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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Crítico Responde #01 – o termo "crítica" e a crítica de quadrinhos

Lembram-se das sessões de cartas que tiravam dúvidas dos leitores e que duraram até início dos anos 2000 nos mixes de super-heróis? “O Crítico Responde”, uma sessão do Ozymandias Realista, será uma tentativa de resgatar o clima de tira-dúvidas dos antigos Correio do Leitor através do diálogo com internautas, agora, voltado para o campo da crítica quadrinística.
                                         
Wagner Ávlis
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A experiência de quase 7 anos com a rede social do Google, o g+, foi fecunda e foi nela que o nome “crítica de quadrinhos” começou a aparecer mais na minha timeline. Reaproveitei alguns posts de seguidores que dialogaram sobre o assunto em questão. O resultado é o começo desta série que se dedica à tão nebulosa, exótica e má compreendida crítica de quadrinhos. Quem quiser figurar por aqui, deixe também suas dúvidas (no blog ou nas minhas redes sociais) e elas serão respondidas nas próximas edições.

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☛ Origem do termo e a finalidade da crítica de quadrinhos

Gregolly Coutinho – administrador do blog Gnomo Séries (Fortaleza-CE). Via Hangouts.
Análise é a palavra-chave que resume o sentido de crítica. "Crítica" vem do indo-europeu krei, que significa separar, peneirar, discriminar, distinguir. Krei, por sua vez, deu origem ao grego κρίνειν (krinein), separar, decidir, julgar; e quem julga é o κριτικός (kritikos), pessoa capacitada para fazer julgamentos, e seu julgamento é a kritikē, crítica. Relevante saber que tanto o som (a fonética) quanto o sentido (semântica) de krei encontra equivalente no latim cerno, separar. Se adicionamos o prefixo di + cerno teremos discernir. Mas vejam só: todos esses verbos "separar", "peneirar", "discriminar", "distinguir", "decidir", "julgar", "discernir" conotam um sinônimo para análise, porque, no plano etimológico da língua, análise vem do grego ανάλυσις, análysis, que vem de analýein, aná (para cima) + lýein (soltar, afrouxar, decompor). Análise significa, em literal, "jogar para o alto, desfazendo" (isso porque, em sua origem, a palavra esteve associada ao tratamento do trigo: triturado e jogado para o alto, é possível separar grãos da palha); no plano semântico da língua, análise significa dissolução ou método de resolução (que se opõe à síntese). Notemos que a ênfase aqui é o método (para se chegar à dissolução ou à decomposição). O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa diz que, quanto a esse sentido de método, "Pappus de Alexandria, em 390 d.C, no seu Opus Magnus, estabelece o conceito matemático da palavra analytikós: os elementos desconhecidos de uma teoria, são construídos com base nos elementos conhecidos; e o todo é constituído de partes que se organizam em uma totalidade coerente e lógica. René Descarte, em 1637, no seu Discurso do Método, mostra que a ação (analytique) de resolver um problema é procurar o método que permite decompor seu todo nas partes que o constitui" (CUNHA, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, p.43s). Análise significa, em sentido usual, o método de decompor as partes. 

