Publicado na França em 2015, Submissão, escrito por Michel Houellebecq, é um dos livros mais controversos e provocativos dos últimos anos. No enredo, é imaginado o que aconteceria se um candidato de origem árabe muçulmana vencesse as eleições francesas e se tornasse o primeiro presidente islâmico do país. Apesar do tom alarmista, até que é um exercício de imaginação interessante, visto que a França tem a maior população de imigrantes islâmicos da Europa e a taxa de fecundidade dos imigrantes é bem maior que a dos franceses nativos.
No romance, o político
Mohammed Bem Abbes é eleito presidente da França por um novo partido, A
Irmandade Muçulmana, e com o apoio de partidos de esquerda franceses. No entanto,
aos poucos, Abbes vai mudando sutilmente a Constituição francesa para transformar a França em uma teocracia, implementando a Sharia, o patriarcado e a poligamia.
No fim, o país termina dilacerado por uma guerra civil.
O enredo de Submissão
pode parecer exagerado e um tanto fatalista, mas faz refletir a complexidade
do mundo moderno e da França em particular. É sabido que o país tem a maior
população de imigrantes islâmicos da Europa e que a taxa de fecundidade dos
imigrantes é muito maior que a dos franceses nativos, que não querem ter
filhos. O governo francês até tentou implementar umas políticas como o “trabalho
do lar”, que se trata de remunerar as francesas para que sejam donas de casa e
cuidem dos filhos, mas que fracassaram fragarosamente. No país que inventou o
feminismo, isso não pega muito bem. Na verdade, não sei dizer se a França
inventou o feminismo, mas o feminismo de bistrô, ela realmente inventou, em que
as mulheres ficam lendo Simone de Beauvoir, fumando e chifrando seus namorados.
Por sua vez, a
fecundidade das mulheres imigrantes é bem maior, chegando a ter em alguns casos
mais de fez filhos. Em um cenário mais extremo, haveria essa possibilidade de
que o número de filhos de imigrantes superasse o de franceses nativos, e, sendo
esses imigrantes a maioria de origem muçulmana, eles eventualmente poderiam
votar em massa em um candidato a presidente também muçulmano.
Dessa forma, é sim
imaginado um cenário meio que apocalíptico em que a França tem sua cultura
iluminista e liberal assimilada pela cultura islâmica, transformando-se em uma
teocracia. Tem um vídeo que especula como seria a Paris de 2050.
É notório que vivemos
em uma época em que a taxa de nascimentos tem apresentado declínio no mundo
todo, mas em alguns países tem sido mais crítica. O Japão é um caso evidente.
As Coreias também, tanto que alguns anos atrás o ditador da Coreia do Norte,
Kim Jong-Un, caiu no choro lamentando que as norte-coreanas estavam tendo menos
filhos. Quando a coisa chega a um ponto em que um psicopata chora, significa que
nuvens negras estão no horizonte.
E, quando a taxa de
natalidade de um país começa a cair, só há duas formas de reverter. Ou por meio
do crescimento vegetativo, as pessoas tendo filhos, ou por intermédio da
imigração. Vários países da Europa e até mesmo o Canadá têm optado por crescer
desse modo, mas isso acarreta algumas questões delicadas, uma vez que a própria
imigração é um movimento que tem sua complexidade e seus pontos que têm efeitos
consideráveis sobre uma sociedade.
Obviamente, você pode
dizer que o enredo de Submissão é um tanto exagerado e que é improvável
que a França se torne um Estado teocrático. No entanto, nos últimos anos,
alguns acontecimentos têm feito a gente refletir a respeito. Engraçado é que líderes
muçulmanos realmente foram eleitos no mundo ocidental, mas (por enquanto) não
na França. Na Escócia, Humza Yousaf foi eleito primeiro-ministro, mas seu mandato
foi curto, e ele renunciou em 2024. Não antes de ter feito um controverso
discurso “antibrancos”. No ano passado,
Zohran Mandami foi eleito prefeito de Nova York, e ele se assume como muçulmano
e comunista. Acho paradoxal um comunista professar religião, uma vez que o
comunismo em sua essência é contra as religiões, mas há comunistas católicos
petistas como Frei Beto, Leonardo Boff e Júlio Lancelotti, e comunistas
evangélicos como Marina Silva, se a gente pensar bem.
https://news.stv.tv/politics/police-receive-complaints-over-speech-in-scottish-parliament-by-humza-yousaf-as-hate-crime-act-implemented
https://www.bbc.com/news/articles/cew44175vklo
Assim sendo, a despeito
de o cenário apresentado em Submissão ser questionável, esses
acontecimentos mais recentes o fazem ser em certa medida precognitivo. Não que
líderes islâmicos possam transformar democracias em Estados democráticos, mas
vai que, né? Para concluir esse post, remeto à obra do quadrinista iugoslavo
radicado na França Enki Bilal, autor da Trilogia Nikopol. No primeiro
volume dessa trilogia, A Feira dos Imortais, a Paris do futuro é uma
merda, com um regime fascista. A Torre Eiffel está tomada por sanguessugas
gigantes. A cidade é dividida entre uma casta que vive na parte nobre e
imigrantes alienígenas que vivem nos bairros pobres. É óbvio que Bilal, ele
próprio um imigrante, quis fazer uma alegoria sobre como vivem ou se veem os
imigrantes, que na prática não deixam de ser “alienígenas”. Essa é a
complexidade do mundo. No entanto, a França, como uma sociedade que defende o
cosmopolitismo, está sim em um momento desafiador. Não apenas a França, mas
também o mundo.



















