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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A BALADA DO BLACK TOM



<Texto da Tag “Escritor Convidado”, escrito por: Saitama>

Uma história que dá segmento ao universo de Lovecraft e que não releva o racismo contido do autor??
QUERO!!

Eu não sei se vocês já repararam no meu nick, mas é do H.P. Lovecraft. Quando vi na Amazon essa obra que buscava uma dita reflexão sobre o racismo, xenofobia e homofobia, no ato coloquei na minha lista. E livro lido, vocês sabem, é livro criticado aqui no Família Marvel. Então, sem mais delongas, bora pra essa resenha curta de uma obra curta.


EDIÇÃO FÍSICA


Escrito pelo desconhecido Victor Lavalle e publicado pela editora igualmente desconhecida Morro Branco em 2018, acompanha capa dura, páginas pólen soft para a história-título e pólen soft enegrecido para o segundo conto Horror em Red Hook de autoria de Lovecraft, que serve de complementação à obra.

Ponto positivo a revisão ortográfica perfeita do material. Visualmente falando, apesar de curta (192 páginas), é muito bonita.

CRÍTICA

Então, à sinopse:

"As pessoas se mudam para Nova York em busca de magia e nada vai convencê-las que ela não está lá.
Charles Thomas Tester luta para colocar comida na mesa e manter um teto sobre a cabeça de seu pai, aceitando fazer trambiques e trabalhos obscuros do Harlem a Red Hook. Ele sabe bem o tipo de magia que um terno pode proporcionar, a invisibilidade que um estojo de guitarra lhe oferece e a maldição escrita em sua pele, atraindo os olhares atentos de ricas pessoas brancas e seus policiais. Mas quando faz a entrega de um livro oculto a uma feiticeira reclusa no coração do Queens, Tom abre uma porta para um domínio mais profundo de magia – despertando a atenção de seres que deveriam permanecer adormecidos.
Uma tempestade que pode engolir o mundo está se formando no Brooklyn. Será que Black Tom irá viver para vê-la se dissipar?"

Ao abrir a página que antecipa o início da história, há a pequena dedicatória do autor: Para H.P. Lovecraft, com todos os meus sentimentos conflitantes. E sim, é algo impactante, afinal, Victor Lavalle é negro e Lovecraft tinha horror a negros, latinos, outras etnias que não tivessem pele branca e à homossexuais. A Balada do Black Tom é, à priori, uma revisitação e complementação ao conto Horror em Red Hook, feita por H.P. quase cem anos atrás.

Lovecraft é um escritor do tempo que ser preconceituoso era estritamente normal. Charles Thomas Tester, 20 anos, é o protagonista e negro, que vive no Harlem. Com seu violão e seu dom para negócios estranhos, ele sempre luta para ter grana, cuidar do pai e sonhar com uma vida melhor. Ele, apesar de viver de pequenos trambiques, é relativamente inocente, mas não burro. É um personagem padrão para o período histórico de 1924 do livro. Ele sabe seu lugar numa sociedade majoritariamente branca e como será tratado por eles. Assim como tem seus artifícios para escapar das possíveis humilhações que isso traz. Isso até conhecer Robert Suydam, o personagem do conto original, que pode mudar a vida de Thomas.

Bom, pra começo de conversa, não é uma história que propõe a crítica ao trabalho de H.P. Lovecraft, mas é um bom início para o debate sobre quanto os excluídos socialmente eram demonizados por ele. Lavalle consegue misturar de forma muito íntegra questões pessoais do protagonista e seus dramas com o horror cósmico. E ainda assim, à princípio, dentro do gênero que se dedica, consegue trazer mais um contexto histórico para as tensões entre brancos e negros. E isso é bom. Mesmo com alguns toques de mistério na primeira metade da história, serve pra situar o leitor e ajudar na imersão.

Já a segunda metade é mais visceral e bastante interessante, conseguindo trazer à tona a pergunta de um milhão de dólares que todo leitor de Lovecraft já se fez: "o que aconteceria se uma minoria se apossasse do conhecimento que os Deuses Antigos trouxeram para a Terra?". E a resposta é pesada e violenta. E ainda assim, interessantíssima. Excluídos recebendo o protagonismo. Um protagonismo nervoso, de dedo no gatilho, niilista e ressentido. Apesar de ser um pouco raso e sem tantos conflitos morais, tem uma boa proposta.



Thomas é um personagem que vai mudando de acordo com a história e isso aplica mais camadas a ele. Falar demais disso é entregar spoilers, mas de longe é uma ótima adição à mitologia do autor original. Afinal, o Horror Cósmico, mesmo em outros contos de Lovecraft, nunca foi exclusividade do branco, ainda que usada de forma pejorativa quando se fala do negro ou imigrante. E sinceramente, essa subversão em A Balada é muito bem-vinda. Não apenas respeita o cânone de Horror em Red Hook como desafia as "convenções" do HPverso. Ainda que em determinados momentos Lavalle não saiba pra onde vai na história, ele se corrige e continua. Dá pra ver que a escrita foi feita com tutano e se auto-desafiando a manter a lenda acesa enquanto tenta desenvolver novos caminhos.

O desfecho fica um pouco aquém e deixa mistérios no ar que pra uma obra que dentro da proposta de ser mais direta e menos rebuscada do que seu famoso antecessor, fica desnecessária. Ainda assim é uma narrativa bacana de ser lida, com capítulos fáceis e curtos sem serem necessariamente didáticas ou expositivas. Um livro feito para o leitor que tem interesse em entrar no universo de H.P. Lovecraft e para aqueles que gostam de inversões de expectativa.

E ao final da história, nas páginas negras, o conto original de Horror em Red Hook que serve até para comparação de estilo de escrita, de peso nas etnias e como um complementa o outro. É interessante como H.P. estimulava outros autores a prosseguirem suas histórias e isso continua sendo feito tantas décadas depois com tanto afinco entre as pessoas, inclusive aquelas das quais ele desprezava por puro preconceito. Ainda que ele se apartasse delas, é interessante ver como a mesma escrita desdenhosa uniu a todos.

NOTA: 8,0

Então é isso. Espero que tenham gostado.
Semana que vem tem mais.
Abraços,
𝓢𝓪𝓲𝓽𝓪𝓶𝓪 𝓭𝓮 𝓡'𝓵𝔂𝓮𝓱

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