segunda-feira, 21 de novembro de 2016

PROJETO XEQUE-MATE #11




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Um exemplo de expansão crescente

Pouco tempo depois do centenário do primeiro vôo dos irmãos Wright em Kitty Hawk, Carolina do Norte, em abril em 2004, dei uma palestra denominada “Atingindo seu potencial”, para uma platéia de executivos, em Interlaken, resort na região dos Alpes suíços. Como exemplo ilustrativo do perigo da falta de visão estratégica, escolhi os irmãos Wright e sua famosa invenção. Centenas de engenheiros morreram tentando inventar uma máquina voadora, e Orville e Wilbur serão lembrados pela posteridade.
Apesar disso, eles nunca acreditaram que o avião significaria muito mais que uma novidade e um esporte. Essa ideia era compartilhada pela comunidade científica americana, uma ideia que logo deixou os Estados Unidos bem para atrás no setor de aviação. Os irmãos Wright não previram o potencial de sua criação, e foram outros que exploraram a capacidade de vôo para fins comerciais e militares. A esse relato de advertência, acrescentei um final, salientando que hoje não voamos nas aeronaves dos Wright. Os Estados Unidos precisavam de alguém que combinasse visão de profissionais empreendedores e talento de engenharia, e esse homem era William Boeing. O nome conhecido recebeu um sorriso de aprovação da platéia, mas depois descobri que esse exemplo era mais esclarecedor do que eu havia imaginado. Mais do que apenas um estrategista, Boeing era também um tático criativo.



Em 1910, a revista Scientic American escreveu que declarar que o avião poderia revolucionar o mundo “é ser responsável pelo mais delirante dos exageros”. Na época, William Boeing nem sabia pilotar e morava em Seattle, Washington, longe da Costa Leste, onde era realizada a maior parte da pesquisa aeronáutica. Boeing, que abandonou a faculdade de engenharia em Yale, não possuía o conhecimento técnico dos irmãos Wright. O que ele tinha era uma visão do potencial da aviação e a capacidade de elaborar uma estratégia para alcançá-lo.
Boeing percebeu o potencial antes do mercado, e entendeu que a excelência tecnológica era a base necessária para uma empresa nessa área. Para executar sua ideia de empresa de aviação comercial bem-sucedida, vários obstáculos técnicos tiveram que ser superados. Ele apostou as economias de uma vida inteira em que a tecnologia alcançaria sua visão antes que ele fosse à falência. Ele não ficou esperando isso acontecer. Estratégia: melhor tecnologia. Tática: mandou construir um túnel de vento em uma universidade local, para produzir os engenheiros que precisava.
Em 1917, as forças armadas dos Estados Unidos estavam se armando para entrar na Primeira Guerra Mundial. Elas precisavam de aviões, e Boeing tinha um novo projeto que achava que elas poderiam usar. O problema era que a Marinha estava testando novos aviões na Flórida, a 4.800km de distância, muito longe para vôo dos pequenos aviões. Boeing sabia que essa era a oportunidade decisiva e mandou desmontar os aviões, encaixotá-los como se fosse pizzas e enviá-los de um lado a outro do país, uma brilhante manobra tática.
Esse modesto sucesso permitiu que Boeing prosseguisse durante mais alguns anos, período em que sua claudicante fábrica de aviões também produziu barcos e – acredite se quiser – móveis. Ele continuou contratando os engenheiros mais talentosos e investindo em pesquisa. Quando os despachos postais e o transporte de passageiros, mais o vôo sensacional de Charles Lindberg de Nova York a Paris, provocaram um verdadeiro boom, Boeing e sua tecnologia superior estavam preparados e esperando para dominar o setor.
Mais tarde, naquele mesmo ano, fiz palestras em dois encontros de executivos no Brasil, e pude acrescentar outro capítulo nessa história. O Brasil tem seu próprio “pai da aviação”, o inventor Alberto Santos-Dumont, que já voava em público, antes dos irmãos Wright, com uma aeronave do tipo mais-pesado-que-o-ar. Suas proezas ousadas e personalidade extravagante o tornaram, talvez, a pessoa mais famosa no ano de 1900, embora hoje esteja quase esquecido na maior parte do mundo. Para o público brasileiro, o nome esvaecido de seu herói Santos-Dumont forneceu uma comparação ideal com a celebridade Boeing. Além do sonho utópico de paz mundial gerado pelo transporte global, Santos-Dumont tinha pouco interesse nas implicações de suas invenções. Ele ficou horrorizado com o uso dos aviões em tempos de guerra, o que, supostamente, teria contribuído para seu suicídio em 1932.
Se a estratégia representa os fins, as táticas são os meios. Boeing empregou inúmeras táticas e manobras inteligentes a serviço de seu plano de longo prazo. Quando temos um conjunto bem definido de metas e objetivos intermediários, podemos avaliar táticas e combinações potenciais em relação a eles. Quanto mais fizermos isso, mais fácil se tornará; nossas memórias estratégicas ficam incorporadas em nosso pensamento tático. Nossas reações serão mais rápidas e, ao mesmo tempo, mais precisas, e velocidade é sempre vital.

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