Ele Era Um Dinossauro - Parte VIII

Link da última parte: https://ozymandiasrealista.blogspot.com/2020/04/ele-era-um-dinossauro-parte-vii.html




Parte VIII
Não é engraçado quando seus amigos desprezam o que você se tornou?
Não é engraçado quando você sabe que vai morrer velho como um dinossauro?
É tão engraçado!



         "Pois bem, a minha história, minha verdadeira história, começa há muito mais tempo do que vocês possam imaginar. É uma noção de tempo que supera o período de existência da Humanidade, e até o meu próprio, já que estive congelado. Naquela época a Terra, apesar de já ser a Terra, era diferente em seus detalhes. Por mais estranho que seja vê-los como raça dominante milhões de anos depois... Não teriam chance naquela época. Haviam mamíferos, mas não haviam humanos. Nem debaixo de pedras. Os matos, ares e oceanos eram dominados por dinossauros.
         Tínhamos nossa forma de comunicação, diferente do que vocês pensam... Éramos uma civilização. Tínhamos nossas famílias, escalas sociais baseadas em força estrutural, áreas de estudo e muito mais. É estranho como vocês cegamente se basearam nos estereótipos que têm de répteis da sua época para supor como era nossa civilização a partir dos ossos que acharam...




         Os ossos...



         Eu fui o primeiro e único filho da família T-Bloide. Minha raça era ovípara, então nasci de um ovo gerado pelos meus pais. Claro que não me recordo dessa época. Mas imagino se o choque foi similar com o de quando me descongelaram... Ou foi um momento mais confortável. Bem, o futuro não foi. Cresci de forma meio distante. Nós dinossauros fazíamos o que tínhamos de fazer. Mas é muito cedo para chegar aí. Eu tive uma infância; e é vital que eu fale dela para vocês compreenderem a minha história. Ou ao menos entenderem...
         Assim como eu, meus pais eram seres reclusos e fechados, mas nunca me faltaram em nada. Não era como se eles em especial fossem assim. Era uma característica da minha raça, e o tipo de coisa que não se refletia naquela época. Hoje não posso negar que tive todo o necessário, não nos faltava nada. Nós não tínhamos o costume de destruir a natureza ao nosso redor como vocês, posso dizer que nos adaptávamos a ela onde fôssemos passar a viver. Então perto de onde eu e outras famílias da minha raça moravam existia um conjunto de árvores, como uma floresta, mas eram bem apertadas. Como uma criança, eu era o único que conseguia entrar lá, então me divertia avançando floresta a dentro como um lugar em que podia ficar sozinho.




         Eu não ligava pra floresta. Só ligava para mim mesmo. O importante não era o lugar e suas características... Mas como eu me sentia livre para me sentir no meu próprio lugar, mesmo sem as minhas coisas. Estar sozinho dava essa sensação boa. Poderia dizer que... minha infância se resume a aquele lugar, pelo ponto de vista pessoal. Eram bons momentos, mas também houve um mais pesado, que talvez tenha sido fatídico. Eu estava quieto um dia, viajando em minha própria mente, quase completamente desligado do ambiente ao meu redor. Eis que pela primeira vez, ao menos primeira que eu tenha notado, um adulto estava correndo entre a base das árvores. Mas não era como meus pais, na verdade, era menor que eu mesmo. Era um dinossauro já crescido de outra raça, parecia ter corrido tanto que tinha ficado esgotado e não conseguia mais. Dava pra notar também pela sua respiração ofegante e jeito desesperado. Ele não sabia o que fazer, como se não soubesse o que fazer com os próprios sentidos. Achei fascinante um bicho pequenininho daqueles, eu provavelmente conseguiria segurá-lo com os meus próprios braços. Mas pelo visto outro não pensava como eu."




