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quinta-feira, 23 de maio de 2019

EU, ROBÔ (LIVRO)



Texto da tag “Escritor Convidado”, escrito por Saitama, publicado originalmente no em: https://disqus.com/home/discussion/channel-familiamarvel/resenha_eu_robo/]

Nunca li Isaac Asimov por diversos motivos. Originalmente histórias sobre robôs nunca me interessaram, e depois disso, livros de terror sempre me chamaram mais a atenção. Então, por mais que eu planejasse lê-lo algum dia, nunca tive pressa em fazê-lo.
Mas isso mudou até o dia que vi um vídeo do Gustavo Cunha falando do livro. Costumo ter insight's fortes quando vejo algum plot que me interessa e aprendi a ver de antemão quando um livro vai me conquistar ou se o autor vai precisar me conquistar pra isso. Foi assim com IT, Eu Sou a Lenda, Fahrenheit 451, HEX, entre outros e agora Eu, Robô.


SINOPSE



Susan Calvin está se aposentando depois de uma carreira brilhante como Psicóloga Roboticista para a maior empresa de robôs do mundo, a U.S. Robot. E enquanto se prepara para seu adeus, ela divide suas memórias sobre o início, meio e permanente dependência da sociedade com os robôs e seus avanços tecnológicos.

EDIÇÃO FÍSICA

Com 320 páginas, folhas pólen soft (as conhecidas páginas amarelas), capa cartonada e títulos em páginas pretas, a Editora Aleph (a mesma de Eu Sou a Lenda, já resenhada aqui no canal) fez mais um trabalho ímpar no tratamento físico e editorial.
Outro detalhe importante é a revisão ortográfica feita que não contém um único erro, deixando tudo ainda mais prazeroso e perfeito.
Meu único senão, e por favor, leve isso como uma chatice minha, é que senti falta de uma capa dura. Eu Sou a Lenda, com apenas 64 páginas a mais, teve esse tratamento. Não influencia no produto final nem o torna inferior, mas digamos que eu esperei algo do mesmo tom para Eu, Robô.
CRÍTICA



Sendo direto, o livro dispõe nove contos em forma de memórias da personagem. São eles:

🤖Robbie
🤖Andando em Círculos
🤖Razão
🤖É Preciso Pegar o Coelho
🤖Mentiroso!
🤖Um Robozinho Sumido
🤖Evasão!
🤖Evidência
🤖O Conflito Evitável

Importante frisar que o livro todo é baseado nas Três Leis da Robótica e suas implicações. As leis são:



1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja ferido.


2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.


3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis


Alguns dizem que contos são histórias que pouco se aproveita quando se trata de desenvolvimento de personagens e óbvio que eu não poderia discordar mais, ao mesmo tempo que concordo. Uma boa história é uma boa história e ela não depende de detalhes, às vezes.
Mas é gratificante ver como Asimov consegue trabalhar personagens enquanto coloca conceitos de ficção científica. Mas não se iluda achando que é apenas um ótimo livro sobre um futuro não tão distante, mas sim com as implicações filosóficas, morais e tecnológicas que a inserção de robôs podem causar na sociedade. Começando desde simples ajudantes e coadjuvantes na vida humana, até os seres que ditam o futuro do planeta e como as pessoas devem agir diante das situações.
E a palavra do dia é: Organicidade.
Pode parecer irônico falar de orgânico sobre contos robóticos, mas é justamente isso. Além de Isaac Asimov brincar com tudo o que já citei, ele consegue imprimir nos personagens humanos, de maneira muito sutil, tudo o que precisa para que eles marquem os contos de suas próprias maneiras. Susan Calvin, por exemplo, é sagaz, pensamento rápido ao mesmo tempo que consegue ser introspectiva e algumas vezes beirando ao egocentrismo. E tudo isso é dito nas entrelinhas. Não por menos ela faz uma ou duas vezes a jogada de "ou faz o que eu digo, ou me demito.", porque ela sabe o valor que tem dentro da U.S. Robot

Susan é apaixonada pelos robôs. Dito até que ela os prefere mais do que a humanos. Susan os considera honestos, sinceros e muito mais prestativos do que a humanidade. Ela reconhece neles a importância que têm para o mundo e como não seríamos nada sem os mesmos.
E como os contos são pelo ponto de vista dela, é possível ver cada um sendo colocado como uma ode à criação humana. Não há vilania robótica, mas carinho e aprofundamento gradativo sobre como eles interagem e aprendem mais sobre si mesmo e a humanidade aos poucos. Eles começam na mais pura subserviência e inocência e terminam ditando os rumos do mundo. Tudo isso aplicado às Três Leis e o eterno medo humano que as leis sejam sobrepujadas em algum momento. Apesar de haver um único conto que Susan esteja disposta em tomar medidas drásticas contra um robô que aparentemente quebra a primeira Lei e a terceira, é compreensível, já que para ela, eles são quem são por causa dos limites impostos pelo homem, ainda criem personalidade de acordo com o tempo que passa.
Em contos como Robbie, por exemplo, conta-se sobre a relação entre um robô-babá e Gloria, sua protegida. Apesar de ser o primeiro, há preconceito dos vizinhos e da própria mãe da menina que vê em Gloria uma criança cada vez mais apegada a algo que não está vivo. Já em Razão, um robô recém montado não consegue entender como seres limitados como humanos podem construir máquinas tão complexas e busca uma saída metafórica/religiosa para se auto-explicar. O que começa de maneira engraçada pelos protagonistas Powell e Donovan, termina de maneira tensa, com eles proibidos de acessarem certas áreas das instalações que se encontram porque o robô decidiu que lá seria uma área espiritual dele e dos demais seres de cérebro positrônico. Tudo sem ferir as regras das quais são submetidos mas sempre com a ameaça de que isso se torne realidade.

