Solidão de Fantasma

Assim como a História é escrita e contada pelos vencedores, a dor da solidão é narrada e cantada em verso e em prosa sempre por quem foi abandonado, posto para escanteio, descartado ao aterro sanitário da vida.

Abandonado por um amigo, por um familiar - à traição ou por obra da Ceifadeira - ou por um amante. Nunca se fala ou ficamos sabendo da solidão de quem se vai, apenas da solidão de quem fica a vida inteira esperando sentado à beira do caminho.

Um amante desertor, não terá também momentos de solidão ao lado de seu novo par? E os mortos? Não terão também lancinantes saudades dos vivos, de quando eram vivos? Será que o fantasma da solidão não aflige também os fantasmas?

Imagine-se jogado à fria mesa metálica de um necrotério por um acidente automobilístico, coberto por um lençol dos pés à cabeça. Sua esposa faz o reconhecimento do que um dia foi seu corpo, sai e o legista volta a cobrir a face com a qual você se apresentava ao mundo.

De súbito, o lençol se ergue. E você sai andando pelos corredores do hospital, assumindo a forma clássica do fantasma, um lençol com dois furos escuros no lugar dos olhos, forma levemente cônica e arrastando seus panos pelo chão. Ao fim de um corredor, abre-se um portal iluminado, talvez a luz que o conduziria dessa para outra, que os crentes acreditam ser uma melhor. Você se recusa em adentrar o portal de luz. Dobra o corredor em direção à saída do hospital e ruma para o seu lar.

Sua esposa está de mudança, tudo encaixotado e o caminhão já a esperar na porta. Quanto tempo se passou? Impossível precisar. Tempo de fantasma transcorre diferente. De dentro da casa, você fica olhando pela janela a partida dela.

Você fica preso à casa. Vagando e esperando. Novos moradores vão se sucedendo em seus cômodos, todos afugentados por sua presença invisível. Quantos? Quantos anos de indesejáveis novos inquilinos? De novo, o tempo aqui não tem o valor que conhecemos. Só pode ser medido pela dor da solidão muda do fantasma.

Sua casa é demolida. Um enorme arranha-céu de escritórios é erigido no terreno. Você vaga pelas fundações e, depois, por seus cubículos comerciais infestados de executivos e CEOs. Você sobe ao último andar e salta. Um fantasma tentando o suicídio para fugir da solidão. Você não morre. Regressa no tempo. Nos séculos. Quando ali era um terreno virgem, prestes a ser colonizado pelos primeiros peregrinos em solo estadunidense. Você revive e vivencia todas as vidas dos que por ali passaram, todas as transformações do local.

Quanto tempo? O da solidão, o menos relativo dos tempos.

Até que você volta ao início.Você se vê, já como fantasma, olhando pela janela a partida de sua esposa. Um fantasma a olhar o fantasma que um dia você foi. Seu ciclo acabou. Seu lençol desaba. Outro fantasma purgará em seu lugar. Ad infinitum.

Tudo isso narrado e conduzido com pouquíssimas palavras e falas dos personagens. Somente com as expressões de Rooney Mara e as do fantasma, as do lençol, que tem um talento dramatúrgico muito maior do que o ator que nele se tornou, Casey Affleck, irmão de Ben Affleck, que canastrice é coisa de família.


A Ghost Story (Sombras da Vida). Um filme bom pra caralho. Triste pra cacete. Parado. Penoso. De tornar penada a alma.
É um Ghost sem Demi Moore e Patrick Swayze. E melhor ainda : sem The Righteous Brothers!
Um Ghost sem final feliz. Sem final, aliás. Mais dark. Sombrio. Depressivo. 
Fantasmagórico.



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