         Noberto vai ficando com a respiração pesada e seca conforme se lembra.
         "Havia um outro dinossauro que estava vindo atrás desse... do menor. Era seu predador. Ele surgiu de repente, fiquei curioso com o que ele iria fazer, como iam interagir. Mas minha curiosidade não durou um minuto. A boca do predador dava metade do corpo desse menor... Foi uma mordida só; e ele o matou. Ou não. Não sei. Só me lembro do sangue, do pequeno dinossauro pendurado na boca do assassino. Seu rosto congelado... Sendo puxado pra dentro com mais mordidas. Tanto sangue... Foi tão rápido... E ele não estava mais lá. O dinossauro maior havia saciado a sua fome.
         Nenhum dos dois me viu. Fiquei apenas como um observador. Um observador extremamente assustado. Até hoje essa é a coisa mais horrível que já vi, ainda consigo me lembrar com muita clareza. Fiquei chocado. Não sabia o que pensar, não sabia o que fazer. Voltei pra casa com medo, como se não conhecesse o caminho, como se houvessem coisas escondidas nele que eu não podia ver. Mas mesmo assim, perturbado, contei nada para os meus pais.




         Minha raça era a mais forte de todas, então era incomum para mim sentir medo e insegurança, mesmo assim, conforme crescia fui me afastando e me sentindo à vontade em viver como queria. Era o que todos faziam. Com o passar do tempo meus pais notaram que eu nunca mais comi carne de outros dinossauros. Não demorei a ficar independente e me sentia melhor comendo apenas plantas, como herbívoros. Meus pais gostavam nem um pouco, mas como já disse, não interferiram, nós só fazíamos o que tínhamos de fazer e eu mantinha isso para mim mesmo. A verdade é que eu não conseguia comer a carne. Sempre lembrava daquele dinossaurinho menor sendo puxado pela garganta do outro. Balançando leve... Em inocência... Sem ter defesa. Não conseguia suportar isso. Não conseguia me esquecer. Eu me acostumei e acabei passando a ficar mais ainda na floresta, lá podia fazer todas as minhas refeições com plantas e frutos sem ninguém por perto. Me sentia bem. Havia nada de errado. Bem...
         Me lembro de outro dia muito importante na minha vida. Foi quando comi uma planta que me deixou passando mal, mas muito mal, extremamente mal. Nessa época eu já me alimentava assim há um bom tempo, mas foi a primeira vez que isso aconteceu. Eu estava aos poucos me desacostumando com o que achava naquela floresta e procurando coisas de outros lugares. Era questão de tempo até ingerir algo que não 'caísse bem' e quando aconteceu o meu mal-estar foi tanto que acabei vomitando tudo em um líquido roxo e brilhante. Depois de recuperar o fôlego notei que continuaria vivo e te digo que por alguma razão no lugar de ficar assustado fiquei fascinado com aquilo! 




O fato de eu não entender me despertou uma enorme curiosidade! Me mostrou que havia muito que eu não sabia, então decidi que quando crescesse estudaria as diferentes plantas e vegetais para mapeá-las bem. Tinha certeza que havia mais nenhum indivíduo em toda a Terra Cretácea com aquele desejo. Apenas eu. Notei que era diferente e me apeguei a isso, senti que era justamente onde eu deveria atuar. Então em paralelo com os meus estudos geológicos sempre fui me aprofundando em trabalhos e estudos com plantas e alimentos orgânicos--"
         - Espera um minuto! - interrompe o jornalista - Você disse "plantas e alimentos orgânicos"?! Você tá me dizendo que é vegetariano?!
         - Vegano. - corrige o kaiju - Praticamente nunca comi carne.
         - MAS COMO ASSIM???
         - Pelo visto isso ainda causa choque...
         - MAS VOCÊ É UM DINOSSAURO! - nomeocultado exclamou em crise existencial.
         - Sim, - respondeu a criatura com convicção. - E são os estereótipos, ou minhas próprias escolhas que devem definir quem sou?
         O técnico de informática ficava batendo o pé no chão animado com a história. - Deixa ele continuar! Deixa ele continuar!




