
No more sirens predicting death
Yes, it's the two-state solution
No more glaring through oblivion
Asking for war
Have you forgot the wall?
I've foreseen it all
We've foreseen it all
It's no mystery...
It's no mystery..."

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