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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Vale a pena conhecer "Carolina"


"Não tem remédio... É impossível eu viver sem literatura. Por isso que eu prefiro ser sozinha. Que homem há de gostar de uma mulher que lê o tempo todo e dorme com o lápis e papel debaixo do travesseiro? Além disso, entre os homens e os livros, eu fico com os livros."

Faz uma semana eu fui pra São Paulo prestigiar a primeira edição do Casa Veneta, quando a editora abriu espaço gratuitamente ao público para ver entrevistas com os envolvidos em publicações como "Bulldogma", "Burroughs", "Hip Hop Genealogia", "Imageria" e outros. O evento começou um pouco antes de meio dia e seguiu até umas 17h, com a oportunidade de comprar os livros/quadrinhos com descontos, além de conhecer os autores e poder pegar autógrafos. Por mais que o evento seja gratuito, a viagem pra Sampa por si só dá mais de 50 reais, com a alimentação vão quase 100 mangos em um único rolê, afinal, saí de manhã e fiquei o dia todo lá. Como não queria perder a oportunidade, fiquei um bom tempo olhando o que compensava mais levar na mesinha de ofertas que eles arrumaram. Nessa de fazer uma média entre preço e conteúdo que me atraía, eu escolhi comprar "Carolina", cujo processo de produção eu tinha acabado de ver sendo explicado pelos seus criadores, Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Logo do lado fui pegar autógrafo com os caras.

"Douglas, que esta obra possa lhe apresentar a força da mulher CAROLINA! Sirlene" "A favela é o quarto de despejo da cidade." o desenho da favelinha todo foi o desenhista Pinheiro que fez na hora.

Já deixo logo claro que até semana passada eu não fazia a mínima ideia que a mulher apresentada nessa biografia havia existido, tudo que eu passarei sobre ela aprendi nessa última semana. Carolina Maria de Jesus foi uma escritora negra, favelada, mãe solteira de três filhos que catava papel na rua e teve um livro publicado que foi um best-seller. Passou até Jorge Amado na época, tendo mais de 100 mil exemplares vendidos em um ano. Por alguma razão não ouvi falar dela na escola. Felizmente, por meio de "Carolina", biografia em quadrinhos lançada no meio do ano passado, eu descobri e não será fácil esquecer a história dessa mulher.


"Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito."

Carolina é uma brasileira miserável dos anos 40, sobrevive na favela do Canindé, uma das primeiras favelas do estado de São Paulo. Junto com seus três filhos ela vive em um barraco onde convive com a ameaça da fome diariamente. Não é apenas história de uma pessoa pobre, é miserável mesmo. Carolina tinha uma alma escritora e intelectual, mesmo com as limitações dos seus estudos interrompidos e condição social, ela se dedicava muito à leitura e escrita durante sua rotina catando papel nas ruas da cidade. Em um ponto de sua vida o improvável acontece e ela consegue ser publicada, o seu sucesso "Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada". Reflexiva e sincera, Carolina não transmite uma mensagem sobre coisas simples e fraternidade não, há nada de romântico na miséria e seus versos são bem diretos. Mas não posso ficar contando mais sobre a trajetória dela, pois "Carolina" se trata da biografia da escritora, então eu estaria estragando a história. Vamos falar sobre a forma que a HQ transmite a vida dessa artista subestimada e que foi quase que esquecida pela nossa cultura.


Os desenhos são em preto e branco, muitíssimo bem feitos pelo senhor João Pinheiro. Os barracos, lixões e a metrópole de São Paulo são retratados com competência, tanto quanto as pessoas que trazem vida e tragédia a eles. Em pouco tempo você já se sente próximo da personagem, com a forma como os desenhos trabalham bem junto ao texto mostrando Carolina em seus momentos mais indiferentes de pobre favelada, até seus momentos mais particulares quando se sentia mais especial como poetisa e as mudanças que a Literatura trouxe à sua vida. O tempo inteiro é mostrado o ambiente e os comentários das pessoas, inevitavelmente explicando todo o contexto. Há violência, álcool e muita intolerância na favela. É como se você andasse com ela e fosse ouvindo e observando tudo que se passa.


O resultado é uma leitura preciosa e reveladora. É sério, toda vez que pensar em favela a Carolina Maria de Jesus virá na minha cabeça agora que li esse trabalho. É uma história que vale muito a pena ser contada, é quase assustador como a vida de uma mulher dessas caiu no esquecimento. No site da editora está por R$39,90:


Apesar do belíssimo trabalho na capa e tudo mais, achei meio caro pra um quadrinho em preto e branco que pode ser lido tão rapidamente, por mais que seja um preço comum em trabalhos desse tipo. É que depois que eu comprei "Demolidor: A Queda de Murdock" por R$32,90 na Salvat virou minha referência pra preço de qualquer coisa. Acho que se eu fosse pagar uma prostituta ia falar "Que absurdo. Você sabe quanto eu paguei no 'Demolidor: A Queda de Murdock'?". Mas esse porém é unicamente pelo tamanho. A qualidade deixa em nada a desejar. Nas primeiras páginas você já percebe que a história da mulher será narrada de uma forma dramática e épica e esta se mantém bela e cativante até o final.

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