Eu estava fazendo um longo comentário no último post do Gambit, e dada a extensão numa caixa de comentários, achei melhor publicá-lo. É meramente a minha opinião sincera e sequer tenho qualquer pretensão em convencer alguém...
Eu sempre tive uma visão muito mais legalista das coisas, e isso já me fez ser vista como alguém de esquerda em várias situações. Não tenho problema nenhum com isso quando ser de esquerda significa progresso de verdade, humanismo, oportunidades, serviços públicos que funcionem e uma sociedade que não trate gente pobre como dano colateral da economia. O problema é que eu não tenho compromisso com etiqueta política, muito menos com político. Se a esquerda significa avanço numa segunda-feira e retrocesso na terça, não vou passar a quarta-feira tentando justificar o retrocesso porque meu time está no poder. E é justamente por isso que não consigo olhar para a reeleição do Lula com o entusiasmo de quem acredita estar assistindo a uma vitória civilizatória.
Para mim,
ele representa uma esquerda envelhecida, presa a um imaginário político do século XX, com aquela velha crença de que basta concentrar poder no Estado,
distribuir favores aos aliados e repetir meia dúzia de slogans
sociais para que tudo isso seja confundido com progresso. Essa nostalgia de um
modelo estatista que deveria ter sido profundamente revisto depois de tudo o
que aconteceu com os regimes totalitários do século passado não me parece
exatamente uma visão de futuro. E antes
que alguém resolva me colocar na caixinha oposta, não estou dizendo que o resultado
eleitoral deve ser ignorado porque não gostei
dele. O resultado foi proclamado “oficialmente”, e eu não tenho prova que me permita afirmar que
houve fraude. Mas existe uma diferença entre reconhecer um resultado e fingir
que todas as instituições envolvidas nele gozam de confiança absoluta. A
discussão sobre a eleição de 2014, as suspeitas que voltaram a circular em 2022
e a controvérsia em torno do voto impresso deixaram uma parcela da população
desconfiada, e tratar toda pergunta sobre transparência como delírio golpista
não é exatamente uma maneira inteligente de recuperar a confiança dessas
pessoas.
Também não vou
vender como prova de fraude uma alternância na
liderança durante a apuração, porque isso, isoladamente, não prova
absolutamente nada. O que me incomoda é a facilidade com que parte da
população exige confiança irrestrita justamente de instituições que
deveriam compreender que confiança se conquista com transparência, critérios
consistentes e disposição para prestar contas.
Democracia não pode ser uma
religião na qual o cidadão precisa acreditar sem fazer perguntas.
E aí chegamos
ao STF, que é onde essa conversa fica
particularmente interessante: Lula indicou Cristiano Zanin, seu advogado
pessoal e alguém com quem tinha uma relação de amizade, para ocupar uma cadeira
na Suprema Corte. A indicação era uma prerrogativa constitucional do presidente
e passou pelo Senado, portanto não vou fingir que o simples fato de ter sido
feita a transforma automaticamente em ilegalidade... Mas existe uma diferença
entre poder fazer alguma coisa e tomar uma decisão que preserve a confiança
pública na instituição. Quando você escolhe para a mais alta Corte do país
alguém que acaba de defender seus interesses pessoais, deveria ser o primeiro a
compreender o problema de aparência que essa proximidade cria, mesmo que todos
os procedimentos formais sejam cumpridos.
Também não compro a ideia de que
apontar essas contradições signifique necessariamente defender o outro lado.
Faço questão de imaginar o mesmo cenário com Jair Bolsonaro no poder, um
ministro indicado por ele e uma decisão de última hora que beneficiasse sua
candidatura. Se o então presidente do TSE dissesse que não havia norma
autorizando a mudança e que a determinação provocou dificuldades operacionais,
duvido que todos aqueles que hoje pedem confiança irrestrita nas instituições
tratassem o episódio como irrelevante.
Vocês considerariam razoável que
um antigo advogado pessoal de Bolsonaro decidisse uma questão eleitoral
diretamente relacionada aos interesses de sua campanha? Se a resposta for não,
por que deveríamos considerar aceitável o mesmo arranjo quando o personagem
muda? A coerência jurídica não pode depender da preferência partidária. Se
um procedimento é inadequado quando beneficia o adversário, não se torna
automaticamente adequado quando beneficia o candidato que você prefere.
