Ele Era Um Dinossauro - Parte VI




Parte VI
Eu sou uma força nuclear
Eu faço gwaaaaaaaaaaar
Eu estou me desfazendo
No ar
         Genio Sin e Noberto (ou D-42) ficaram conversando na cozinha discutindo as possíveis razões daquele jornalista (ou como ele disse, ex-jornalista) ter ido até o Pólo Norte só pra falar com ele e fazer uma matéria.
         - Nenhuma revista ou jornal falou da sua aparição - disse Sin. - Eu falei que eles não achavam interessante. Eu pesquisei bastante na época pois esperava que talvez dissessem algo sobre mim ou os meus estudos, mas no final ficou sendo tudo secreto.
         - Talvez ele tenha vindo justamente por isso...

         Depois de algumas horas o homem doente acordou no maior sofá do planeta. "Maldita pizza estragada" ele pensa. Apesar de ter melhorado um pouco ainda não se sentia bem. Tinha dores no peito, na cabeça, nas costas e na garganta. Queria dormir mais, mas não estava conseguindo respirar direito por causa das suas vias congestionadas. Acordou com o nariz escorrendo como se fosse uma torneira quebrada. Depois de esfrega-lo com a manga da blusa, a primeira coisa que fez foi tirar suas botas de frio. Foi quando ficou preocupado. Quase não sentia os seus pés. Eles pareciam estar azuis, veio um profundo medo de que tivesse que amputá-los. Começou a esfrega-los, massageá-los, mas mal os sentia. Seu nariz continuava escorrendo enquanto isso, facilitando em nada sua respiração que só ficava mais ofegante conforme sua preocupação aumentava. Ele bateu um pouco o pé na almofada do sofá, continuou o esfregando com mais força. Já estava ficando com raiva. Se lembrou do dinossauro, como aquela coisa incrível estava tão perto dele. Resolveu avançar do mesmo jeito. Ficou em pé no sofá. Eles estavam funcionando, só tinham perdido um pouco a sensibilidade por causa do gelo. Se abaixando um pouco, ele pulou. Imediatamente se arrependeu. Devia ter chamado o dinossauro. A altura do sofá era enorme e por um momento acreditou que seus braços e pernas tivessem quebrado com o impacto. Sorte que eles ainda não tinham virado gelo.


         Com ainda mais dor, o homem observa em volta, maravilhado. Tinha acabado de acordar. Não teria dormido em seu sonho, aquilo tudo realmente era verdade. Parecia algum livro de fantasia como Alice no País das Maravilhas ou As Viagens de Gulliver. Tudo era gigantesco, mas ao mesmo tempo nada era original. Eram representações colossais de tudo que as pessoas ricas costumam ter em suas casas: Relógios, sofás, colunas, televisão, aparelho de rádio, computador. Mas por que tudo aquilo havia sido criado? Por que estava lá? Ele sabia que tinha uma única forma de chegar a essas respostas. O seu recente descanso havia sido necessário e inevitável, ou acabaria desmaiando na frente do entrevistado, portanto, não toleraria mais enrolações. Hora de ir ao trabalho.


         Para evitar incômodos (ironicamente, como você verá), o homem primeiro se dirigiu ao banheiro para poder lavar seu nariz. Alergias, resfriados; pequenos e letais inimigos de um serviço bem feito. Apesar da porta estar fechada dava pra se encurvar um pouco e passar por baixo dela. Chegando lá era como o resto do lugar (cujo tamanho total ele ainda não conseguia visualizar, já que do lado de fora estava uma nevasca forte demais). A privada era enorme, só a banheira poderia ser considerada um cômodo completamente a parte. Só dava pra notar que a pia era a pia depois de identificar todos os objetos e só sobrar ela. O rolo de papel higiênico estava meio alto e infelizmente o papel não estava desenrolado até uma altura muito próxima do chão. No momento o homem teve a ideia para um texto já completamente novo. Não sobre dinossauros, mas sobre dores de cabeça! Não é simplesmente dor de cabeça. Ele havia descoberto que você podia ter dores de diferentes tipos. E ao mesmo tempo! Mas antes tinha que escrever logo sobre o dinossauro e esperava perder a inspiração para o segundo tema junto com as dores. Pensar no futuro era estranho, muitas surpresas no presente deixam ele nublado. Escalando a lixeira, que para a sorte do nosso amiguinho, tinha textura de grade, ele pula no papel higiênico para desenrola-lo. Infelizmente, tinha esquecido que não estava no filme "Querida, Encolhi As Crianças" e não conseguiu se segurar no papel, caindo no chão de barriga pra baixo enquanto o papel higiênico gigante se desenrolava em cima dele. Agora era oficial. O seu corpo todo estava doendo. 


