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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

PROJETO XEQUE-MATE #12




         


Pág. 49 – 51:


O Circulo vicioso do problema de tempo

O pior inimigo do estrategista é o relógio. O problema de tempo – como o chamamos no xadrez – nos reduz a um jogo tático de puro reflexo e reação. Emoção e instinto obscurecem nossa visão estratégica quando não há tempo para uma avaliaçã adequada. Mesmo a intuição mais apurada não pode abrir mão totalmente de cálculos precisos. Uma partida de xadrez, de repente, pode se assemelhar a um jogo de azar.
Era 4 de março de 2004, e meu tempo estava passando em um jogo decisivo no torneio de Linares, na Espanha. O torneio mais importante do ano estava chegando ao fim e eu estava em segundo lugar. Se eu ganhasse essa partida, ficaria empatado para disputar o segundo lugar. Restavam dez minutos no relógio e uma tempestade estava se formando no tabuleiro. Eu tinha uma posição de duas faces contra o astro búlgaro Veselin Topalov, o então campeão mundial pela FIDE. Reuni um exército gigante contra seu rei, e confiante em meu poder esmagador nesse lado do tabuleiro, lancei um ataque.
Percebi uma continuação promissora, mas não conseguia encontrar nada de concreto em meus cálculos; havia muitas possibilidades para ambos os lados. Oito minutos. Parecia boa, minha intuição dizia que devia ser boa. Fui em frente. Agora era a vez de Topalov suar, mas ele se mostrou á altura da incumbência. Fez uma boa defesa, arrumando-me novos problemas, que eu tinha que resolver em meu tempo limitadíssimo. Nós dois jogamos rapidamente, por instinto, tanto com as mãos, tanto com o cérebro. Quatro minutos.
Espere um pouco, o último lance dele foi um erro? Fiel à sua natureza combativa, Topalov atacou duramente em vez de defender. Para prosseguir meu ataque, sacrifiquei uma peça, provocando uma grande desvantagem material. Se meu ataque falhasse, eu perderia o jogo, então não haveria volta.  Meu coração disparou e a adrenalina inundou meu organismo. Percebi que o golpe definitivo estava muito próximo. Com um rápido movimento de cavalo, eu poderia desencadear um ataque descoberto com a torre contra o rei inimigo. Parecia devastador. Para onde mover o cavalo? Para as casas e4 ou e6? Para frente ou para trás? Dois minutos.
Meu cérebro estava refinando as alternativas a toda velocidade, tentando descobrir os melhores lances para ambos os lados por meio de variantes desconcertantes. Visualizei como poderia reagir às suas possíveis defesas, se aqui, depois ali, se isso, depois aquilo. Quatro lances à frente, cinco, seis... Não havia tempo para analisar com bastante profundidade e me certificar de tudo. Um minuto.

Espere, parecia que o lance para trás seria uma opção perdedora! Desalentado, movi meu cavalo para a casa da frente, já pressentindo que a oportunidade se fora. Topalov reagiu rapidamente, seu rei procurando cobertura. Restando apenas alguns segundos, eu só podia forçar seu rei para frente para trás; não havia jeito de dar o golpe de misericórdia. O jogo acabou em empate por repetição, sem vitória, nem derrota. Senti-me desanimado; será que eu havia deixado passar uma vitória? Depois de uma caçada tão emocionante, minha caça havia me enganado. Terminei o torneio num empate amargo pelo segundo lugar e estava igualmente preocupado pela maneira que minha intuição me traíra num momento decisivo.
Acontece que eu havia movido meu cavalo para a casa errada. A análise demonstrou que movê-lo para trás, na direção “errada”, longe do rei inimigo, teria me fornecido um ataque esmagador. Eu examinara a jogada durante os meus cálculos, mas vira que a dama dele poderia colocar meu rei em xeque, voltando para defender. Quando a partida terminou, Topalov sugeriu que o salto alternativo do cavalo para e4 daria a vitória, e eu respondi: “Sim, mas e o xeque da dama em c1?” Ele ficou perplexo e, só pelo olhar, percebi que esse lance teria sido ilegal, a dama não poderia ir para a casa c1 em hipótese alguma. Uma alucinação total. De forma irônica, ou talvez cruel, o lance vencedor teria removido uma peça-chave de defesa, exatamente o tipo de objetivo estratégico que eu teria naturalmente perseguido, se tivesse tempo suficiente para respaldá-lo com cálculos.
O mais perturbador sobre essa falha na época foi que uma das partes mais fortes de meu jogo sempre fora o cálculo rápido e aprofundado – tática -. Sempre fui confiante em minha capacidade de analisar complicações melhor que meus adversários. Quando chegava o momento de desferir o golpe mortal, meu oponente raramente escapava.
Saí de Linares com a minha autoconfiança abalada. É claro que ninguém tira a nota máxima em todas as provas, mas isso ainda era preocupante. Aos 40 anos, eu era mais velho que meus concorrentes, que geralmente estavam na casa dos vinte e poucos anos, e às vezes, na adolescência. Se a idade estava chegando, e minhas táticas estavam ficando frágeis, quanto tempo mais eu poderia permanecer no topo? Eu teria de examinar bem meu jogo, especialmente minhas habilidades táticas, antes de voltar a jogar.
Em retrospecto, o verdadeiro problema não foi meu erro durante a falta de tempo. Como resultados positivos posteriores demonstrariam, minhas faculdades continuavam funcionando perfeitamente. O erro foi de deixar envolver pela difícil situação da exigüidade de tempo. Eu não estava jogando com freqüência e minha falta de treino provocou falta de determinação, uma falta de fé em meus cálculos. Gastei minutos preciosos reexaminando movimentos que eu deveria ter feito rapidamente. Os melhores planos e as táticas mais engenhosas podem falhar quando não se tem segurança.  


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