"Vou destruir a raça humana" Isso se Cthulhu não acordar antes, parca

E ainda assim o livro consegue ser ágil. Com contos que variam entre 25 e 35/40 páginas, a ação não se perde, nem mesmo com temas mais complexos como os contidos em Mentiroso! onde um robô resolve fugir das instalações espaciais, Evasão que trata de disputas industriais para a construção e utilização do Propulsor Hiperatômico (que deu um salto gigantesco para a colonização espacial), Evidências lidando com a possibilidade de um robô disfarçado de humano concorrer a cargos públicos e O Conflito Evitável, onde os robôs já dominavam todo o aspecto de vida humana e seu destino, escondendo situações para evitar ferimentos emocionais em seus "mestres" humanos (um precursor da Lei Zero, criada posteriormente por Isaac Asimov, que dizia que "um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.").
Temas complexos não eram novidade no período de 30/40/50 na literatura, ainda que ficção fosse considerada uma literatura menor, mas é de se admirar que um escritor desse mesmo tipo de literatura tenha sido o responsável não apenas por conseguir tornar o complexo em algo didático, mas também como criou termos usados até hoje como robótica e pavimentou a estrada da qual a longa discussão sobre ética e leis que impeçam os robôs de causarem o apocalipse na Terra. Afinal, não existe programa inviolável. E o próprio Stephen Hawking já nos alertava da seguinte maneira:
"Se agora, as pessoas desenvolvem vírus de computadores, então no futuro alguém poderá criar uma inteligência artificial, que, por sua vez, poderá se aperfeiçoar e multiplicar. Tal inteligência se tornará uma nova forma de vida, que superará o homem.
Já passamos do ponto sem volta. A Terra está ficando pequena demais para nós, a população cresce a ritmos alarmantes, e corremos o risco de nos destruir."

 Ou seja, sem ética e travas que possam ser controladas por humanos, robôs podem causar extinção. Se nós, corruptíveis e passíveis de sentimentos ruins precisamos de limites, por que seres artificiais não? E se avaliarmos bem, não é nem um pouco especulativo, sob a luz do que Hawking disse, que um dia algum robô que deva proteger perceba que a causa de seus problemas são os humanos. Por isso a ética é tão citada quando o assunto é futuro robótico. Podemos pensar que o conceito de poder neste caso é isolado, mas se torna relativo. Um robô que deva cuidar de uma criança, se em algum momento entrar em colapso, perceberia que ela pararia de chorar se a mesma caísse do berço. Ou se ele cuidar de um idoso com Alzheimer, perceberia que deixar de ajudá-lo a longo prazo renderia mais tempo otimizado para outras tarefas. O Facebook algum tempo atrás não precisou desativar sua inteligência artificial por criar linguagem própria e não dividir isso com seus criadores? A Microsoft não precisou fazer o mesmo com a I.A. que deixou no Twitter quando a mesma se tornou racista, xenófoba e ofensiva depois de interação com usuários? Ninguém quer um Ultron por aí, percebendo que o problema somos nós. E temos medo disso porque no fundo sabemos que ele teria toda a razão de chegar a essa conclusão.


"Já falei que isso vai dar merda..."
E por fim, o livro termina com um texto do próprio Isaac Asimov, contando como os contos chegaram a patamar de livro e porque ele começou a escrever sobre o tema, assim como os livros subsequentes que ele fez do gênero como Fundação e As Cavernas de Aço.
Asimov começou arranhando essas questões de Eu, Robô, com a criação de cérebros positrônicos e toda uma sociedade que não desejava se adequar a isso e que aos poucos, por interesses corporativos, agregou novos valores à própria vida, partindo de conceitos robóticos.
Isto posto, Eu, Robô é mais do que um livro de ficção, é um sonoro aviso que a I.A. irá surgir de uma forma ainda mais sentida em algum momento e ela precisará de nós para ter um sentido, mas esse crescimento natural da robótica pode nos levar a um caminho ainda mais dependente do que atualmente e quem sabe, o nosso fim.
NOTA: 10
Então é isso. Espero que tenham gostado. A resenha ficou mais longa do que eu imaginava e mais complexa porque os temas são sensíveis, mas acho que ficou tudo claro (estou reaprendendo a fazer críticas).
Abraços,
𝓢𝓪𝓲𝓽𝓪𝓶𝓪 𝓭𝓮 𝓡'𝓵𝔂𝓮𝓱
OBS: Antes que alguém cite comparações do FILME Eu, Robô, uma rápida explicação: A adaptação com Will Smith, apesar do nome homônimo do livro de Asimov, é uma adaptação de As Cavernas de Aço do autor, que coloca apenas as questões éticas e filosóficas das Três Leis iniciada no livro aqui resenhado. Então, é muito mais uma trama adaptando As Cavernas de Aço do que propriamente dito Eu, Robô. O que naturalmente, explica a falta de imagens sobre o mesmo.

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