quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Hoje é comum confundir norma com apelo ao assédio moral


Hoje é comum confundir norma com apelo ao assédio moral. Nas relações interpessoais, é preciso pensar que a coletividade é composta por indivíduos cujas aspirações não podem ser rechaçadas em função do narcisismo das pequenas diferenças ou pela síndrome do pequeno poder. A liberdade de expressão, por exemplo, não pode ser confundida com o constrangimento do outro pela via da imposição intolerável de um comportamento incômodo e ofensivo ou pela tirania do gosto. Por que uns pensam que outros têm de suportar ruídos constantes de celulares em altos volumes, sons de notificações e de mensagens? Por que uns pensam que outros têm de ouvir Wesley Safadão e semelhantes se não estão sendo obrigados a ouvir Ludwig Van Beethoven e assemelhados?
Nem é preciso pontuar que vivemos sob a hegemonia perversa e a falência ética. Parece estar havendo uma decodificação das normas por antonomásia, pela validação de seu contrário, pela cômoda recusa de admitir que o outro, o semelhante, pertence a uma espécie diversa e sujeita à opressão, à nulidade e ao desrespeito. Isso se testemunha nas relações interpessoais e nos mais variados níveis e setores: na rua, em família, no trabalho, nas reuniões públicas e privadas.
Nem é preciso assinalar, também, que vivemos sob o império das moções ideológicas, dos propósitos do sensualismo exacerbado, da vanguarda das opiniões desencontradas. Precisa-se entender que o conteúdo de verdade que existe no que é pensado só existe enquanto está sendo pensado, que não se encaixa numa realidade circundante: o gosto, a preferência, a convicção pertencem exclusivamente a quem os tem, embora um e/ou outro possam ter algo em comum. O que se pensa é tão somente o que se pensa, nada mais, não é o que o outro deve pensar.
O que existe de mais problemático nas relações interpessoais é o confronto permanente com a diferença, o que regula a identidade. Suportar a diferença é doloroso e difícil. Pretende-se sempre a decalcomania da igualdade, a mesmice da normalidade vulgar que é somente a capacidade de ser excepcionalmente nocivo. Se tudo é igual, pode-se tudo sob a suposição da aquiescência e do consentimento tácito. Se há diferença, instala-se o caos, a desordem relacional insustentável, a virulência agressiva e descomunal da barbárie. Aí está uma das raízes dos totalitarismos e dos retrocessos: se não há suporte para a diferença, caem os marcos da civilidade, que é criminalizada como uma desvantagem a ser sufocada e vencida pelos iguais.

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