É claro que o resultado de uma
eleição não pode ser invalidado apenas porque parece improvável ou porque uma
parte da população não confia nas instituições. A virada de Lula, que terminou
o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro e venceu o segundo, é um fato
político incomum, mas não constitui prova de irregularidade por si só. Tampouco
a prorrogação da votação demonstra automaticamente que votos foram fraudados ou
que o resultado deva ser anulado (isso se o requerente não for multado em 22
milhões, como aconteceu em 2022). Seria desonesto apresentar essas conclusões
como fatos sem evidências suficientes. Mas seria igualmente desonesto usar a
ausência dessas provas para fingir que não houve qualquer problema a
esclarecer.
Nessa última campanha, quando o
próprio Lula declara que sua campanha está carregando nas costas a
“promiscuidade” estabelecida no Supremo, a ironia praticamente se escreve (e
reescreve) sozinha. Acho curioso como a política
brasileira se tornou um exercício
permanente de indignação
seletiva. Se determinado comportamento acontece com o adversário, é uma ameaça à
democracia; se acontece com o nosso lado, precisamos “conhecer o contexto”,
compreender as circunstâncias e aguardar os “especialistas” explicarem
por que, naquela situação específica, tudo é diferente. Lula subindo a rampa
acompanhado de representantes de minorias foi uma imagem politicamente
poderosa, mas imagem não substitui prestação de contas, assim como discurso de
inclusão não transforma automaticamente um governo em exemplo de humanismo.
![]() |
| E pensar que esse era o Brasil há menos de uma semana |
E o próprio Lula, quando se
refere à "promiscuidade do STF", parece "esquecer" que esteve no poder durante a
formação de parte desse cenário institucional. Às vezes ele me lembra uma
versão brasileira, com alguns anos de atraso, daquela política envelhecida que
os próprios democratas americanos acabaram tendo de enfrentar quando a
continuidade de Joe Biden deixou de parecer uma garantia de estabilidade e
passou a representar um problema. Não estou dizendo que os dois sejam
equivalentes em tudo, mas existe uma semelhança nessa dificuldade de reconhecer
quando uma geração política está oferecendo mais nostalgia do que futuro. O que
realmente me cansa é ver
gente reclamando da polarização
enquanto participa dela com entusiasmo toda vez que o resultado favorece seu
lado. A polarização não desaparece porque um dos grupos vence, e
tampouco se resolve exigindo que o outro aceite tudo calado.
Se eu tivesse visto uma eleição com condições normais, um resultado
proclamado e instituições que me
inspirassem confiança, não teria problema em aceitar a derrota política de quem eu preferia. Faz parte. O que
não aceito é a ideia de que reconhecer o resultado oficial me obrigue a
suspender o julgamento crítico sobre o sistema político, a composição das
instituições e os interesses que circulam entre seus integrantes. Eu posso
aceitar a realidade jurídica de uma eleição e continuar considerando péssimas
as escolhas políticas que produziram aquele governo. Posso reconhecer a
legitimidade formal de um presidente sem precisar transformá-lo em símbolo de
progresso. E posso criticar a esquerda sem me tornar automaticamente defensora
da direita, porque não sou obrigada a escolher entre duas coleções de
contradições e chamar uma delas de virtude. No fim,
talvez seja isso que tanta gente não consiga
entender: eu não tenho obrigação de comemorar uma vitória só porque
ela veio acompanhada da bandeira que, em outras circunstâncias, eu mesma defenderia. Se a esquerda
significa humanismo, avanço e
responsabilidade, ótimo, é uma tradição política com a qual posso dialogar e até me identificar. Se significa culto ao
líder, nostalgia autoritária, aparelhamento e uma tolerância quase religiosa
com os próprios aliados, não vejo por que deveria fingir entusiasmo. O país
não melhora porque metade da população conseguiu fazer a outra metade engolir o
próprio candidato. Melhora quando o cidadão deixa de tratar político como
representante da própria identidade e volta a tratá-lo como alguém que precisa
justificar o poder que recebeu. Pelo visto, ainda estamos longe desse estágio,
porque tem gente que passa quatro anos pedindo senso crítico ao adversário e,
assim que o próprio lado vence, descobre que questionar instituições é coisa de
gente mal-intencionada...
É uma forma curiosa de defender a
democracia: desde que ela não faça perguntas inconvenientes ao nosso líder supremo
que nunca erra, no máximo comente gafes.















