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terça-feira, 16 de abril de 2019

LOVECRAFT - MEDO CLÁSSICO VOL.1



[Texto da tag “Escritor Convidado”, escrito SAITAMA (@SaitamaDeRlyehOficial)
 (aparentemente, nosso artilheiro desse mês nas postagens)., publicado originalmente em:
https://disqus.com/home/discussion/channel-familiamarvel/resenha_lovecraft_medo_classico_vol1/]


Depois de 15 dias lendo este livro, finalmente hoje consegui terminá-lo. Hoje vou contar pra vocês como foi a experiência de reler Lovecraft depois de alguns anos.


🔵 O LIVRO FÍSICO



Já falei em outros comentários como a Darkside tem feito acabamentos caprichados, mas desta vez a capa emborrachada do livro ficou realmente muito bonito. Fita de cetim como marca página e a ilustração que beira ao 3D, dependendo do ângulo que você olha.
As páginas são em Pólen Soft Bold, ou as páginas amarelas. Elas refletem menos luz e ajudam a cansar menos a vista. O que neste livro, é de suma importância.
Uma outra coisa a dizer é que pela segunda vez em tantos livros da Darkside que eu li, é possível ver uma revisão ortográfica impecável (o primeiro foi HEX) e com notas explicativas. Já vi ótimos livros da editora com mais de três erros de português, o que me incomoda. Foi uma agradável surpresa ver que aqui a coisa andou finalmente.

🔵 CRÍTICA


Neste 1º Volume temos os seguintes contos:

🔴DAGON
🔴A CIDADE SEM NOME
🔴 HERBERT WEST: REANIMATOR
🔴O DEPOIMENTO DE RANDOLPH CARTER
🔴O CÃO DE CAÇA
🔴O CHAMADO DE CTHULHU
🔴NAS MONTANHAS DA LOUCURA
🔴A SOMBRA VINDA DO TEMPO
🔴A HISTÓRIA DO NECRONOMICON

Falando propriamente do conteúdo, é importante sempre frisar como H.P. Lovecraft nunca é uma leitura simples. Seus contos são das décadas de 20/30, com uma linguagem rebuscada e um terror cósmico pouco compreensível a quem não está habituado. Também não é segredo pra ninguém que H.P. tinha preconceito com negros, índios e qualquer um que não tivesse a pele clara como um bom caucasiano. Raríssimas citações sobre mulheres e se as têm, são curtas, quase como nota de rodapé. É plenamente discutível os motivos disso acontecer, pois o machismo e racismo é evidente, além de que muito da vida do Lovecraft o fez descontar seus medos, fúrias e dúvidas nas pessoas erradas.
Dá pra dividir o livro em duas áreas:



Um é dos contos simples, onde se pretende contar uma história curta, sem muitas descrições, apenas a narrativa importa e é assim que ela se desenvolve até o fim. Assim a leitura flui de maneira muito tranquila. Isso é sentido tanto em Dagon com um homem tentando sobreviver em uma ilha onde algo está terrivelmente errado, A Cidade Sem Nome onde um explorador encontra um lugar ancestral, O Depoimento de Randoph Carter com um homem que ajuda um amigo a descer por um túmulo e O Cão de Caça, onde dois colegas aristocratas vivem perigosamente saqueando túmulos.
Destes eu destaco O Depoimento de Randolph Carter, com um final de arrepiar os cabelos da nuca e O Cão de Caça, que apesar do final previsível, mexe com os brios por lidar com maldições, algo não muito recorrente na obra do autor.


E a outra área é a das histórias conceituais, em que Lovecraft busca introduzir conceitos, com mais descrições e linguagem complexa, muitas vezes para incautos. Nestes se encaixam Herbet West: Reanimator, onde um assistente combalido conta a história de seu amigo e as diversas tentativas deles em trazerem mortos de volta a vida, O Chamado de Cthulhu que conta a história de um homem que busca a verdade sobre escritos de um parente morto e acaba se deparando com a existência do próprio Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, onde um grupo de cientistas some na Antártida e A Sombra Vinda do Tempo, com um velho senhor que troca de corpo com uma raça antiga em seus sonhos.
Destes eu destaco Reanimator, mesmo sabendo que não é um conto extremamente popular. A temática além de diferente dentro da dinâmica Locraftiniana, tem um final denso, pesado e desolador. Fora toda a discussão sobre os limites da ciência e a ética (ou falta) em torno de buscar os objetivos. De longe o conto que mais me prendeu.

O problema do livro reside nos contos Nas Montanhas da Loucura e A Sombra Vinda do Tempo. Só o Nas Montanhas, são mais de 130 páginas e A Sombra, mais de 60. A narrativa é truncada, insanamente descritiva, pesada, repetitiva, intensa, pouco desenvolvida e muito, mas muito perturbadora. Estes dois contos são uma quebra na fluidez do livro. O que não os tornam ruins, apenas estão no lugar errado. Era plenamente possível um livro mais curto apenas com estes dois contos e O Chamado de Cthulhu (que carrega as mesmas características, mas de forma mais amena) e colocar neste volume atual os mais curtos pra não ter uma quebra muito brusca no embalo da leitura.

A verdade é que você acostuma com o estilo da escrita se ela persiste. Após cinco contos de dinamismo, estes três realmente cansam. Poucas vezes achei que a Darkside errou nas escolhas do material e acho que nesta, houve sim uma escorregada.

Nas Montanhas da Loucura quase me levou a uma ressaca narrativa. Ele é realmente difícil de ler. Não lembrava do quanto ele exige, seja em termos técnicos, repetições de situações em formas de flashback e descrições tão detalhadas que levam páginas. Tudo isso é compensado em tensão, horror gore e ciência. É tão vívido que dá a impressão que H.P. Lovecraft sabia de algo que só podia nos indicar saber. Chega a dar medo em diversos momentos.

A Sombra Vinda do Tempo foi mais difícil de ler porque veio logo após Nas Montanhas e eu realmente estava cansado. Acabou sendo o mais fraco porque ele reaproveita alguns pequenos conceitos do conto anterior, ainda que seja apavorante lidar com seres que trocam de corpo com você de forma proposital durante seus sonhos. Foi o mais fraco pra mim e admito que passaria reto por este conto, se soubesse.

Ao final, temos duas páginas de A História de Necronomicon, que serve mais de texto explicativo do que história e após, uma pequena análise das influências de Lovecraft no mundo nerd/pop, as correlações e referências entre o escritor e Edgar Alan Poe, um pouco da vida de H.P. em Providence (local onde ele nasceu, viveu parte de sua vida e voltou para viver seus períodos finais) e anotações sobre ideias de contos, que é o ponto mais baixo do livro. São páginas e páginas de garrancho, em inglês, em letra extremamente corrida e que são quase nada compreensíveis. Tentei ler, mas mal conseguia entender o formato de várias letras.

Ao fim do livro fica a sensação de noção histórica cumprida pela Darkside, ao mesmo tempo que poderia ser melhor executada pelas escolhas dos contos e suas disposições na obra. Vale a pena? Vale. Mas se você tem uma leitura dinâmica, pode ser que te exija bem mais do que o habitual. Ao menos é possível terminar o livro e abrir a discussão os defeitos morais de Lovecraft e como ele, mesmo condenável, mudou a forma de se fazer terror nos mais diversos sub-gêneros do terror.

NOTA: 7,0

Então é isso. Espero que tenham gostado da resenha. Voltarei logo com um livro que estou muito ansioso para ler.
Abraços.
𝓢𝓪𝓲𝓽𝓪𝓶𝓪 𝓭𝓮 𝓡'𝓛𝓮𝔂𝓱