Quem nunca sonhou em ser um X-Men? Claro, sem a perseguição por conta do gene X e todo o estigma e preconceito atrelados à identidade mutante, mas certamente, para alguns, ter as garras do Wolverine e seu fator de cura, a capacidade de controlar o metal como o Magneto ou os poderes climáticos da Tempestade foi um sonho de infância. Falar sobre isso pode despertar em muitos um sentimento nostálgico, especialmente por proporcionar uma viagem aos anos 90 e à clássica série animada dos X-Men, que consagrou nas telas a criação de Stan Lee e Jack Kirby.
Mas, antes de nos aprofundarmos de fato, venho por meio desta confessar o meu pecado de só ter assistido à animação bem recentemente. Não me crucifiquem, tenho uma boa justificativa: não fui uma das crianças que cresceu com essa adaptação. Sou um pouquinho mais novo. Sim, o Amigão do Disqus é fruto dos anos 2000. Ter tido contato com a produção já mais velho trouxe um olhar mais reflexivo, principalmente pela ousadia de adaptar determinados temas, mas também pela simplicidade de algumas tramas, a exemplo da ausência de um desenvolvimento mais aprofundado do nêmesis mutante, Apocalipse. Claro, isso não tira os méritos da obra, que possui enorme valor como adaptação, na medida em que trouxe holofotes aos heróis mutantes e abriu portas, ao lado da série animada do Homem-Aranha, para uma era consagrada de adaptações de quadrinhos.
Apesar de seu sucesso inquestionável, tudo que é bom chega ao fim, e a série foi encerrada em uma quinta temporada que se estendeu mais do que deveria, decaindo em qualidade e em aspectos da trama. Houve uma mudança de traço e um tom mais infantil, numa tentativa de renovar seu público, algo que não funcionou tão bem. Afinal, os fãs dos X-Men que cresceram com a série já estavam amadurecendo, e era natural que a produção acompanhasse esse caminho. Nesse sentido, a animação serviu como primeiro contato para que muitas crianças saíssem por aí consumindo quadrinhos e sorrindo — e às vezes chorando — com a versão cinematográfica dos personagens: nossos queridos Fox-Men, que não eram apenas uma adaptação dos heróis coloridos dos gibis, mas uma franquia blockbuster extremamente lucrativa.
Falando em Fox, com a venda do estúdio, os direitos das propriedades criativas retornaram para a Marvel/Disney, o que nos rendeu o fim do boicote aos mutantes nos quadrinhos e a chegada da Era Krakoa, idealizada por Jonathan Hickman, além da enorme expectativa pelo retorno dos personagens ao MCU.
Essa tão esperada adaptação ainda não aconteceu de fato, por mais que já tenhamos tido alguns vislumbres, como participações de variantes vindas do multiverso em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura e Deadpool & Wolverine, além de pequenas aparições em She-Hulk ou mesmo uma modificação que não tem um cheiro tão bom assim: a Miss Marvel. Perdão, Brucio, eu sei que você ama a Xamala Xhan. Ah, e não posso me esquecer de mencionar a futura Jean Grey, que deve ganhar uma nova versão interpretada por Sadie Sink na quarta aventura solo de Tom Holland como Homem-Aranha, talvez o filme mais inusitado possível para isso acontecer, mas ainda assim uma bela plataforma para os personagens X.
Bom, não é exatamente sobre isso que desejo falar com vocês hoje. Na verdade, o assunto que quero abordar é consequência de dois fatores: o retorno dos direitos dos mutantes ao domínio criativo da Marvel e um velho conhecido nosso, o fator nostalgia. Dessa combinação nasceu o revival da série animada. Sim, vamos falar de X-Men '97.
A produção, que poderia ser apenas mais um caça-níquel barato surfando na onda da nostalgia, acaba nos levando por uma viagem no tempo das mais dignas. Afinal, ela é ambiciosa em sua proposta: honrar o legado da série clássica e, ao mesmo tempo, contar sua própria história. E posso dizer que faz isso com maestria. Acompanhamos os personagens exatamente do ponto em que os deixamos, com o futuro da nação de Genosha e o sonho da coexistência pacífica entre mutantes e humanos ganhando força. Contudo, sobre esse sonho surge a sombra de um fatídico evento que os leitores mais atentos já esperavam: o massacre da nação mutante, que ganhou vida nas páginas dos quadrinhos de Grant Morrison. Aqui, porém, a história ganha uma nova figura antagônica na forma de Bastion, além de momentos maduros e impactantes, como o sacrifício heroico do Gambit.
A partir disso, podemos afirmar que a série possui, em seu retorno, uma qualidade exemplar e nos mostra o melhor caminho para realizar um revival. E hoje, 1º de julho de 2026, cerca de dois anos após a primeira temporada, embarcamos novamente em uma aventura com os heróis mutantes pelo tempo e espaço para deter a ameaça do Apocalipse.
O vilão finalmente terá seu destaque e honrará seu status como a maior ameaça mutante. Aqui veremos detalhes de sua origem no Egito Antigo até a extensão de seus domínios no futuro do século XL. Não quero abordar muitos spoilers, afinal, os episódios foram lançados há apenas algumas horas. Contudo, a qualidade que vimos na primeira temporada permanece garantida neste segundo ano, com uma narrativa coesa que apresenta inúmeros personagens das HQs e das equipes X, como X-Factor e X-Force, permitindo que cada um deles tenha seu momento para brilhar e se desenvolver.
Vocês vão vibrar ao acompanhar Ciclope e Jean no futuro dominado por Apocalipse, adaptando elementos das páginas de As Aventuras de Ciclope e Fênix, enquanto o casal cuida de seu filho, Cable, e temos ainda a misteriosa figura da Mãe Askani. Todos encontram seu lugar ao sol nesses três episódios iniciais. Seja a Tempestade evoluindo seus poderes ao lidar não apenas com o clima, mas também com elementos em escala estelar, remetendo às propostas de Chris Claremont, ou os incríveis momentos da X-Force, com Jubileu brilhando especialmente no segundo capítulo.
Um ponto negativo, ao meu ver, é que esta temporada é mais curta, contando com apenas oito episódios. Isso é algo que sentimos diretamente no ritmo da produção, que se mostra claramente acelerado. Gostaria de ter apreciado um pouco mais cada período temporal explorado. A sensação que fica é que a série não permite momentos de respiro, nunca reduzindo o ritmo ao mover seus personagens e diferentes núcleos narrativos.
Outra coisa que considero curiosa é a presença marcante de Rama-Tut, uma das variantes de Kang, o que parece sugerir um elo perdido com o cancelado filme Dinastia Kang e talvez apontar para uma ameaça futura que me deixou bastante curioso sobre algo que pode estar além do próprio En Sabah Nur.
No geral, temos um começo que sustenta a qualidade da temporada anterior e abraça com vigor o lado mais amplo dos quadrinhos, adaptando elementos que vão muito além dos anos 90, incluindo personagens e passagens das fases de Morrison e Joss Whedon.
Para quem cresceu assistindo à animação clássica, é impossível deixar de conferir X-Men '97. A série já conta com uma primeira temporada excelente e uma segunda que mantém suas qualidades, ao mesmo tempo em que aprofunda e desenvolve seus personagens. Sinceramente, hoje esta é facilmente uma das melhores produções do MCU, algo refletido inclusive em sua recepção crítica, alcançando 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Que venham os próximos capítulos e que possamos continuar nos aventurando, a cada novo episódio, pelo tempo e espaço ao lado de nossos queridos heróis mutantes.
À mim, meus X-Men!