         - Não acredito... - lamenta o jornalista em choque. - Você estudava plantas... Isso só pode ser pegadinha.
         - Um minuto, D-42. - Pediu Genio Sin - Você disse que estudava? Conte mais sobre isso.
         - Eu vou continuar.
         "Minhas únicas peculiaridades se limitavam à minha vida privada. De resto sempre fui um dinossauro normal. Aos olhos alheios eu era na verdade um herdeiro exemplar de uma das maiores famílias de dinossauros da Terra. A mais forte, sem dúvida. Só não tínhamos tantos em números, mas individualmente éramos imbatíveis. Fui evoluindo profissionalmente até com certa facilidade. Minha área preferida era a geológica, estudando os mistérios da Terra. Por isso acredite quando eu digo que a Terra ainda é a mesma. E se passou muito, muito tempo. Vejo bastante discussão na TV e na Internet (quando ela está funcionando) sobre como o homem está matando a Terra. Ha! Não se enganem. Ainda não foi registrada força animal que pode matar a Terra, e ela já está aqui há bastante tempo. O que vocês fazem é matar a si mesmos. Essa é a verdade que vocês evitam olhar. As espécies podem escolher sumir apenas com si mesmas sem deixar vestígio. Elas se eliminam. A Terra não precisa de vocês. A Terra vive.



         Com o tempo passei a fazer parte de grupos focados a essa área no 'Núcleo Intelectual Cretáceo', corpo onde se encontravam todos os interesses criativos dos principais dinossauros ao redor do mundo. Am... Eu também consegui ter a minha própria família. Tinha uma parceira e cheguei a ter um filho... Mas hoje já faz tanto tempo. Bem, não convivia com eles, como meus pais comigo. Não os via bem como uma extensão de mim. Nunca vi. Talvez não tenha os conhecido tanto, mas bem, eu tinha tudo que precisava e trabalhava com o que gostava."




         - Então esse tempo todo - perguntou Sin - e você também era um cientista? Um cientista como eu e eu não sabia?!
         - Sim, Sin, seu pedacinho de gordura nojento. Não só um cientista, fui o cientista. O último cientista de uma espécie, de uma era inteira.
         - Oh! - ele se surpreende - Então você era superior...
         - Muito mais, baixinho. E há muito tempo antes de você. Você não entende nada. Garanto que não vai se identificar com a próxima parte da história.
         E então ele continua
         "Eu já trabalhava e creio que era a época que eu estava para ter meu filho. Já tinha uma função, já tinha o meu espaço. Bem, certo dia do nada senti uma pontada na minha cabeça. Era pequena, mas profunda, bem no meu cérebro. Nunca tinha sentido aquilo antes. Não era uma dor de cabeça comum, não melhorava, pelo contrário, foi ficando mais intensa e parecia se espalhar pelo meu cérebro. 



Comecei a ficar com calor, com medo. Mais uma vez senti essa sensação incomum pra minha raça: medo. Foi tão estranho que senti medo de morrer. Fugi, fui para longe de quaisquer olhares. Adivinha para onde fui? A floresta. Como eu disse, o lugar mais importante talvez. Mesmo em épocas diferentes, fora da minha infância, foi pra onde eu acabei recorrendo nos momentos mais extremos. Conforme chegava lá minha dor ia ficando mais e mais pontiaguda. Já não sentia esperança de descobrir o que estava acontecendo. Pensava que o meu próprio organismo estava me punindo por ter escolhido uma forma de comportamento diferente dos outros. Achei que de alguma forma aquilo seria minha Ruína.
         Conforme eu adentrava a floresta o espaço entre as árvores ficava muito apertado e tornava impossível que eu avançasse mais. Lembro que a dor conseguia latejar mais e mais. Sem saber o que fazer com aquela dor crescente me agarrei em uma árvore e esperei o resultado seja qual fosse. O final ou a resposta. E aí vem a parte que vocês nunca iam imaginar. Nunca! Adivinham o que era? O que era a dor? Telepatia! Sim, era telepatia. Conforme eu me comunicava telepaticamente meu cérebro ia se acostumando com a dor que se suavizava até tudo voltar ao normal."
         - O quê?!
         - Caraaaaaaaca!
         - Am... mais detalhes, por favor.
         "Eu vou explicar. Eu não estava enganado, realmente não havia explicação para aquilo na Terra, aquilo não existia. A resposta seria exterior. Conforme a dor passava, uma voz na minha mente revelou ser um contato de outro mundo."