            Então ele pensou... Por que com os avanços os deuses dinossauros do seu sonho haviam trocado Metallica por Megadeth se ele preferia Metallica do que Megadeth? O inconsciente afinal não era dele? Bem, tanto faz.


         Parecendo aquelas formigas que conseguem carregar objetos muito maiores que si mesmas, o punido homem adentra a cozinha com um bolo de papel amassado gigante sendo erguido acima da cabeça. Seria considerado bonitinho se todos no recinto não fossem consideravelmente insensíveis. Noberto estava no mesmo lugar de antes. Ele se vira e só fica olhando sem falar nada. O homem deixa o papel ao lado, respira fundo para tentar recuperar a energia e volta a falar com o kaiju.
         - Bem, me desculpe... Sr. Noberto, mas foi um caminho violento até chegar aqui. Eu tinha que me recuperar, mas obrigado por ter me levado até o seu sofá, muito obrigado.
         - Humpft, não precisa agradecer. Eu só não queria um humano jogado na minha cozinha. Vai que a sua vidinha tinha acabado?
         - Muito obrigado, mesmo assim. É uma honra conhecê-lo, senhor. - Ele está cansado, mas continua falando do mesmo jeito - Não é muito comum aparições de seres de sua estatura ou da sua época, então acho que o que todos querem saber é o básico. Como você se sente sendo um dinossauro?


         - Que péssima pergunta. - responde Noberto secamente.
         O homem fica desamparado com essa. Tinha planejado o momento desde quando saiu de casa. E isso foi um longo tempo até conseguir chegar à localização de Noberto, mas o tempo todo ficava imaginando o quê perguntaria, como estruturaria o seu texto, como falar com o dinossauro. Como podia ter errado de primeira? Realmente não sabia como continuar. Então foi Noberto que continuou.
         - Sou um dinossauro gigante vivendo... sozinho em uma casa no meio da neve feita pelo governo dos Estados Unidos. O que tem pra eu explicar como me sinto nisso? Você não pode imaginar?
         - Eu preciso usar as palavras do entrevistado, senhor - responde o homem com tranquilidade. - Você mencionou que o governo dos Estados Unidos é responsável pela grande casa, me conte mais sobre isso.
         - Olha, eu estou meio ocupado...
         - SOCORRO! - interrompe uma voz que chega rasgando do nada.
         - O quê? - pergunta o jornalista - Quem foi esse? Você não disse que vivia sozinho?
         - Sim, sim... ao menos era o que eu achava. - explica Noberto com desânimo - Essa madrugada eu descobri a ilustre presença do cientista inútil Genio Sin. Ele foi o responsável por eu estar aqui e foi mandado pra me espionar.
         - ME DEIXA DESCER!
         - Calma aí, vou colocar ele aí do seu lado assim eu não tenho que ficar virando o tempo todo. Também tenho medo que a minha cauda te acerte. Cuidado.
         Então o dinossauro coloca o cientista baixinho e com cara de emburrado sentado do lado do repórter. Genio Sin tinha cabelos ruivos e uma grande barriga. Ele estava com uma corda amarrando os seus braços ao tronco e sua face transmitia uma primeira impressão de puro mal.
         - Uau! Duas fontes! Você trabalha para o governo dos Estados Unidos?
         - Sim, acho que isso não é mais segredo. Se bem que você é um jornalista, eu não deveria estar te contando isso.
         - Não, eu não sou mais jornalista. Apesar de estar querendo fazer uma matéria sobre Noberto. Conte-me mais sobre você, qual é o seu nome mesmo? O Sr. Noberto te descreveu como um cientista inútil, isso é verdade?
         - Eu sou um gênio sim! Meu nome até é Genio Sin! Muito prazer, eu sou o auge da humanidade. Infelizmente meus últimos anos não tem sido muito dignos graças à última missão que me foi incumbida, de observar Noberto desde agosto de 1977 - de repente Sin muda de tom. - Mas que credibilidade você tem se não é mais jornalista? Quem é você? O que o trouxe aqui?


