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sábado, 5 de janeiro de 2019

RESENHA: LOLITA (temos que conversar sobre esse livro)



“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes.
Lo. Li. Ta."
Lendo isso, parece que Lolita, de Vladimir Nabokov, é um livro sexualizado. Não é.

É justo analisar a obra como uma ficção. Sendo desta maneira, é possível destrinchá-la de forma mais crua, sem o sentimentalismo que vejo por aí pelo fato de ser sobre pedofilia. Vejam bem, eu não vou diminuir o fato de que o tema é polêmico. Mas há sim algo desnecessariamente estridente em torno da história porque existem outros pontos realmente importantes que precisam ser deliberados.
A história se passa no final da década de 40, com um homem de meia-idade, Humbert, acompanhando sua paixão por "ninfetas" e em especial, Dolores Haze, apelidada de Lolita, de 12 anos. Quanto história, é escrita em forma de diário. Não é exatamente algo fácil de se acompanhar em alguns momentos. Existem várias frases que o protagonista, por ser francês, escreve na sua língua original. O problema é que não há tradução no livro e o leitor fica a ver navios, ou vai pro Google Tradutor. Particularmente, preferir ficar a ver navios porque eram INÚMERAS frases assim.
   Nesse diário, Humbert Humbert conta como se apaixonou a primeira vez, aos 13 anos, por Anabelle, da mesma idade, como perdeu esse amor para uma doença - Tifo - , e de que maneira isso o marcou a ponto de, já crescido, compensar a perda através de meninas da mesma idade de sua prometida. Basicamente, o Nabokov tratou a situação de Humbert como um trauma...

A leitura é intrincada e não é didática. E isso faz parte da obra original. Vladimir Nabokov, até onde pesquisei, tinha uma forma rebuscada na escrita. E não acho isso cansativo, quando a narrativa ajuda. Existem escritas muita ágeis feitas dessa forma. Robert E. Howard, Cormac McCarthy (que é mais recente, mas bebe dos escritores do início do Séc.20). O problema de Lolita vem justamente da maneira que o autor escolhe em contar a história. A erudites de Humbert é explicitada de forma monótona e aos poucos o que é um drama sobre um homem e seus demônios, acaba se tornando um drama que precisa ser lido nas entrelinhas a cada linha.


   Quanto ao "homem entregue aos seus demônios", o livro é impecável. O protagonista é, sem sombra de dúvidas, o vilão. Ele não é o tipo desumano, mas o tipo que retira de si as amarras morais. Não existe arrependimentos em Humbert Humbert, ainda que seja possível ver alguns toque de O Médico e o Monstro, porque ele se retrata, inúmeras vezes, como um homem separado de si. Um terceiro e imoral homem que é digno de todos os julgamentos, enquanto o narrador (ele mesmo), é apenas um homem sem saída a não ser viver sua forma de amar mulheres. E aliás, isso é interessante. Mulheres mais velhas (a partir de 18 anos no livro), para ele são dignas de desprezo. Ele não apenas as deixa de lado, como também as diminui. Sua primeira esposa é constantemente diminuída por ele, Charlotte Haze, mãe de Lolita, é adjetivada o tempo todo de gorda ou roliça. Mulher com quem ele casa apenas para ficar perto de sua tara. Lolita não é uma menina sexualizada, nesse ponto o livro consegue ser bem-sucedido ao mostrar que a sensualidade parte muito mais da visão deturpada do protagonista do que um afloramento de Dolores.


