Ele Era Um Dinossauro - Parte V

Parte V
Canhões à direita!
Canhões à esquerda!
Tanto faz
         - Então, Genio Sin... - dizia Noberto malignamente enquanto mexia sua cauda - Estou curioso pra saber sua opinião. Depois da sua "brilhante" tentativa de me levar à extinção, o que acha que eu devia fazer com você?
         - Oh, por favor, tenha misericórdia - dizia o homenzinho enquanto tremia - É que eu sou muito sozinho.
         - Oh, não diga besteira - debochava o dinossauro - Você esteve aqui comigo por todos esses anos!
         - D-42... Me devorar vai levar a nada! Eu sou muito importante! Para o meu país, para toda a minha raça! Minha inteligência é acima da média! Aqueles imbecis precisam do meu intelecto para evoluir! Eles ficarão bravos se você me matar!
         - Parece que eles não ligam tanto, sabe? Te mandando pra cá e tudo mais. Agora... - Mas ele é interrompido por um som que nunca havia ouvido antes em sua casa.
"Ding-dong"
         - Am... é a porta... - balbucia o cientista.
         - Quieto! Ou eu arranco a sua língua. E pelo tamanho dos meus dedos isso pode dar bem errado. - Então Noberto pensou - Estranho... Jamais recebi visitas antes. Deve ser o cara que eu liguei pra vir arrumar a internet. Chamei ele mais cedo antes de começar a interrogar Genio Sin. Já é hora de alguém dar um jeito nessa porcaria...

         Para não ter problemas, o dinossauro tratou de amarrar bem o seu prisioneiro para que ele não escapasse. Então tranquilamente, planejando o que ia dizer pro técnico, ele avançou para o imenso portão da sua luxuosa mansão. Ao abrir a porta ele pode ver no chão um homem muito pequenininho tremendo de frio.
         - Com licença, senhor? - diz o homenzinho - O senhor é um dinossauro?
         - Não, sou o King Kong - responde Noberto batendo a porta na cara do visitante.

         O carinha fica lá tremendo tanto que quase se desequilibra e cai no chão. Começa a reclamar consigo mesmo "Oh, seu burro, burro, burro. Você finalmente vê o dinossauro e essa é a pergunta que faz? Brrrrr" ele tenta continuar resmungando, mas os seus dentes batem tanto que não consegue mais falar e pensa "Que vergonha. Que ideia ridícula. Eu sou um fracasso... Eu vou embora!". Mas quando o nosso amiguinho picolé vira pra trás, o caminho por onde veio simplesmente não está visível graças a exageradamente violenta nevasca. Um pensamento de "minha sinusite nunca vai passar" se perde rápido quando, em contraste à interminável neve e ventania, ele encara mais uma vez os grandes e chiques portões vermelhos do refúgio do dinossauro. Então por instinto de sobrevivência mesmo, ele toca a campainha de novo.
         - Que que é.............? - resmunga Noberto entre os dentes.
         - O se-se-senhor po-po-po-podia me-e de-e-ixar entrar?
         - Eu te conheço?
         - Mas senhor, eu tô morrendo - começa a chorar o coitado.
         - Ai tá, tudo bem, entra aí. - se entrega Noberto.
         A satisfação é imediata quando o sujeito entra na mansão e sente o contraste da temperatura no quentinho de casa fechada. Esfregando os braços e o peito pra se aquecer mais rápido ele vai observando desacreditado os móveis gigantes do local. Parecia um sonho, ele realmente estava na casa de um dinossauro. O dinossauro! O único que ele realmente tinha visto com os próprios olhos. E duas vezes! É tão perfeito que ele começa a temer a possibilidade de ter desmaiado na neve e estar tendo alucinação. Quase diz isso pro kaiju, mas se censura se lembrando da besteira que cometeu logo quando chegou. O dinossauro não dá a mínima atenção a ele, simplesmente avançando pela casa. O homem então vai o seguindo. Eles chegam em uma cozinha, com tudo enorme, como em todos os outros cômodos, e o dino começa a prestar atenção em algo acima da mesa que o homem não consegue ver. Então resolve que é melhor começar logo um inevitável diálogo.
         - Sabe, senhor - ele fala um pouco baixo - me desculpe pela pergunta estúpida que fiz quando cheguei.
         - Meu, cala a boca que você já começou errado. - responde Noberto - Eu tô ocupado aqui. Você não veio arrumar a internet? Pode ir lá, é aqui pelo lado.
         - Na verdade não... Senhor. Eu não vim pra arrumar a internet, eu vim pra falar com você.
         Noberto então se vira pra olhar pra ele. Não o encontra então olha pra baixo. Ele dobra os joelhos se abaixando e diz pausadamente
         - Você não é o cara da internet...?
         - Não... não, senhor.
         - E por que diabos você veio aqui pra falar comigo?
         - Eu... eu sou jornalista, senhor. Ou ao menos eu era. Como eu posso... chamá-lo?
         - Me chame de Noberto - fala o dinossauro voltando a sua atenção pro outro lado.
         - Então, senhor... Noberto... eu... Me desculpe. Eu não... Anos e anos como jornalista não te preparam para uma experiência como essa, eu acho. Bem, meu nome é nomeocultado e eu vim fazer uma matéria sobre você.
       - Por que? Eu não sou interessante, não é? Mesmo sendo um dinossauro eles não ligam pra mim.
       - Ah! Isso não deve ser verdade - o homem fica surpreso. - Eu acredito que você é interessante! Muito mais interessante que muita coisa que tem sido noticiada ultimamente. Para ser mais preciso... desde 1977.
         - Quando fui descongelado... - complementa Noberto.
     - Sua primeira aparição. - completa o pequeno homem - Eu venho querendo noticiar a sua existência desde daquela época, muitas pessoas nem sequer lembram que você existe. Mesmo quando você voltou.
       - Há algumas semanas atrás, não é? Eu não sei, já não tenho mais noção do tempo.
        - Sim, sim... - responde o jornalista, mas ele começa a ter vertigem.