         - Como assim?! Quanta besteira! - desacredita Genio Sin.
         "Nunca vou me esquecer! Não estou brincando com vocês. Vejam se pareço estar mentindo. Chamei aquela de 'Dor de Cabeça', a primeira de uma série nas várias vezes que eles entrariam em contato comigo. Na primeira pediram para eu ficar calmo. Falavam a minha língua, dava para entender apesar da sonoridade telepática ser muito esquisita, leva um tempo pra você se acostumar. Eles sabiam de que família eu era e disseram que eu havia sido escolhido--"
         - Olha!
         "--para servir de ponte informativa entre os dinossauros e uma raça superior alienígena que queria estudá-los. Apenas se introduziram mas tudo ainda parecia uma loucura. Quando terminaram eu já havia puxado o tronco do chão quase arrebentando suas raízes, estavam todas puxadas pra fora da terra. Quando notei que tudo era real me senti extremamente honrado. Cheguei a me perguntar se estava louco, mas eles voltavam a entrar em contato comigo com as 'Dores de Cabeça' de tempos em tempos, e é claro, sempre me sentia mais confortável de fazê-lo quando não havia pessoas por perto, como florestas pouco habitadas ou realmente sem ninguém. A minha função como estudioso da estrutura geológica da Terra era inestimável para eles descobrirem mais sobre meu planeta, de forma que mentalmente eu ia passando informações sobre a sua natureza quando entravam em contato. Teve um dia que fiquei nervoso, ainda não havia me acostumado com aquilo tudo. Demonstrei minha falta de confiança neles e exigi uma prova da credibilidade em tudo aquilo. Não fazia muito sentido, mas eu realmente não me sentia confortável com a situação. Então eles disseram que se eu quisesse ver de onde eles estavam se comunicando comigo se revelariam, mas eu teria que subir a montanha mais alta de Monstruous Vi; hoje com certeza nem existe mais. Seria intenso e cansativo, mas eu sabia que não eram desculpas já que nada podia me destruir, eu ou qualquer um da minha raça. Pedindo isso eles deixaram explícito como sabiam que aquele contato entre nós era uma grande honra para mim e cobrariam por isso. Não gostei nem um pouco, mas acabei fazendo a escalada mais por curiosidade do que por fé ou... credibilidade.



         Fui sem parar para não ter chance de me arrepender no caminho, e também fui com mais ninguém. Apenas podia ver alguns pterodáctilos na subida, mas depois de um tempo nem eles mais voavam ao redor daquela altura, era uma jornada completamente solitária. Apenas eu, que não tinha um nome ou apelido próprio como hoje, e minha insegurança de estar sendo enganado; minha consciência que não conseguia se calar. Se comparasse os extremos de terra, os extremos bem extremos, dava pra notar uma certa diferença de tonalidade na escuridão, mas por mais que fosse um ponto de vista que eu nunca havia alcançado, ainda não era aquilo que eu queria ver. Ao chegar no topo havia apenas nuvens e nada abaixo era identificável. Estava um vento forte, um vento muito forte e apesar de eu ter começado a escalada durante o dia já estava extremamente escuro quando cheguei lá em cima. Não sei descrever como seria o arrependimento se tivessem me deixado na mão... Mas, eis que vi várias luzes coloridas surgirem de repente! Estavam sinalizando meio longe de mim. Tantas luzes. Muitas luzes. Rodando em círculos, com diferentes cores! Vocês homenzinhos reproduzem isso, mas na época era indescritível, inegavelmente de outro mundo! Inegavelmente alienígena! Não tinha dúvida, era uma nave espacial! Era como um cumprimento! Um 'oi'. 'Nós cumprimos nossa promessa', um tipo de comunicação implícita por sinal, sabe? E depois eles foram embora, sumiram apenas mostrando isso, mas era o bastante, eles realmente tinham cumprido o combinado. Então eu tive certeza... Passado o êxtase fiquei mais tranquilo, passei a ajudá-los com mais naturalidade.




