Todo mundo quer ser o Coringa... Até precisar pagar o aluguel


 

Hoje em dia, basta vestir vermelho, fumar distraído e citar meia dúzia de frases com raiva contida para se autoproclamar “o palhaço do caos”.

A rebeldia virou figurino, e o discurso antisistema cabe inteiro num post com filtro noir.

Na prática, o que mais se vê são almas exaustas tentando encenar revolta — não por convicção, mas por puro cansaço. A risada não vem da loucura, mas da falta de energia pra sentir qualquer outra coisa. O trauma não é trágico — é estéril, raso, reciclado. Em vez de surto real, há apenas pose.

A figura do Coringa virou o estandarte de uma safra do final da década passada para cá que não suporta ser comum. A maquiagem serve pra esconder o vazio, e os discursos inflamados substituem qualquer coragem de fato. É mais fácil declarar guerra ao mundo do que encarar a própria covardia diante da rotina. Muitos se dizem marginais, mas não largam o conforto do Wi-Fi herdado nem a comodidade de pagar o streaming em dia.

A fantasia da anarquia virou vitrine: um papel ensaiado que exige likes, não sacrifícios.

A loucura, essa sim, foi estetizada. Gente que nunca presenciou um surto real romantiza a instabilidade como charme. Mas o que há por trás dessas alegorias não é genialidade incompreendida — é desordem emocional disfarçada de filosofia. Quase sempre, essa revolta ensaiada se desfaz no primeiro confronto com a realidade: quando o boleto chega, quando o chefe grita, quando o banco ameaça cortar o limite.



No fim, poucos são os que suportam o peso de realmente viver à margem. A maioria apenas flerta com o colapso de forma conveniente. Posta frases do Nietzsche, compartilha memes sobre saúde mental, usa camiseta com ícone psicótico — mas ainda torce por estabilidade emocional e PIX no dia certo. A revolta verdadeira não tem filtro nem trilha sonora. E tampouco precisa de aplauso.

A vida segue... O aluguel não perdoa. O ônibus continua atrasando. E os verdadeiros palhaços — os que realmente colapsaram — não estão em escadas fazendo dancinhas cinematográficas. Estão no sinal, tentando sobreviver com um malabares improvisado. Gotham é só um delírio estético. Aqui é Brasil. E o caos de verdade não é bonito, nem teatral. Só sujo, cínico e solitário. A verdade é: você não é o Coringa. Nunca foi. No máximo, é figurante de um sistema que você não entende, mas insiste em parodiar.

Será que realmente alguém vai "Coringar?"



Desde que Joaquin Phoenix entregou sua versão do Coringa, o personagem deixou de ser apenas um vilão caótico e se tornou, para muitos, uma figura trágica, quase messiânica. Arthur Fleck não era um mestre do crime — era um homem quebrado, um corpo enfermo jogado em um sistema que já não fazia questão de disfarçar sua indiferença. E foi nesse espelho que uma geração inteira decidiu se mirar. Mas a maioria não viu o que importava. Preferiu a moldura: a dança na escadaria, o cigarro, o vermelho do paletó.

A dor, a degradação, o abandono? Isso tudo virou cenário.

"Coringar" virou meme, virou legenda de selfie com olhar blasé e legenda cinza. A ideia de surtar e romper com o mundo virou fetiche, mas só até o mundo romper de volta. Porque o que o filme mostra, e poucos captam, é que a loucura de Arthur não é libertação — é prisão. Ele não se torna livre ao vestir a persona do Coringa. Ele apenas aceita, finalmente, que não há mais ninguém ouvindo. E nesse silêncio, muitos se refugiam, achando que estão fazendo revolução, quando estão apenas ecoando.

Quem tá mais próximo a ser um Coringa na vida real?

Não é quem publica textão performático nas redes. Também não é o fã de quadrinhos que cita Alan Moore como se estivesse revelando um segredo oculto. O mais próximo de um Coringa real talvez seja alguém que ninguém notou. Um trabalhador comum que passou tempo demais calado. Um filho que sustentou a família enquanto engolia frustrações, um homem invisível aos olhos da cidade. Essas figuras não têm maquiagem, mas carregam no rosto os mesmos traços de exaustão. E não é glamour: é desgaste. Não há genialidade no caos real, só ruído, desorganização e perda. A mídia adora um criminoso excêntrico, porque dá boas manchetes. Mas o verdadeiro colapso raramente é notado. É o sujeito que já não acredita em melhora, que não encontra espaço em lugar nenhum, e que se acostumou a ser descartado antes mesmo de tentar. O Coringa do mundo real não grava vídeos teatrais. Ele some devagar. E quando reaparece, já é tarde demais. Não pra ele. Mas pra quem o ignorou por tanto tempo.

As redes sociais recompensam ser assim?