   Visão possível de ser notada quando Humbert elogia meninas entre 10 e 14 anos. Não apenas detalha como as enxerga (sim, constrange), como ainda busca convencer o leitor de que normal é amar uma criança, citando lugares no mundo onde isso acontece com naturalidade. As primeiras 60 páginas são um teste de moralidade ao leitor, sem exagero algum. Não apenas o protagonista é doente, como ele tenta mostrar em seu diário que a sua sanidade está acima das outras. Há tanto "injustiça", quanto uma tentativa de auto-inocência na escrita, é doentio ver como ele trata com naturalidade trechos onde, inclusive, considera o incesto como forma de perpetuar seus desejos por Lolita, pensando em engravidá-la para que viesse uma nova menina, ter relações com ela quando chegasse aos 12 anos e depois se relacionar com a filha-neta.
Alguns outros trechos, como por exemplo:
"A disposição da lei romana segundo a qual as meninas podiam se casar aos doze anos foi adotada pela Igreja e ainda se mantém em vigor..."

"Na Sicília, as relações sexuais entre pai e filha são aceitas como algo natural, e a menina que delas participa não é encarada com desaprovação pela sociedade que pertence."
 "Noutros momentos eu me dizia que era tudo uma questão de atitude, que na verdade não havia nada de errado em ser afetado à loucura por garotinhas."
   Mas não somente de pedofilia o livro se baseia. Existem algumas discussões sobre abuso sexual (Humbert faz sexo oral em Lolita enquanto ela arde em febre quando ela está à beira de seus quinze anos), cárcere privado (ele a proíbe de tudo e o que permite acaba sendo por medo de ser pego por alguma autoridade), violência doméstica (ele a agride diversas vezes em brigas) e um tanto de misoginia, ao maltratar as mulheres ao seu redor justamente por não serem "ninfetas", além de planejar a morte de ao menos uma.
Como falei mais acima, Humbert abraçou o mal em si, ainda que ele se limite. Mais ao final é possível ver - e sentir - a tristeza do personagem com a infância roubada de Lolita. Ele se ressente, se magoa consigo mesmo e procura no assassinato de outro pedófilo (muito mais por ciúmes) uma maneira de espiar o erro.
  Ao seu final, a história prova que Lolita era a vítima, manipulada e forçada a se adequar ao personagem principal, vivendo por anos sob o jugo de um homem que colocou seus desejos acima de vidas. E ela consegue seguir seu caminho. Perdendo seu brilho, envelhecida mais do que a idade que possui ao final do livro, se tornando mulher e colocando no marido a esperança de ser um pouco mais feliz. E mesmo no encontro final, com Humbert percebendo que a amava mesmo nessas condições, ela o nega. Assim, se liberta dele e o torna refém de outra perda, como com Anabelle. Mas ao contrário do Tifo, o que tira Lolita dele é o desejo de independência da menina, junto com o nojo de ser usada para algo que tampouco entendia: o sexo.
 Assim Vladimir Nabokov, com uma forma complicada, arrastada e cansativa de escrever, faz seu ensaio sobre o """amor""". Em momentos onde a redundância, repetição de situações e vitimismo acabam tornando a narrativa sem sentido e pouco estimulante. Eu sou leitor compulsivo. Não sei parar de ler um livro por pior que ele seja. Mas acabei sabendo de pelo menos duas pessoas que não aguentaram e largaram. 

  Quanto à edição da Alfaguara, é caprichada. Além de um prefácio ficcional de um advogado do personagem, também conta com um posfácio do próprio Nabokov e Martins Amis, escritor britânico que se aprofundou na obra de Vladimir ao longo da vida. Um ponto negativo do livro físico é uma inserção na contra-capa, creditada à famosa revista Vanity Fair onde diz: "A única história de amor convincente de nosso século.". Fico imaginando que Humbert Humbert escreveu isso.  

NOTA: 5,00
Espero que tenham gostado da resenha mais do que eu gostei de ler o livro.
OBS: Gif's extraídas do filme Lolita, com Jeremy Irons e Dominique Swain, de 1997.
TEXTO EXCRITO POR: 𝓢𝓪𝓲𝓽𝓪𝓶𝓪 𝓭𝓮 𝓡'𝓛𝔂𝓮𝓱
PUBLICADO EM:
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