         - Ha. Eu posso responder essa pergunta depois. Mas te adianto que desde quando saí da minha casa peguei quatro táxis, um ônibus, um avião, um bote e uma carona de trenó com um velhinho esquisito para chegar aqui. Aliás, ele falou que eu não sobreviveria. Estou até considerando isso. Eu acredito que todo esse esforço deva servir como credibilidade.
         Ao sair de casa o ex-jornalista realmente tinha tirado todo o seu dinheiro do banco para que não lhe faltasse nada que precisasse até chegar no seu objetivo. Pois sabia que caso voltasse sem conseguir, dinheiro seria a última coisa que faria falta. E é claro, ele também já estava acostumado a pedir emprestado pro seu irmão quando precisava.
         - E por que esse monte de papel higiênico gigante? - pergunta Genio Sin, achando estranho.
         - Eu fiquei extremamente doente com a mudança de clima vindo pra cá. Meu nariz não para de escorrer, então já trouxe esse monte de papel pra me ajudar. Os lenços que eu comprei acabaram no caminho... Bem, já dormi, algo que eu realmente não queria fazer chegando aqui, então agora quero fazer a minha pesquisa direto, sem interrupções. Falando nisso, deixa eu pegar meu gravador, tinha esquecido...
         Então ele tira a mochila das costas e começa a fuçar. Sofre de uma violenta e repentina crise existencial quando tira tudo da sua mochila e descobre que esqueceu seu gravador!


Ele grita tão alto que se estivesse do lado de fora da casa teria causado o desabamento de alguma montanha local. Tinha esquecido o quanto estava ferrado, então logo depois de gritar sentiu tudo doer e até caiu no chão.
         - O que foi, homenzinho? - pergunta Noberto, achando o humano cada vez mais esquisito e dispensável.
         - Eu esqueci o meu gravador... - ele choraminga.
         - Imagino que fosse importante - supõe o dinossauro - Você vai ter que voltar pra pegar?
         - Não! - ele continua explicando em um tom cansado e desesperado - eu nem tenho dinheiro pra voltar! Não sei nem como é que eu vou fazer. Eu não presto pra nada!
         - Você não pode fazer a matéria sem o gravador? - pergunta Genio Sin.
         - Posso... mas é que com o gravador é bem melhor.
         - Seu celular não tem gravador?
     - Não, - ele diz se referindo ao celular - isso aqui é da idade das cavernas. Oh! Sem ofensa, sr. Noberto! - ele se desculpa logo. Noberto não expressa qualquer reação além da sua já constante cara de indiferença. - Eu posso anotar as coisas mais importantes... mas é melhor com o gravador, - ele resmunga - fazer o quê?
    - Ha! - debocha Genio Sin - Se você tivesse uma mente melhor desenvolvida conseguiria memorizar todas as informações importantes no seu cérebro e não se esqueceria!
         Noberto fecha os olhos com impaciência e pede - Deixa o tampinha fazer logo a matéria dele. Vai logo, você está sem o gravador mesmo.
        - Certo, - se apressa o tampinha - vamos começar do início. 16 de agosto de 1977, estou certo? Foi a época em que você escapou e fez a sua primeira aparição. Quantos anos você tinha na época e quantos tem agora? Você sabe me dizer?
         - Na verdade não. - responde o dinossauro - O método de contagem de vocês é diferente do meu por uma infinidade de razões e eu já não me lembro mais como funcionava na minha época.
         - Certo. Você sabe me dizer se por acaso há outros dinossauros que também sobreviveram?
         - Se houvessem você acha que eu viveria aqui? Nesse fim de mundo?!


Notou então que algumas perguntas incomodavam verdadeiramente o dinossauro, mas não tinha como adivinhar. O jeito era fazê-las de qualquer forma e evitá-las se ele mostrasse irritação. Prosseguiu.
         - Hum, agora algumas outras características básicas. Você saberia me dizer sua altura, peso? Qual é o nome da sua raça?
         - Na verdade não. Na minha época nos classificávamos por famílias, não raças necessariamente.
         - Mas nós dividimos em raças. Você já deve ter visto algum livro ou reportagem escrito por humanos. Qual é a sua?
         - Na verdade não, eu nunca li os estudos de vocês.
         - Hum? Por que não?
     - Não é muito... É doloroso. Não gosto de ficar olhando as páginas pensando como eles são história passada... arquivadas em livros. Eu simplesmente não olho.