Sim. E não. As redes sociais são vampíricas: elas se alimentam de emoção, mas não têm estômago pra digerir sofrimento real. Transtornos mentais, colapsos emocionais, surtos — tudo isso rende, desde que editado com trilha Lo-Fi e filtro sépia. A cultura digital transformou a dor em conteúdo, desde que esteticamente controlada. A pessoa que desaba aos poucos, em público, vira entretenimento. Mas basta ultrapassar a linha do tolerável — mostrar ferida demais, confusão demais — e o algoritmo deixa de exibir. O sistema quer vulnerabilidade domada. Quer caos inofensivo. Por isso, o "Coringa digital" precisa performar a insanidade com cálculo: mostrar que está por um fio, mas sem de fato estourá-lo. E isso destrói. Porque não há recompensa em ser honesto demais. Quando a queda é real, o que vem não é like — é silêncio. Shadowban. Ou pior: o escárnio. E aí, quem um dia foi encorajado a expor sua dor, se vê sozinho, cancelado ou ignorado. O palco não perdoa quem sangra de verdade.

...E a Arlequina não queria o Arthur Fleck



A fantasia coletiva insiste em romantizar aquilo que o próprio filme deixa claro: não há romance possível entre Arlequina e Arthur. A obsessão em unir os dois parte de uma incompreensão sobre quem são essas figuras. Arlequina deseja intensidade, sim, mas quer força, domínio, jogo de poder. Arthur, ao contrário, busca acolhimento. Quer ser visto, entendido. Ela representa o excesso do desejo, ele, a falta de afeto. Na ficção não há atração — e sim desconforto. E, na vida real, essa dinâmica se repete: há quem idealize mulheres como Arlequina achando que elas "salvarão" seus traumas. Esquecem que o fascínio dela é pelo imprevisível, não pela fragilidade. Arthur Fleck não é par pra ela. Nem rival. É só mais um corpo no caminho. O desejo de vê-los juntos nasce de uma solidão que procura mitologia, não companhia. E nesse mito, muitos homens se escondem, acreditando que a dor, por si só, merece amor. Mas amor não é prêmio de sofrimento. E Arlequina não é terapeuta de ninguém. Ao menos, não nesse caso...

Longe de mim querer deturpar ou podar a sua interpretação sobre esse Coringa


Só que quando alguém me diz que está “Coringando”, o que vejo é só uma catarse emocional com Wi-Fi estável. Tem grito, tem raiva, tem post impulsivo no Instagram com trilha sonora da Hildur Guðnadóttir — mas falta corte real. Falta perder algo além da paciência. Quem diz ter descido ao fundo do poço, muitas vezes só se ajoelhou na borda para fazer selfie.

Não se trata de desrespeitar a dor de ninguém, mas de apontar como a estética da ruína virou moeda de vaidade. A insatisfação virou estética. O sofrimento virou filtro. E a figura do Coringa, que deveria ser indomável, virou desculpa para o descontrole pequeno-burguês de quem quer ser notado — mas não bancar a própria sombra.

Enquanto isso, os verdadeiros palhaços não têm figurino. Estão no RH às 8h tentando justificar um atestado. Estão fingindo que tá tudo bem para a mãe não se preocupar. Estão cortando comprimido no meio porque o mês não fecha. Esses não têm tempo para performar caos — eles vivem o caos, e em silêncio.

E que fique claro: essa é só a minha leitura do personagem. O Coringa continua sendo um dos vilões que gosto de prestigiar, tanto nas HQs quanto no cinema. O filme de 2019 me arrebatou — não só pela atuação do Joaquin Phoenix, mas porque ousou tratar a loucura como algo humano, desconfortável e político. Só que o diretor... vacilou. Optou por uma continuação covarde, típica de quem pede desculpas por ter sido homem demais no primeiro ato, ou por ter desagradado a própria turma elitista ao não seguir fórmulas seguras. Não confiou na inteligência do público. Cuspiu em quem acreditou nele. Que amargue o ostracismo das suas escolhas. E de minha parte? Não verei mais nada que leve o nome dele depois de Coringa 2.

Não por birra — mas por luto. Porque o que ele matou não foi só a chance de uma boa sequência. Foi o respeito de quem o levou a sério e defendeu sua obra contra todo tipo de alarmismo que criaram em torno dela.

E se alguém chegou até aqui, parabéns: você tem mais paciência do que a maioria que “Coringa” na primeira contrariedade. Agora quero saber: o que achou? O texto te irritou ou te provocou? Concorda com alguma coisa ou acha que eu só ladrei pra dentro? A caixa de comentários tá aberta. Até quinta eu respondo tudo o que aparecer — e quem sabe vocês ajudam a escolher o próximo texto também. Me diz qual você quer ver publicado primeiro:

A) “A arte de odiar discretamente”

B) “Os livros que deveriam ter acabado antes da página 100”

C) “Escrever Me Curou, Mas Também Me Fez Pior”

M. Valentine.

Sem emojis. Sem likes mendigados. Só palavras afiadas.