terça-feira, 1 de novembro de 2016

PROJETO XEQUE-MATE #01




Livros não são meu forte, e não é falsa modéstia. Geralmente, fecham-se os anos, e consigo ler até o final cerca de três ou quatro, sendo otimista. Para alguém com uma leitura tão árida, reler se torna um fenômeno ainda maior. Quebrando esse tabu, li duas vezes o livro “Xeque-Mate” de Gary Kasparov. A primeira vez em junho desse ano, em uma semana, e agora reli, demorei dessa vez algo em torno de duas semanas. A mensagem do livro é forte, mas tão fugaz quanto areia entre os dedos se não for reforçada. Pela raridade que é encontrar esse livro no mercado, além de seu alto preço, resolvi digitar ele todo. Esse é o “Projeto Xeque-Mate”. Ir digitando entre três a seis páginas e ir colocando aqui em forma de posts, para terminado tudo, seja lá quando for, construir um PDF para download, para que mais possam ter acesso a essa obra, em nosso idioma. Não obstante a precariedade de títulos mundiais traduzidos em português, nós amantes do xadrez, sofremos com escassos volumes de sua literatura disponíveis não só traduzidos, como para venda, que não inclua preços astronômicos e impressão extremamente limitada. Segue-se abaixo a transcrição da página 1 – 5. Boa leitura, espero que lhe traga alguma inspiração.

Sério, dessa vez eu não estou sendo irônico.

Às vezes eu ainda acredito no potencial construtivo humano.