         - Hum, entendi, mas você sabe ler. Falando nisso. Como foi que você aprendeu a falar?
         - Com a minha mãe, oras.
        - Oh, claro... Bem, hum... Então, como foi esse negócio com o governo dos Estados Unidos? Você foi salvo por eles? Trabalha junto com eles?
         - Bem, eu não tinha qualquer consciência enquanto estava congelado. Ainda bem, já que foi mais tempo do que posso imaginar. Quando ouvi os primeiros sons não tinha consciência do que se tratasse. Eu não tinha consciência nem da minha própria consciência. Quando minha visão voltou, o susto do lugar que eu estava já fez com que eu me levantasse e todos os meus sentidos voltassem na potência máxima de uma vez. Pensando só pode ter sido o susto que causou isso, já que tinham acabado de me descongelar...
         - Hum, e como era o lugar?
         - Ah, calma aí. Era meio que um laboratório bem grande, meio escuro--
         - Não! - interrompe o cientista - Isso é confidencial! Você não pode!
     - Cala a boca, Genio Sin! - reclama Noberto. - Ah, era escuro. Me lembro que tinha um monte de gente. Eram muitas coisas de uma vez, então não prestei muita atenção no lugar. Mas tinha bastante gente mesmo, e todos olhavam pra mim. Lembro que tinha um que veio falar comigo, me explicou que eu tinha sido descongelado. Aí tudo fez sentido de uma vez.


         - Mas eles não te deixaram sair, deixaram? Você que deve ter fugido.
         - Sim. Eu me lembro. Fiquei nervoso. Tudo era estranho, os sons eram estranhos. Pensei que estava maluco, aquilo fosse algum tipo de castigo. Me foquei na explicação que aquele homenzinho minúsculo tinha me dado e comecei a supor o resto a partir daquilo. Eu ficava cada vez mais nervoso, mas o estopim foi quando vi o mais feio de todos falando de mim como se eu não estivesse lá. Aquilo me deixou possesso... Não sei se ele sabia que eu podia ouvir, mas... - de repente ele para e fica fitando Genio Sin - Agora eu me lembro! Era você! Você que estava falando daquela forma indiferente! Eu me lembro! Só podia ser você!
         - Am... Você era o líder do projeto, certo?
     - Sim. - responde o cientista abandonado. - Eu queria que nos livrássemos dele, mas estávamos esperando aprovação da Casa Branca que não queria desperdiçar o experimento.
       - "Experimento..." - despreza Noberto - Uma pena que eu não tenha derrubado tudo em você quando saí de lá.
         - E como foi?
      - Aquele lugar claramente não tinha sido feito pra um dinossauro se movimentar, então procurei a parede mais próxima e derrubei. Quando saí, fui atrás da tal de Casa Branca tirar satisfações. Aí encontrei o presidente que veio pessoalmente falar comigo com um monte de outras pessoinhas e me falou pra vir pra cá.
       - Ok, espera um pouco agora. Antes de continuarmos têm uns detalhes importantes que não podemos deixar passar... - ele para enfiando a cabeça no bolo de papel higiênico gigante pra assoar o nariz - ...Me diga como você se sentiu depois que fugiu do laboratório do governo. Eu imagino que devia estar tudo diferente, como foi pra você?


         - O congelamento tinha atrapalhado em nada a minha memória. Tudo passou rápido quando eu fugi, mas foram muitas coisas que aconteceram. Eu lembro de me sentir perdido procurando a Casa Branca. Todos aqueles seres, tão pequenos, correndo e gritando desesperados... O único refúgio que eu tive foi o céu. Era a única coisa familiar. Quando olhei pro céu entendi que ainda estava no mesmo planeta. Apesar de parecer outro mundo...
         - O céu era exatamente o mesmo?
         - Sim, o céu era como eu me lembrava. Na situação que eu estava era difícil algo realmente entrar na minha cabeça mesmo que alguém me dissesse, então tive que ver. Mais alguma coisa?


         - Bem, o que você achou dos Estados Unidos?
         - Am... estranho, claramente não era um lugar pra mim.
         - Torcendo por algum time para o Super Bowl?
         - Não...
         - E além do interesse científico, você sabe o que o governo queria com você para tê-lo estudado em segredo? Por que não revelaram ao público que tinham um dinossauro congelado?
        - Hum... o Presidente da época (e saiba que é o mesmo de agora) só me disse que pra compensar o desconforto iriam me arranjar um exílio. Meio que eu não pedi para ser descongelado, e eles me atacarem seria... bem, em pouco tempo--
"Ding-dong"
         - É a campainha! - diz o cientista.
         - É mesmo? - ironiza o kaiju - Estou começando a entender porque te deram o nome de Genio. Eu vou atender. Não se importe de quebrar o pescoço desse baixinho acidentalmente, nomeocultado, você estaria me fazendo um favor. Ha-ha.