        - Vocês humanos são estranhos. Está tudo bem com você?
     - Eu... eu... me desculpe, foi um longo caminho - ele responde colocando a mão na cabeça cansada - Tenho bronquite... estou com sinusite. Minha cabeça está muito cansada. Eu estou acabado, me desculpe. Será que... eu posso descansar, por favor?
     - É... claro... - diz o dinossauro estranhando a situação incomum. O homenzinho carregando uma mochila nas costas vai andando trêmulo, quase que se arrastando para um canto da cozinha e deita lá. Se encolhe e não faz um movimento. Noberto tenta não prestar atenção, mas aquilo o incomoda, então ele pega o jornalista em suas enormes mãos e o leva para a sala, onde o deixa no gigantesco sofá. Apesar de não acordar no caminho, ele demonstra um ar mais confortável.




        Em uma terra de vulcões e coqueiros o CD foi trocado! Agora se ouvia Megadeth e no céu haviam dezenas de pterodáctilos! Em sincronia eles balançavam suas cabeças e cabelos para os lados.
         - Fodão! Vejam só quem é o fodão!
         - Eu sou o fodão!
         - Tá se achando! Já é cuzão!
         - Não!!!
         - Tá todo se achando! Não fez nem metade!
         - Mas eu cheguei até aqui--
         - Acorda logo! Vai começar a história de verdade!
         


       Noberto então volta para a cozinha, onde se dirige a Genio Sin que continua preso em cima da mesa.

         - Veja se não é irônico. A formiguinha é um jornalista. Um repórter. Mesmo sem a minha internet estou tendo contato com o mundo exterior. Parece que você vai viver um pouco mais Genio Sin. - ele diz com um quase sorriso sádico. Não chegava a ser um sorriso. Mas era sádico.
         - Você não me engana com essa pose - diz o cientista maliciosamente. - Você levou o homenzinho para a sala, não é? Não me pareceu que você ia jogá-lo no lixo. Achou que eu não estava enxergando daqui? Meus olhos também são biônicos, D-42. Eu posso ver longas distâncias.
         - Então veja bem - diz Noberto o pegando com sua enorme mão e o colocando perto de seu rosto. 


     - Você não me conhece, não se engane. Não importa se esteve me observando por dezenas de anos. Eu tive uma longa vida, eras atrás. Tempos que Hollywood nunca conseguirá reproduzir pros seus olhinhos de mentira. Você não sabe do que eu sou capaz. Entendeu...? ENTENDEU?!
         - Entendi... - responde o cientista, trêmulo. Quando em uma mão verde do tamanho de um campo de futebol, encarando um gigantesco olho vermelho, que apesar de ter uma aparência velha não deixa de ser aterrorizador, você não tem muitas opções além de entregar os pontos. A grandiosidade visual de um ser desses em contraste a um homem passa uma superioridade que não precisa ser interpretada...