Você receberá migalhas da Marvel nos cinemas e será grato por isso

 


Acordo, abro o celular e lá está: mais um “vazamento”, mais uma “fonte de um insider”, mais um teaser novo que não diz absolutamente nada. Pequenos trechos, frames pausados, teorias que nascem e morrem em um dia. É tanta expectativa em cima de tão pouca substância... Foi daí que surgiu a vontade de escrever tudo isso, quase como um diário aberto de alguém tentando entender onde, exatamente, perdeu o encanto.

Eu queria conseguir ficar empolgada como fiquei em 2012, ou como fiquei quando Guerra Infinita estava chegando. A sensação era de estar acompanhando algo que tinha caminho, construção, consequência. Hoje, quando olho para o próximo filme dos Vingadores, o que eu sinto é bem mais confuso. O estúdio parece ter entendido que não sabe mais para onde ir e, então, decidiu apelar para a nossa memória. Teaser com Steve Rogers de volta. “Thor clássico” (depois da piada de mal gosto que foi Thor 4). Peter do Tobey outra vez. X-Men da Fox. É como se alguém dissesse: não temos uma grande história, mas temos rostos que você ama, por favor continue com a gente.

E vale pontuar: onde estão todos aqueles entusiastas que viviam falando que a Marvel tinha um grande plano para os X-Men? Q          eu a Fox não os sabia usar e que fizeram tanto coro para a aquisição da Fox? Bateu essa curiosidade agora...

É um fluxo constante que cansa ao mesmo tempo em que mantém a gente preso. O filme é só a última etapa de um processo que começa muito antes e ocupa nossa cabeça por meses. E é estranho admitir isso, porque eu não virei alguém que odeia esses filmes. Eu só deixei de acreditar que todo anúncio é um sinal de algo grande.

A divulgação virou um trabalho barulhento nas redes que a gente aceita fazer.

Eu percebi que, quando finalmente sento para assistir, pouca coisa realmente me surpreende. É quase como rever um truque que antes me deixava de boca aberta, mas agora eu já sei onde o mágico escondeu a carta. Não adianta culpar só os fãs que esperam sempre algo maior, mais conectado, mais grandioso, o próximo “evento”, para que anos depois se lembre de que “eu estava lá quando o Thor abriu caminho em Wakanda, eu estava na pré-estreia no cinema”. Isso foi e continua a ser condicionado nas pessoas pela própria máquina. Sem isso, ela não funciona.

Pense no próximo filme do Homem-Aranha? Você pensa em ver por que agora vai ter vilões que não foram explorados em filmes, bem como uma nova perspectiva do personagem? Claro que não. Queremos ver o que o Justiceiro ou Hulk tem a ver com tudo isso, se terá a participação do Tentáculo, se até mesmo os Defensores vão aparecer, e claro, o que esse filme fará de ponte pros Vingadores. Nós nos iludimos sozinhos, mas eles também nos iludem.

Só que mais me incomoda é a aposta constante na nostalgia. O apelo óbvio que funciona. Eu mesma sinto isso. Só que, quando dou uma sonora risada quando alguém vem falar de forma séria comigo que as fases que o Hickman fez nos Vingadores é que vão servir de norte nessa adaptação.

Eu entendo o conforto que isso dá. A gente associa esses personagens a fases nossas que não voltam. Mas também sei que viver só de lembrança esvazia aos poucos. Eu vejo muita gente dizendo que continua indo ao cinema porque não quer perder nada. E, no fundo, eu também faço isso. Só que é diferente ir com vontade de ver o que vem e ir com medo de ficar por fora.

Eu nem vou me alongar muito no Doutor Destino, porque existe um risco real de ele virar apenas mais um vilão para movimentar a trama e servir de contraste para o brilho de outro herói. Ou pior ainda, de reduzirem o personagem a uma espécie de Tony Stark alternativo de armadura, sempre sem máscara, sempre guiado pelo carisma do ator, esvaziando tudo o que faz do Doom uma figura única. Quando o Destino funciona de verdade, todos nós sabemos que ele é muito mais do que um antagonista. Ele acredita sinceramente que está salvando o mundo e aceita pagar qualquer preço por isso, inclusive o da própria humanidade. Orgulho, culpa, obsessão e genialidade coexistem nele sem nunca se equilibrar. Foi exatamente isso que fez Guerras Secretas de 2015 funcionar tão bem. Aquela história não se sustentava apenas na escala ou no espetáculo, mas no confronto íntimo entre dois homens tentando consertar um universo fraturado e remendado a partir de visões irreconciliáveis. Era algo pessoal, tenso, desconfortável. E eu não sei se o cinema atual, tão ansioso por ritmo e aplauso imediato, está disposto a ter a paciência necessária para construir esse tipo de história.

Em vez disso, é capaz de que peguem essa ideia e transformem em algo mais fácil de vender. Algo que se apoie em rivalidades antigas que já estão resolvidas. Algo que tente repetir emoções de dez anos atrás só porque funcionaram uma vez. Eu consigo quase ouvir a tentação: colocar o Steve como o grande pilar moral, trazer Tony de alguma forma, fingir que isso sozinho sustenta uma história desse tamanho.

Ainda gosto de sentar numa sala escura, ouvir o barulho coletivo, sentir aquela expectativa antes da tela acender. Só que hoje eu entro sabendo que talvez eu saia com a sensação de que vi algo pensado primeiro para agradar estatísticas e só depois para tocar alguém de verdade. E isso me deixa dividida. Parte de mim torce como sempre torceu. A outra parte... Bem, já te falei sobre memorizar o truque da carta.

Queria muito estar errada.

Queria sair do cinema feliz como na época de Guerra Infinita, sentindo que tinha visto algo que realmente arriscou. Mas, por enquanto, a impressão é outra. E a de vocês? Chegaram a se empolgar com algum desses trailers “vazados”? Deixem nos comentários, vamos discutir. Espero não ter sido negativa demais.