Temos então que, em linhas gerais, crítica é uma análise (por método) de um objeto. É desse entendimento etimológico de "crítica" que se deriva a palavra "critério".
A crítica é uma análise, e criticar é analisar por meio de um método. Na imagem, o linguista italiano Umberto Eco (1932-2016), o primeiro estudioso a realizar uma crítica analítica às HQs do Superman em sua obra "Apocalípticos e Integrados" (1964). 
Ainda no campo da linguística, tenho de dizer que há uma íntima aproximação entre as palavras "crítica" e "técnica". Técnica vem do grego τέχνη, téchnē, arte, técnica ou ofício, que se aproxima de kritikē, crítica. Ambos os termos comportam em si a ideia de método como técnica ou da técnica como método. Não à toa a Filosofia, no campo da estética, se utiliza do termo "crítica" como arte de avaliar ou julgar segundo os princípios da verdade, do bem e do belo (LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. Verbete "crítica". São Paulo: Martins Fontes, 1999). A dra. em filosofia Inês Lacerda Araújo, da PUC-PR, considera crítica como a capacidade de avaliação, de julgamento, ligada à noção de critérios de conceitos que permitam olhar a realidade não pelo véu da ideologia, e sim pelo estudo, pela investigação que o modo reflexivo de pensar enseja (cf. "O Conceito de Crítica em Filosofia". Filosofiatododia). A antiga e forte tradição da Filosofia sobre crítica não a separa do conceito de técnica, portanto, pois a análise (a crítica) tem de ser feita – e só se autentica – se for por meio de princípios, de critérios, de conceitos, de estudo (a técnica).
Segundo o dicionário lusitano de literatura, a tarefa de um crítico de arte se assemelha a de um filósofo. Antes de tudo, questiona antes de responder, busca-se demonstrar, por A+B, a verdade da obra e não a "verdade" do leitor. Cf. E-Dicionário de Termo Literários. Verbete "crítico literário".
Daqui já é possível levantar dois questionamentos: 1) no Brasil, quantos autodenominados "críticos" são, de fato, críticos de arte? Somente pelos conceitos filológicos das palavras se pode ver que o uso do termo "crítica" em nosso país vai muito além de confuso, toca o equívoco, como consequência, despenca no desserviço; 2) quem são os críticos de verdade? Serão seres iluminados e sábios, que têm diploma de crítica, detentores da verdade, cujo julgamento é o que dá a última palavra sobre arte? Veremos (em outras edições) que não, pois a crítica é praticada muito antes do surgimento das universidades ou qualquer disciplina ligada à educação artística, além do fato de que qualquer que seja a avaliação crítica pode ser refutada por outra quando bem mais fundamentada. O que é, será e sempre foi indispensável é estudar e dominar os conceitos ligados ao objeto que se quer criticar, e isso uma pessoa interessada pode fazer e ser.
Edgard Guimarães em "A Crítica de Arte e a Crítica das Histórias em Quadrinhos", p.11. 
A finalidade da crítica de quadrinhos é analisar a estrutura e o procedimento das técnicas de composição de uma história em quadrinho, contemplando suas dimensões textual (o roteiro e o letreiramento), visual (o desenho e a colorização) e sequencial (a interação entre o textual e o visual), para daí teorizar a respeito da própria arte sequencial ou dialogar seus efeitos de sentido com a sociedade, com o mundo. Ora, se a crítica quadrinística é uma examinação (análise) dos métodos empregados (técnica) pelos artistas na obra, debruçando-se sobre isso para decompor suas partes a fim de revelar o valor artístico da obra, então não se trata de uma abordagem sentimental ou das impressões que o sujeito leitor tem sobre a HQ, seus personagens, seus artistas. A crítica quadrinística não é o juízo valorativo (juízo de valor) do "gostei/não gostei", "recomendo/não recomendo" acerca do que foi lido. Importa apenas a criatividade (ou sua ausência), os recursos empregados que a enfatizam e o que comunicam ao mundo; são esses elementos que demonstrarão o valor do objeto, que falam por si mesmos, e não o leitor que o valora por mero gosto pessoal. 
O positivo e o negativo em uma HQ não deve estar atrelado ao grau de fanboísmo ou ao gosto pessoal do leitor, mas aos próprios méritos composicionais da obra que a crítica tem por missão demonstrar.
A obra não é boa porque simplesmente o leitor gostou, ou é ruim porque se desagradou, pois a obra transcende o leitor e o seu tempo. O que demonstra a qualidade da obra é a análise de sua estrutura de composição: a obra será ruim se a composição for mal feita; será boa se criativamente bem empregada. Só que, para tanto, é obrigatório conhecer mais do que o objeto lido; antes de conhecer o objeto é indispensável conhecer a teoria, o escopo sobre como fazer uma crítica, que não se obtém por intuição, inspiração, mas somente pelo estudo específico sobre o procedimento técnico da coisa. Muito diferente dos reviews e dos react-players nos canais do Youtube ou nos blogs, em crítica profissional interessa ao público não o que eu acho, e sim o que a obra diz, além do como ela diz. O crítico não é crítico porque analisa somente o que gosta; se é crítico é porque há de analisar qualquer obra, até as de que não gosta, se assim ele quiser se dispor.