         Houve uma Dor de Cabeça em que avisaram que me encontrariam pessoalmente. Fui ao ponto que eles mandaram e usaram algum tipo de energia magnética ou anti-gravitacional, não tenho certeza, para me puxarem à aquela enorme nave que haviam me mostrado no topo de Monstuous Vi. Mais uma vez tive sensações tão estranhas que parecia estar tendo uma alucinação. A nave deles se parecia com o laboratório de Genio Sin, mas maior, mais grandiosa! Sendo um cientista como eu era, fiquei maravilhado com toda aquela superioridade tecnológica. As cores, os sons. Até o cheiro! Tudo era inacreditável, absolutamente cada centímetro. Eu os vi pessoalmente apesar de estarem atrás de uma cabine. Eram pequenininhos, deviam ter o tamanho de vocês provavelmente. As vozes soavam um pouco diferentes dentro da nave, mas ainda assim eram estranhas. De qualquer forma, eles me informaram que eram uma raça superior de cientistas do espaço. Viajavam pelo universo se dedicando a estudos, a aumento de conhecimento. Imagine quanto eles deveriam saber! Eram como deuses da ciência para mim. A honra só ficava cada vez maior.




         Com o tempo fui ficando melhor no meu trabalho. Ajudando uma raça superior eu achava mais motivação para aprofundar os meus estudos. Eu era o escolhido, eles precisavam de mim! Claro que junto às pesquisas sobre a Terra eu prosseguia com a minha paixão pela teoria da sobrevivência restrita à ingestão de plantas e alimentos orgânicos. Eu ajudava os extraterrestres, mas também queria ajudar os dinossauros, é claro. Queria melhorar aquele ambiente em que tinha crescido.
         De forma provavelmente anual, comparando com os métodos de contagem que vocês têm mais ou menos, haviam grandes reuniões do 'Núcleo Intelectual Cretáceo' para atualizar toda a comunidade científica de uma vez. Era onde se apresentavam projetos, avanços."
         - E só você sabia dos alienígenas? Você tinha contado para ninguém?! - pergunta Genio Sin abismado e interessado na história.
         - É! - apoia o garoto mostrando ter a mesma curiosidade.
         "Só eu sabia. Já falei isso. Eu contei pra ninguém, absolutamente ninguém. Ninguém da minha raça. Ninguém da minha família. E isso não mudou, fiquem sabendo. Não é o que vai acontecer. Era o momento de eu revelar o maior projeto que eu poderia ter trabalhado... O melhor trabalho de minha vida... Uma ideia. Uma nova forma de pensamento. Desde jovem estudando para finalmente chegar em algum lugar com as minhas ideias de sobrevivência sem necessitar de qualquer ingestão de carne. Era perfeito."



         - Você realmente era vegano? - pergunta nomeocultado mais uma vez pra ter certeza se não está delirando por causa da pizza ou... alguma outra coisa.
         - Sim... - ele rosna entre os dentes. Leva um tempo pra continuar a falar. Parece não querer.
         "Se tudo desse certo e houvesse uma revolução comportamental, nunca mais um ser inferior precisaria ser devorado sem poder se defender porque outro mais forte estava com fome; também inocente, já que apenas tentava saciar uma necessidade básica! Tudo tão normal! Há tanto tempo! Haviam raças inteiras assim, que só se alimentavam de plantas, mas elas eram excluídas, praticamente não havia interação entre nós, porque até então não precisávamos uns dos outros, como se fossem de outro mundo. Mas e se pudéssemos aprender com eles?! Nunca mais aquilo que presenciei na floresta precisaria se repetir! Seria diferente!
Mas...
Bem...
Todos eles zombaram de mim.
Simples assim.



