Um filme fazer sucesso no streaming serve como certificado de qualidade? Um filme falhar nas bilheterias de cinema, mas estar entre os 10 de um streaming, significa que foi subestimado? Se a resposta para estas questões for 'não', como podemos entender? Nossa matéria fala sobre "JUSTIÇA ARTIFICIAL" e tenta encontrar as respostas. Vamos lá?
Costumo acompanhar as novidades sobre quadrinhos, filmes e TV em alguns sites americanos. Um deles tem por hábito postar matérias com títulos e assuntos de mesmo teor. O título é quase sempre: "Fracasso nas bilheterias de cinema se redime no streaming". O que me levou a iniciar esta postagem com as perguntas da introdução.
Uma coisa que observei em todos estes anos como cinéfilo é que as pessoas ASSISTEM a filmes ruins. Claro que elas não vão assisti-los no cinema, pois teriam gastos com locomoção, estacionamento, pipoca, refrigerante, ingresso, etc. Mas se elas conseguem no 'torrent amigo', na TV a cabo ou no canal streaming, aproveitam a oportunidade...
Este fato em si já mostra por que um filme vai mal nas bilheterias, mas tem muitos acessos no streaming. E o termo 'acesso' também serve para responder parte das perguntas iniciais. Quem assina algum canal streaming sabe que sempre ficamos na expectativa de algo novo e quando surgem, muitos imediatamente acessam para ver pelo menos o início e verificar se é bom. Este acesso, quer se assista 5-10 minutos ou o filme inteiro, é computado mascarando o 'sucesso' ou 'fracasso' do filme.
"JUSTIÇA ARTIFICIAL" ou "MERCY" (Misericórdia) foi dirigido pelo diretor Timur Bekmambetov, responsável por destruir a história de "BEN HUR" em um remake de 2016. Custou US$ 60 milhões e teve uma bilheteria de US$ 54,6 milhões. É estrelado por Chris Pratt e Rebecca Ferguson.
O diretor poderia se arriscar e fazer algo diferente do que já vimos em uns 2000 filmes, mas resolveu agarrar, e com força, o "Grande Livro dos Clichês do Cinema e da TV". Assim ele faz um filme de suspense, que em momento algum consegue causar incomodo no expectador, a não ser talvez um pouco de sono.
O filme mostra um futuro não tão distante e distópico. Arriscando-se a ficar datado muito rápido, o filme situa a história em 2029. A violência e o crime aumentam vertiginosamente a coisa se agrava pelos erros na obtenção de provas, juizes e advogados corruptos e falsos testemunhos.
Como o assunto do momento é a IA, por que não incluí-la no roteiro? Foi o que o roteirista Marco Van Belle fez. A solução para o aumento de crimes foi criar o TRIBUNAL CAPITAL MERCY, onde os juízes são Inteligências Artificiais. Os casos julgados por este tribunal são aqueles em que a probabilidade de culpa é de 92%.
O julgamento ocorre da seguinte forma: o acusado é preso a uma cadeira onde tem acesso a todas as provas, às testemunhas, a tudo que envolve o caso. E pode usá-las a seu favor para ser inocentado ou apenas preso. Isto porque a cadeira também executa de imediato o prisioneiro, caso ele não prove sua inocência ou diminua a probabilidade de ser culpado abaixo de 92%... em 90 minutos!
Note que o roteirista e o diretor têm uma oportunidade de aumentar o suspense fazendo a história se passar em tempo real, já que o filme tem 100 minutos... Um dos maiores aprovadores deste tipo de Tribunal é Chris Raven (Chris Pratt) que, aliás, levou o primeiro assassino perigoso a ser julgado e executado por este tribunal.
E o filme se inicia com o próprio Raven preso à cadeira e sendo julgado pelo assassinato da esposa. Claro que ele se diz inocente, porém as evidências mostram o contrário. Como o diretor usou o "Grande Livro dos Clichês", Raven tem um trauma (como acontece em 101% dos filmes em que policiais são acusados de crimes que não cometeram): viu seu parceiro e melhor amigo morrer bem em sua frente. Começou a beber e brigava com a esposa que não aceita muito bem a situação...
Chris Pratt se esforça muito para não usar os trejeitos que adquiriu como Starlord em "Guardiões da Galáxia" e que usa em todos os seus filmes. Ele até consegue não ser 'engraçadinho', mesmo porque o filme era para gerar tensão e não ter alívio cômico. Já Rebecca Ferguson é limitada pelo personagem, já que é uma IA não pode ter muita variação nas emoções...
Um dos maiores erros do filme é humanizar a IA. A certa altura a 'juíza' age contra as próprias probabilidades de Raven ser culpado (ele tinha 97,5%, a maior do tribunal até aquele momento). Raven até consegue dar um 'tilt' na IA colocando dúvidas em seu julgamento!
Para aqueles que já assistiram a muitos filmes policiais do tipo, identificar o criminoso logo no início não é difícil. Raven tem direito de ver fotos e fazer ligações. O diretor, seguindo os clichês, colocou a foto de um ator que tem cara de culpado, age como culpado e fala como culpado, mas era apenas isca, o verdadeiro assassino é facilmente identificável para os mais experientes...
Enfim, o filme é do tipo A.E. - Assistível e Esquecível. Não é de se admirar que as bilheterias tenham sido pífias. Claro que não sabemos o tempo em que permaneceu nos cinemas. Em minha cidade nem sei se foi exibido. Mas a história é fraca, o suspense não existe e o final não convence. Uma pena, um pouco de subversão na história poderia ter mudado isto...
Concluímos então que ter muitos acessos nos canais de streaming NÃO REDIMEM um filme fraco...