Vejamos agora, sem detalhes técnicos, como é o comportamento da verdadeira crítica diante dum quadrinho.
Quino. Toda Mafalda, da Primeira à Última Tira. ed. Martins Fontes, 2ª edição, 2010, p.91.
A leitura comum ou o simples comentarista dirá que as quadrículas acima são "legais", "inteligentes", que "amou", e relatar o porquê através de sua experiência de leitura. Isso não é crítica de quadrinhos, é o que ela mesma indica: uma experiência individual de leitura. Já alguém ligado à Comunicação Social, à História, Sociologia, Filosofia fará adendos de sua área do saber, possivelmente perscrutando contextos de época, posicionamento ideológico do cartunista, intenções autorais, tipo de linguagem e público. Mas tudo isso – que poderá sim mostrar-se uma bem sucedida crítica – pode não ser uma crítica quadrinística, e sim uma crítica de Comunicação, de História, de Sociologia, de Filosofia, que, para acontecer, usa o quadrinho como pretexto, como um meio para falar sobre a área do seu conhecimento. Porém, a crítica das histórias em quadrinhos tem como centro e objeto o quadrinho em si e não sua periferia contextual. Aqui se inverte: Comunicação Social, História, Sociologia, Filosofia, etc., poderão ou não ser tomadas de empréstimo como pretexto, como um meio para falar sobre aquele quadrinho em particular. 

O giroscópio de sentidos na tira da Mafalda
O que será que tem a ver os movimentos dum giroscópio com a tirinha apresentada da Mafalda? E se a crítica lhe dissesse que é o movimento da história e das lutas de classe simbolizado na estrutura de composição da tirinha?
A crítica de quadrinhos poderá começar destacando a dimensão visual do cartum, já que, via de regra, o aspecto visual é a primeira coisa percebida pelo leitor; é a imagem que leva ao roteiro, e não o contrário. No cartum há 4 quadrículas em sequência linear, tipo de quadrícula que se caracteriza pela homogeneidade nas dimensões (altura, largura, volume ou profundidade) e pelo mesmo enquadramento de ângulo, o que denota passagem contínua do tempo (ficcional), sequência direta e ininterrupta das cenas, regularidade do ritmo de leitura e, a depender, monotonia. Entre a primeira fala da Mafalda e a última da Liberdade, o tempo transcorrido deve ser lido e entendido como curto e sem intervalos (exceto na 3ª quadrícula, que é ágrafa – sem palavras – por força do silenciamento da cena), razão por que as duas personagens e o cenário quase não sofrem alterações posicionais. Partindo para o roteiro e a balonagem, vê-se o recurso da ironia expresso no esquema lógico entre GRANDE x pequeno: a menina Mafalda é GRANDE, a menina Liberdade é pequena. O ambiente da praia é GRANDE, o espaço dos quadros é pequeno. O conceito e o discurso do direito civil da liberdade são, conhecidamente, GRANDES, porém, a personagem que a representa é pequena. E o roteiro faz pensar – através da Mafalda – que constatar a personagem de nome Liberdade ser pequena leva a constatar também que, na prática, no mundo real, o direito à liberdade também o é, por isso a fala da 4ª quadrícula. A balonagem mostra que, de início, a fala de Mafalda é GRANDE, enquanto a da menina Liberdade é pequena; depois, o esquema é trocado e modificado: a fala de Mafalda não existe, enquanto a da Liberdade é GRANDE. E nessa oscilação giroscópica, que simula a dinâmica da dialética da História, entre GRANDE x pequeno, as quadrículas comunicam que indivíduos e sua liberdade podem assumir posições diferentes do que imaginam ocupar, e que, mesmo a liberdade civil mostrando-se tão pequena e frágil, é, no fundo, maior do que supõe o mesmo indivíduo que a tem ou a busca.

☛ Não perca a próxima edição (com outras perguntas!).

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WAGNER WILLIAMS ÁVLIS – crítico literário da Academia Maceioense de Letras (reg. O.N.E. ​nº 243), crítico de quadrinhos, articulista e professor de língua portuguesa.

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