Uma sala com as maiores mentes do mundo, e seus argumentos e réplicas eram apenas chacotas e gozações. Não podia acreditar. Eu qu-- Eu gostaria de não reconhecê-los... agindo daquela forma. E pior... é que eu sabia... que era apenas por ser diferente! Mas posso me lembrar de seus ataques. Não houve discussão... Não ganhavam nada com aquilo. Simplesmente afirmavam como era inviável seguir uma conduta diferente das dos nossos ancestrais. Imediatamente me trataram como se não fosse mais um deles... Como se fosse algo a menos... Mas tem nada a ver, era perfeito. Ouçam. Direi mais uma vez! Era perfeitamente possível que todas as espécies se adaptassem a dieta vegana! Éramos racionais, poderíamos fazer isso, ou ao menos considerar, inicialmente! Com a ingestão de vegetais e orgânicos não se precisaria mais que os mais fortes matassem os mais fracos para alimentação! Com a teoria da força em números, isso permitiria uma maior igualdade entre as raças e ação entre todos os dinossauros, um melhor funcionamento do ambiente de forma que evoluiríamos como nunca antes! O que hoje em dia é chamado de 'canibalismo' era a ordem incontestável do mundo há milênios naquela época, mas nada daquilo seria mais necessário. Hoje os humanos, pequenos e patéticos, defendem a ingestão única de plantas da mesma forma, mas eu já tinha pensado nisso há muito tempo!!! Era horrível, lamentável e considerado normal por todos os dinossauros. É claro que era um sonho meu, mas ainda assim...



         Essa Reunião foi a última feita na história e também o último 
momento que vi aqueles dinossauros na minha vida. Aliás, os últimos dinossauros que veria na minha vida, quando não imaginava que estaria vivo tantos anos depois. Já faz tanto tempo... e até hoje me lembro de suas bocas abertas mostrando os dentes com risos forçados. Pareciam ataques. Tudo que eu havia dedicado a minha vida inteira não servia para nada. Era indiferente para eles. Eles não pensaram duas vezes antes de rir de mim. Bando de hipócritas doentios alegando defender a razão. Me excluíram como se eu nem fosse da mesma espécie. Eles pareciam se esquecer que ser um dinossauro vegano não mudava o fato de que eu ainda era um dinossauro! Senti ódio, tanto ódio... Tudo que queria era me livrar de todos eles. E foi o que fiz."
         - Você os enfrentou?!
         "Não... Ao sair de lá me senti louco. Mas não era o medo mais uma vez. O medo eu já conhecia. Era realmente ódio, tanto ódio. Ódio por todos aqueles que formavam aquele comitê, aquele comitê que eu já havia idolatrado, o comitê que no momento eu me lembrava com desprezo de ter participado por tantos anos, praticamente a minha vida toda. Não que eu tivesse uma grande paixão por tudo aquilo, mas nunca imaginei que terminaria dessa forma, jamais. Fui seguindo em direção ao território da minha família, sem ver um dinossauro no caminho inteiro, se havia algum era muito pequeno e estava escondido... Era longe... mas para um cara do meu tamanho não demorava tanto se fosse rápido..."
         Ele parece ter dificuldade para continuar. Está com a respiração pesada.
         "Bem... coincidentemente foi quando tive outra Dor de Cabeça. Não havia como prever quando elas vinham. Eles me disseram pra que parasse de avançar, pois estava em uma boa área aberta e... eles precisavam fazer contato pessoal comigo mais uma vez. Novamente tive a honra de ser abduzido para aquela incrível nave alienígena.



         Quando os extraterrestres me contaram o que estavam pedindo para eu fazer... Eu me lembro perfeitamente. Faz milhões de anos, mas me lembro perfeitamente. Tudo parecia muito claro para mim. Preto e branco. Mais preto... do que branco."
Eles eram muito diretos:
         Precisamos da sua ajuda para nos livrarmos da sua espécie. Iremos atirar uma vez e então eliminaremos todos eles. As chances de sobrevivência são zero. Não há como eles se esconderem para preservarem suas vidas. Porém, somos a espécie mais evoluída que a galáxia já viu. Nossos princípios são científicos e estamos acima da vida de qualquer planeta. Você não verá mais a sua família, mas fará parte de algo muito maior. Tem certeza que quer continuar?
         - Espécie, sobrevivência, vidas, família. Eu podia ouvir nada disso sob o eco das risadas deles caçoando de mim. Mas hoje, é o silêncio que me perturba. Me desculpem, - ele diz ao ver Genio Sin e o jornalista chorando - mas eu não possuo lágrimas para compartilhar com vocês.