  GARRY
                              KASPAROV

XEQUE-MATE
A vida é um jogo de xadrez

TRADUÇÃO: THEREZA FONSECA

Editora: Campus


Para a minha mãe, por toda uma vida de inspiração e apoio


INTRODUÇÃO

O segredo do sucesso


Quando eu era um astro adolescente de xadrez, em uma União Soviética apaixonada pelo jogo, desde cedo me acostumei a dar entrevistas e a falar em público. Além de perguntas eventuais sobre hobbies e garotas, essas entrevistas voltavam-se unicamente para a minha carreira enxadrista. Posteriormente, em 1985, tornei-me campeão mundial com a idade de 22 anos, o mais jovem da história, e daí em diante, o tipo de perguntas que me eram feitas, mudou radicalmente. Em vez de me pedirem informações sobre jogos e torneios, as pessoas queriam saber como alcancei o sucesso sem precedentes. Como é que eu conseguia me esforçar tanto? Quantos lances à frente eu conseguia ver? O que se passava na minha mente durante um jogo? Eu tinha memória fotográfica? O que comia? O que fazia toda noite antes de dormir? Em resumo, quais eram o segredo do meu sucesso?
Não levou muito tempo para eu perceber que o meu público ficava decepcionado com as minhas respostas. Eu me esforçava muito porque minha mãe me ensinou assim. A quantidade de lances que eu via à frente dependia da posição. Durante o jogo, eu tentava lembrar minha preparação e calcular variações. Minha memória era boa, mas não era fotográfica. Eu geralmente consumia porções substanciais de salmão defumado, bifes e água tônica antes de cada jogo. (Infelizmente, quando passei dos 35 anos, meu treinador físico exigiu que essa “dieta” se tornasse coisa do passado.) Toda noite, antes de dormir, eu escovava os dentes. Não é o que se pode chamar de assunto inspirador.
Todos pareciam buscar um método preciso, uma receita universal que pudesse seguir para alcançar ótimos resultados. Perguntam a escritores famosos que tipo de papel usam, como se suas ferramentas fossem responsáveis pelo que escrevem. Quem nos faz essas perguntas não entende que somos todos únicos, o resultado de milhões de elementos e transformações que começam com o nosso DNA e se estendem até o que aconteceu hoje mesmo. Cada um de nós cria a sua própria fórmula singular para tomar decisões. Nosso objetivo é aproveitar essa formula ao máximo, identificá-la, avaliar seu desempenho e encontrar meios de aperfeiçoá-la.
Esse livro descreve como minha fórmula foi desenvolvida, como eu via o processo na ocasião, e como vejo agora, em retrospecto. No desenrolar desse livro, relembrarei as várias pessoas que contribuíram para esse desenvolvimento, direta ou indiretamente. Os jogos inspirados de Alexander Alekhine, meu primeiro herói de xadrez, ocupam lugar ao lado de Sir. Winston Churchill, a cujas palavras esse livro ainda recorro regurlamente.
Com esses e outros exemplos, espero que você aprenda lições para a própria evolução como tomador de decisões e para estimular um maior crescimento. Isso exigirá grande honestidade de autoavaliação e do quanto você realizou seu potencial. Não existem jeitinhos, e esse não é um livro de dicas e truques. É um livro sobre autoconhecimento e desafio, sobre como desafiar a nós mesmos e aos outros, para que possamos aprender a tomar as melhores decisões possíveis.
A ideia desse livro surgiu quando percebi que, em vez de ter respostas inteligentes para eternas perguntas “O que se passava na sua cabeça?”, seria mais interessante se eu tentasse descobrir. Mas a vida de um profissional de xadrez, com sua rigorosa agenda de viagens, jogos e preparação, não me deixava muito tempo para introspecção filosófica, ao contrário da prática. Quando me afastei do xadrez, em março de 2005, finalmente consegui tempo e perspectiva para relembrar minhas experiências e tentar partilhar de maneira útil.
Este livro teria sido muito diferente se eu o tivesse terminado antes de minha surpreendente mudança de carreira do xadrez para a política. Primeiro, eu precisava de tempo para absorver as lições que aprendi em minha vida de enxadrista. Segundo, minhas novas experiências estão me obrigando a analisar quem eu sou e do que eu sou capaz. Ser apaixonado pela defesa da democracia não é o suficiente. Formar coalizões e organizar conferências são comportamentos que exigem que eu aplique minha visão estratégica e outras habilidades do xadrez de maneiras inteiramente novas. Depois de 25 anos em uma zona de conforto de experiência, tenho de analisar minhas habilidades a fim de me compor e recompor para esses novos desafios.

