segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O ROSTO NA AREIA


14 anos ele tinha
Um senso de ser imortal
Um coração que se apaixonava fácil
E um pensamento de que nunca seria adulto.
Quando a viu pela primeira vez
Teve como certo de que um dia a teria
Ela seria diferente de todas as outras
Que costumavam gostar dele
Até ele começar a falar...
Usou sua estratégia
Calculando suas falas
No dia que falasse com ela
Conseguiria impressioná-la.

Seria não muito gentil
Mas não rude
A surpreenderia
Tentaria compensar sua pobreza
E falta de atributos estéticos
A fazendo se sentir especial.

Após meses a abordou
A conversa fluiu
Além de linda
O dava atenção
Em tal idade, isso mais
Que bastava.

A chamou para passear
Ela era simples
Não como as outras esnobes
Montava em sua bicicleta
E passava horas com ele em praças.

Usava vestidos
tinha uma beleza rústica
Parecia gostar dele,
Mas ambos não se confessavam.
As horas que passavam eram
Minimamente naturais
Como se nunca houve-se
Um antes ou depois.

Ele agora tinha 15
Sentia que envelhecia
Mas por ela
Era capaz de combater
Até os mais próximos aliados.

Numa bela noite,
Ele resolveu se declarar
Andaram de mãos dadas
Na chuva e no frio,
E sorrindo saiu com o "sim"
Mesmo não conseguindo
Um único beijo.

Tudo lhe era lento
E ele gostava disso
Era seu "castelo de areia"
Em total definição
De Tim Maia.

Seu melhor amigo
E figura paterna
Lhe pressionou
Ou ficaria com ela
Ou com seu emprego
Ou ela, ou seus amigos,
Ou ela ou sua família.

E após muitos segredos
E encontros às escondidas
Tais como "enimigos públicos",
Ele marcou de conhecer
A mãe dela,
Na forma mais tradicional
Seria esse o dia
Que a beijaria
E a chamaria de amor.

Mas tal dia não chegou
Ou ao menos,
Como haveria de ser.
Ela o esperou por horas
Com sua melhor roupa
E melhores esperanças
E por medo,
Ele não apareceu,
E nunca mais se viram.

Tudo o que restou
Foram lendas
E fragmentos
De um tempo em que
Ele conseguia falar
De amor e afins,
Além de pedaços
De histórias sobre ela
Contada por vários.

Uns disseram que ela
Haveria se casado
Outros que virou
Uma prostituta,
Que tem uma filha,
Que encontrou outro
para iludir
Sendo esse
Quarenta anos mais velho
E quatro vezes mais rico.

As praças de outrora
Parecem terem ficado vazias
E as ruas tão largas
Que ambos nunca mais
Se cruzariam
Ou saberiam
Que o outro está vivo.

Agora ele tinha 17
E reconhecia o declínio
A falha e a ignorância
A leitura o preenchia
E a escrita o consolava
Desejava só um dia
Olhar a desgraçada
E com dentes trincados
E lágrimas nos olhos
A questionar:
Por quê?!

Mas descobriu que a vida
Não se fecha
Como arcos de quadrinhos.
Questões ficam sem resposta,
Vilões não são detidos,
E heróis se trancafiam
Na mais profunda covardia
Quando alguém se sente ferido.
Próximo aos 18 escreveu
Todas as suas frustrações
Em um PDF
Fez apático o upload
E não esperou
A vergonha dos 18 chegar
Sem muita coisa
Para se sentir orgulhoso.

Em uma madrugada silenciosa
Chorou pela última vez
Um dia antes a seu aniversário
Com a corda mais brava
Que encontrou.

Não houve Fênix
Ou revolução por seu
Nome e seu escritos
Houve só a fraqueza
De não se admitir
A derrota
Por toda uma vida.

Um comentário:

  1. Quem postou, roubou fatos da adolescência do meu mundo! Porra véi, aonde está a criatividade? Esta vida, todos da minha geração, anos 80,viveram, aí vem você, e se apossa dos traumas nossos! Ou fomos nós, geração 80, que nos apossamos dos traumas da "geração 70"?

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