         "Tudo o que eu queria eram todos eles destruídos... Os Aliens... eles precisavam realmente da minha ajuda. Foram honestos o tempo todo quando descreveram a minha importância, mas agora que já sabiam tudo a única coisa que sobrava era ver como a Terra sobrevivia sozinha sem os seres vivos dominantes sobre ela. A Terra afinal, era maior e o principal organismo sob estudo. Nós dinossauros, carnívoros ou não, éramos só um detalhe. Como não existiriam mais, eles guardavam uma espécime congelada que participaria de um tipo de 'museu' que eles deviam ter guardado na nave, já que a chance de encontrar a mesma espécie em outro planeta era inexistente. Como já me conheciam me escolheram para a oferta. Não pensei duas vezes. Não sei como eles tinham tanta certeza que eu aceitaria, mas concordei prontamente e com muito orgulho fui indicado para uma câmara circular de congelamento. Esperando meu destino, meu remédio que me tiraria de toda a dor que estava sentindo no momento. Mas foi contando com isso que minha mente me pregou uma peça! Algo que eu realmente não esperava, não sei porquê. Como eu disse, devia fazer parte do castigo. A memória de meu filho... veio claramente à minha mente. Como se ele estivesse olhando pra mim! Como... Como se estivesse olhando bem para mim de baixo... Com todo aquele ódio eu nem havia me lembrado deles. Sabe, havia minha fêmea... Me-- Não os veria novamente. Nem eles nem mais ninguém. Era o fim. Gostaria que tivesse sido só um pesadelo. O fim e eu havia concordado. Havia passado uma eternidade trabalhando, e agora nunca mais poderia vê-los, não estaria sendo exterminado lá embaixo. 



Não sabia porquê, mas de repente isso me trouxe uma terrível agonia, como se tudo estivesse correndo violentamente para o lado errado. Tive a impressão que havia um arrependimento inevitável se aproximando, fiquei louco! Completamente selvagem como essas pessoas que aparecem na televisão! Furioso espanquei a câmara involuntariamente com minha cauda, e acontece que apesar de eu não ter conseguido quebrá-la, não era acoplada diretamente com o resto da nave, tendo se separado com o impacto. A altura era incalculável. Eu não podia acreditar que estava caindo. Em alta velocidade vi que tudo estava lá. E de repente não estava mais. O ataque só poderia ser descrito como coisa de 'outro mundo' mesmo. Era silencioso... e devastador... como uma... luz... que se acende mas traz escuridão. Vi apenas uma fortíssima luz branca, e sabia o que era. A câmara, porém, havia se desconectado comigo fechado dentro dela, e ao cair ainda cumpriu sua função. Enquanto congelava assisti tudo ficar branco. Não era como você imaginaria uma destruição. Parecia uma exata e radical substituição do tudo pelo nada, das cores pelo branco, como um pesadelo. Som e imagem de uma hora para a outra não estavam mais lá. Eu pude presenciar o fim da minha espécie com meus próprios olhos... Bem, mas ainda assim não chegou a ser o meu fim.
         O resto vocês já ouviram. É difícil eu organizar isso tudo na minha mente. Na verdade, essa foi a primeira vez que fiz isso... Eles me ofereceram o Fim e bem... Eu apoiei."
         - QUE ISSO?! - gritou o garoto do serviço técnico apontando para Noberto - Como é que você teve coragem de matar todos eles!? Você... Você é um monstro! VOCÊ É UM PSICOPATA!
SPLASH!



         Antes que mais qualquer coisa pudesse ser dita, o garoto foi esmagado pela imensa pata de Noberto, por pouco não pegando Genio Sin e o jornalista que tremiam de medo. Enquanto eles olhavam em choque, Noberto esfregou o pé de volta como se tivesse pisado em uma barata, deixando no chão o rastro de sangue, carne e ossos do garoto. Ele se vira e a levanta para limpar raspando em alguma parte da mesa. Ainda com semblante indiferente ele diz poucas palavras reservadas para os dois pequenos seres.
         - Muitos mais poderão morrer se não voltarmos a Washington agora.