Mapa da mente

No dia de meu sexto aniversário, acordei e encontrei o melhor presente que já havia recebido. Ao lado da cama, havia um enorme globo terrestre. Tive de esfregar os olhos para ter certeza de que era verdadeiro. Sempre fui fascinado por mapas e geografia, e minhas histórias de infância favoritas eram aquelas em que meu pai contava as viagens de Marco Polo, Colombo e Fernão de Magalhães. Tudo começou com meu pai lendo para mim Conqueror of the Seas: The Story of Magellan, de Stefan Zweig. Portanto, nosso jogo favorito passou a ser acompanhar as viagens desses grandes exploradores através do globo.
Não demorou muito para que eu conhece as capitais de todos os países do mundo, seus povos e tudo mais que eu pudesse descobrir. Essas histórias de aventura da vida real me fascinavam mais do que qualquer conto de fadas. Embora não nos concentrássemos nas terríveis dificuldades que envolviam as viagens marítimas no passado, eu sabia que teria sido necessária uma coragem incrível para realizar esse tipo de jornada. Essas histórias incentivaram meu espírito pioneiro. Eu queria explorar novos caminhos, mesmo que naquele momento de minha vida isso significasse um pouco mais do que fazer um trajeto diferente de volta para casa. E, durante toda a minha carreira de xadrez, busquei novos desafios, procurando coisas que ninguém havia feito antes.
A época dos grandes exploradores e imperadores já passou, mas ainda há uns poucos territórios preciosos a desbravar. Podemos explorar nossos próprios limites e os limites de nossa vida. Também podemos ajudar os outros a fazer o mesmo, talvez dando um globo de presente de aniversário a uma criança, ou o equivalente da era digital.
Ter um mapa personalizado é essencial, e este livro pode traçar apenas toscamente as etapas de observação e análise que fazem parte da confecção desse mapa. Exagerando um pouquinho, o mínimo denominador comum é inútil. Não há como encontrar vantagens ou melhores no que é obvio ou idêntico para todo mundo. Devemos olhar mais alto e nos empenharmos mais, transcender o básico e universal. Em teoria, qualquer pessoa pode aprender a jogar xadrez em meia hora, e as regras são iguais para homens, mulheres e crianças. Entretanto, quando pela primeira vez formos além das regras, deixando aquele nível inicial em que nos preocupávamos apenas com os movimentos corretos, começamos a formar os padrões que nos distinguem de todos que já movimentaram um peão.
Padrões adquiridos e a lógica para empregá-los combinados com nossas qualidades intrínsecas para criar um jogador que toma decisões inigualáveis. Experiência e conhecimento são enfocados pelo prisma do talento, que pode ser promovido, extraído e cultivado. Essa mistura é fonte de intuição, uma ferramenta absolutamente única em cada um de nós. Aqui começamos a perceber começamos a perceber as influências da psicologia individual e de nosso caráter emocional expresso em nossas decisões – o que chamamos de estilo de um jogador de xadrez. O xadrez é o instrumento ideal para examinar essas influencias, porque, para nos destacarmos no jogo, somos forçados a analisar as decisões que tomamos e como chegamos até elas. Isso é o que os meus inquiridores realmente necessitavam – auto-investigação – e não informações sobre os meus hábitos triviais.
Não podemos selecionar um estilo que preferimos. Não é como um software genérico que baixamos na internet e instalamos. Em vez disso, devemos identificar o que funciona melhor para nós, então por meio de desafios e experiências, desenvolver o nosso próprio método. O que é que me falta? Quais são os meus pontos fortes? Que tipo de desafio sou propenso a evitar e por quê? O método para o sucesso é um segredo porque só pode ser descoberto ao analisarmos nossas próprias decisões. A tomada de melhores decisões é um processo autodidático, que não pode ser ensinado.
A principio, parece haver uma contradição no que descrevi. Devemos nos conscientizar de nosso processo de tomada de decisões, e com a prática, ele aprimorará nosso desempenho intuitivo – inconsciente. Esse comportamento pouco natural é necessário porque nós, como adultos, já formamos nossos padrões, bons e maus. Para corrigir os maus e aperfeiçoar os bons, devemos nos empenhar para sermos mais autoconscientes.
Este livro tenta usar histórias e análises para abrir as portas a essa percepção. A Parte I examina os componentes fundamentais, as habilidades e aptidões essências que fazem parte do processo decisório. Estratégia, cálculo, preparação – devemos entender esses elementos essenciais e vê-los em nós. A Parte II é a fase de avaliação e análise. Quais são as mudanças necessárias, e por quê? Aqui vemos os métodos e benefícios de nossa autoinvestigação. A Parte III examina as maneiras sutis de combinar todos esses elementos para melhorar nosso desempenho. Psicologia e intuição afetam cada aspecto de nossas decisões e resultados. Devemos desenvolver a capacidade de ter uma visão global da situação, lidar com as crises e aprender com elas.
Esses momentos decisivos são ponto críticos – como toda vez que selecionamos uma bifurcação errada, sabendo que não podemos voltar atrás. Vivemos por esses momentos, e em troca, eles definem nossa vida. Aprendemos quem somos e o que verdadeiramente nos importa. Assim, o “segredo” é perseguir esses desafios em vez de evitá-los. Essa é a única maneira de descobrir e explorar todos nossos dons. Criar nosso plano pessoal nos permite tomar decisões melhores, ter segurança de confiar em nossos instintos e saber que, seja qual for o resultado, sairemos mais fortes. Isso, para cada um de nós, é o nosso segredo especial do sucesso.


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