         - Lagartixa gigante... - Sin resmunga quando ele sai - Eu não tenho medo dele. Ei! Como você pretende ir embora?
        - Ainda não estou pensando nisso - diz fazendo anotações com bastante atenção. - Tenho que terminar de entrevista-lo.
         - Você está louco?! - diz Sin começando a sussurrar - Esse dinossauro é um psicopata! Ele vai nos devorar vivos quando cansar da gente! Você só pode estar de brincadeira, eu não tinha como sair daqui. Agora, com você, quem sabe eu tenha uma chance. Você não disse que veio em um trenó?
         - Sim, mas peguei carona com um velho maluco de longa barba branca e óculos de proteção. Quem sabe fosse o Papai Noel. Aí podemos esperar ele passar no Natal se formos bons meninos. - ele debocha. - De qualquer forma, ele disse que eu não ia sobreviver.


         - Ooooh! Como?! Como você é estúpido! Devia ter ficado com o trenó!
         - Eu já tinha te dito isso. Pensei que seu cérebro mais desenvolvido conseguisse gravar tudo quanto é informação.
         - A minha memória deleta informações inúteis, meu cérebro só se lembra de coisas importantes. - Sin responde automaticamente.
         - Tá. Qual era a sua ocupação exatamente na equipe que reanimou o Noberto?
         - Ah, você vai escrever sobre mim!? Eu era o líder da equipe, o chefe do projeto. Não se engane com o que ele diz, seu verdadeiro nome é D-42, é assim que foi batizado o projeto. Como você vai me colocar no seu texto? - ele pergunta com grande interesse.
         - Eu só vou saber quando estiver escrevendo, agora tenho que juntar a maior quantidade possível de informações. Esse seu grupo, é conhecido por algum nome específico? Faz parte de outra filiação?
         - Bem, o grupo não existe mais, já que estou aqui há mais de trinta anos. Os membros não eram fixos não, eram chamados pra cada projeto, já que era um grupo de pesquisa particularmente meu. Servíamos apenas ao governo, quase sempre segredos de último grau. Sabe que eu não deveria estar te dizendo isso?
         - É, você já falou. Seu nome é mesmo Genio Sin?
         - Sim, com "n". Mas é sério, eu não deveria estar te dizendo isso, essa casa é cheia de câmeras escondidas.


         - O quê? Por quê?
        - É o que eu estava explicando ao D-42 antes de você chegar aqui. Essa casa toda na verdade é um grande laboratório disfarçado. A ideia era ao invés de eliminá-lo, exilá-lo aqui, bem longe da população, onde ele acreditaria estar tendo uma vida normal enquanto continuamos estudando ele. Era muito perigoso mantê-lo nos Estados Unidos podendo sair e destruir tudo quando quisesse.
         - Isso por trinta anos?!
        - Então, justamente por isso eu não me importo tanto, já faz trinta anos. Eu não duvido que eles tenham desistido.
        - Mas se você foi mandado para estudá-lo, por que as câmeras? Você está desde quando aqui?
       - Ah, mas essas não são câmeras ordinárias, não. Eu mesmo que as criei. Chamo de "câmera de pesquisa". Por exemplo, se eu estivesse no meu laboratório agora observando a filmagem, eu teria acesso a todas as informações relacionadas ao seu estado físico: frequência cardíaca, temperatura, funcionamento dos órgãos. É mesmo muito legal e servia para estudar o dinossauro sem ele saber.
         - Nossa! Você é mesmo muito inteligente!
         - Você podia ter dito que eu sou um "gênio" aí eu teria dito "sim" logo depois...
         - O quê?
      - Nada. Bem, eu fiz várias graduações, estudei a minha vida inteira, menos esses últimos anos que fiquei aqui espionando o D-42. Agora já... Ele está voltando!


         nomeocultado observa um cara jovem, com pouco mais de vinte anos, usando vários casacos um por cima do outro e um boné azul, rosto cheio de espinhas, andando a frente do dinossauro. Ele observa tudo ao redor com extremo interesse, como se fosse uma criança entrando em um parque temático de diversões. 'Provavelmente a mesma forma que eu entrei' ele pensou. O garoto acena um "oi" quando vê os dois; nomeocultado levanta a mão para não parecer mal-educado, mas ao ver que Genio Sin o ignorou completamente não se importa com isso.
         - É ali do lado - diz Noberto para o rapaz que vira por uma porta, onde avança olhando para cima e para os lados maravilhado, quase ficando tonto.
     - Veio ver a internet - Noberto fala quando se aproxima dos dois novamente.
         A casa nunca havia estado tão cheia.