Muita gente, por ignorância, má fé ou ideologia bate o martelo de que o personagem do Kratos só começou a ter complexidade e desenvolvimento do PS4 pra cá. GOW talvez seja a franquia que eu mais “cresci jogando” entre todas, mesmo que no meu ranking existam outros pesos pesados como Resident Evil. A minha ideia com esse texto hoje não é discutir as mudanças na gameplay, mitologias ou o “reflexo da cada época que cada game foi lançado”, ou mesmo o meu ranking com os melhores games (achei que já tinha até feito esse post, mas não encontrei no blog)...
Eu vou usar o “dia dos pais” como desculpas
para discutir um pouco sobre a jornada do personagem em si, como ele lida com
punição, culpa e redenção. Obviamente, isso vai ter spoilers de todos os
games, talvez não do Ascesion, já que ele é o que menos contribuiu
pro Kratos como personagem, embora algumas pessoas possam contestar nos
comentários, vamos lá...
Pra quem morou numa caverna ou não teve um PS2, Kratos no primeiro jogo (2005) era um general espartano que
encurralado numa batalha escolheu vender a própria alma pra Ares, o deus da guerra,
em troca de não ser derrotado. O mesmo deus que havia (através de um retcon lá
em Ghost of Sparta) tido na sua vila e levado o irmão de Kratos achando que ele
era a “criança marcada que um dia destruiria o Olimpo”, e claro, com um belo
soco deu essa cicatriz icônica do Kratos, copiada do Rei Leônidas.
Como bom espartano e seguindo a moral de sua
época (em vez de uma Hollywoodiana e “atual”, não é mesmo, Nolan?), Kratos enxergava
que a vida era ser forte e guerrear, negligenciando sua esposa e filha enquanto
servia como escravo não só de Ares, como ocasionalmente de Atena, até mesmo
livrando a cara deles como faria em Chains of Olympus. Depois de tomado por uma ira a plano de Ares (similar ao que Hera fez
com Heracles nos mitos gregos) Kratos acaba por assassinar sua própria família entre
tantos outros. Seguindo o conceito grego de harmatia, Kratos queria ser perdoado de
tudo isso, queria só que os pesadelos que ele tinha pela culpa que carregava,
parassem, ele não queria uma vingança imediata contra Ares, ele não queria
destruir o próprio Olimpo.
Quando surge Atena começando a usá-lo como
seu instrumento de combate contra o próprio irmão, o acordo era só que ela,
Zeus ou quem tivesse o poder fizesse cessar as visões. Kratos literalmente
passa por um inferno para abrir uma maldita caixa para assim ter uma chance de
matar Ares, e com bastante dificuldade o faz.
Mas, não comemora, não sente nenhuma
realização nisso. Daí que voltamos para a cena inicial do jogo com ele se
jogando do penhasco mais alto a fim de encerrar toda aquela dor, mas sua
vontade é negada e tornam ele o novo deus da guerra. Sem nada para amar ou
proteger (e instigado por tudo o que ele descobre em Ghost of Sparta, onde teve
que matar a própria mãe que fora amaldiçoada para não dizer quem era o seu
pai), Kratos volta ser aquele general vivendo para a pilhagem e destruição e
isso de alguma forma hipócrita irrita o Olimpo, em especial Zeus, que adaptado
com fidelidade ao mito, destronou o próprio pai e sempre teve temor de ser destronado
por um filho, logo, Kratos é traído e morto por Zeus, mas resgatados por Gaia,
que vê no guerreiro uma chance dela e “seu povo” (embora titãs e deuses sejam
da mesma família incestuosa) obterem uma revanche contra Zeus.
Kratos consegue burlar o próprio destino, mas
tendo sua vingança negada, resulta no ápice da saga que seria GOW III, onde ali
sim fica a versão que muita gente cravou do personagem, o deus que sai
assinando deuses, a encarnação da vingança até que seu instinto assassino até
então irrefreável para bruscamente quando ele encontra Pandora, uma menina (ou
coisa, como Zeus chama, já que ela foi fabricada no universo de GOW por Hefesto)
que teria a mesma idade da sua filha. É aí onde o pai que Kratos tentou apagar
quase freia a sua vingança. É a parte da história que discute na internet que
ele “amoleceu” com o Atreus faz de conta que não viu. No final, a garotinha contra
a vontade do fantasma de Esparta resolve se sacrificar e ele progredi a sua
destruição, chegando no final dela ainda sem nenhum tipo de satisfação. Kratos
olha ao seu redor, e tal qual Aquiles quando a fúria foi embora e vê o
resultado de suas ações. Sim, uma justa vingança, sem dúvidas, mas que milhares
(se não milhões) de inocentes saíram como dano colateral.
Segurando aquela foi que a lâmina que outrora
virou o resultado da titanomaquia naquele universo, Kratos mata o último
daquele ciclo de violência. Numa única cravada, matasse o general, o deus, mas
não... o pai?
Longos anos depois, quase meia década, somos
apresentados ao Kratos “atual”. Não mais um rei, um titã, apenas um deus
disfarçado de homem comum cuja esposa acabou de morrer e agora é sua
responsabilidade educar um filho. Um filho que ele não deve ter passado muito
tempo, presumo que a sua rotina era caçar e construir, e amaciando ao máximo
toda a forma truculenta que ensinaram ele quando também era um garoto ele tenta
ensinar o menino a ser homem. Ele parte do sentimento mais genuíno que apenas
um pai pode sentir (mesmo que não demonstre) pelo filho, que é não querer que
ele passe pelo mesmo sofrimento. O famoso “eu sofri pra que você pudesse ter
isso”.
A tarefa que ele tem é simples, apenas fazer uma jornada com o garoto que ele só chama pelo nome no final para jogar as cinzas da mãe. Se tratando de GOW, isso não vai ser um simples passeio, e há todo um “road movie” thelastofurizado que me fez torcer o nariz para boa parte da narrativa. Mas, o personagem que eu cresci, ainda continua lá. E no último game, “Ragnarok que se resumiu a uma discursão de condomínio”, no que tange a ser pai, Kratos passou pelo golpe mais forte que qualquer arma do porte do mjolnir poderia causar: aceitar que o filho tá crescendo e agora deve seguir a própria jornada, não mais sob o seu escudo e machado (e correntes, lâminas, e tudo o mais que puder).
Fora da ficção e da tragédia grega, usei mais o personagem para refletir sobre o que pode ser pai. É o tipo de reflexão que não passa de uma enquanto você não for um. É aprender a aceitar quando tá errado, sem perder a sua autoridade. É tentar ensinar para alguém não cometer os mesmos erros que você cometeu ciente de que naquela mesma idade você também não queria ouvir. É responsabilidade, é gerenciamento das próprias vaidades em entender que por mais ali tenha um “mini eu” seu, que é um outro indivíduo que não necessariamente gostará das mesmas coisas que você gosta, que boa parte do tempo poderá ser ingrato com você e quem sabe um dia se o mesmo se tornar pai, aí sim ele vai sentir o que você sentiu. É... Acho que é isso.





