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domingo, 23 de outubro de 2016

XEQUE-MATE: A VIDA É UM JOGO DE XADREZ (Fragmento)




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Gary Kasparov escreve:

MATERIAL, O ELEMENTO FUNDAMENTAL


[...] Poucos de nós terão a oportunidade de dirigir uma empresa multinacional ou eleição federal, mas mesmo decisões rotineiras do cotidiano se beneficiam de um processo aprimorado. O que podemos fazer para melhorar a qualidade das decisões? A capacidade de avaliar corretamente as situações e ir além do “o que eu faço agora?”. Estando mais conscientes de todos os elementos, todos os fatores em jogo, nós nos treinamos para pensar de forma estratégica, ou como dizemos no xadrez, “de forma posicional”.
Foi uma experiência curiosa quando tentar seriamente sobre o que se passa na minha mente quando olho para uma posição de xadrez. Depois de uma existência inteira vivendo e respirando o jogo, só consigo compará-la a tentar entender o que se passa na sua mente enquanto lê este livro. Para mim, o xadrez representa uma língua, e se não é uma língua materna, é a língua que aprendi pelo método de imersão ainda bem pequeno. Como um falante nativo de inglês tentando explicar a diferença entre “que” e “qual”, essa familiaridade dificulta um pouco que eu avalie minha abordagem jogo objetivamente. Agora que estou distante do calor da batalha e de jogos de torneios, posso reavaliar meus jogos e meu desempenho com maior introspecção.
Avaliar uma posição vai além de avaliar o melhor lance. O lance é apenas o resultado, o produto de uma equação que deve primeiro ser desenvolvida e entendida. É uma questão de determinar os fatores relevantes, avaliá-los, e o mais essencial, estabelecer o maior equilíbrio possível entre eles. Antes de iniciarmos nossa busca para a solução de uma posição, temos de fazer a devida pesquisa básica.
O elemento básico dessa avaliação é material. Ativos, ações, dinheiro vivo, peças e peões, tudo é material. Olhamos para o tabuleiro e a primeira coisa que fazemos é contar as peças. Quantos peões, quantos cavalos e torres? Eu tenho menos ou mais material que o meu oponente? Cada peça tem um valor padrão, que nos permite ver quem está à frente na corrida armamentista.
Nosso padrão de medida, nossa moeda, é o peão. Cada jogador começa com oito desses soldados de infantaria, os mais limitados e menos valiosos membros do exército. Até a palavra “peão” passou a significar fraco e descartável. Em outras línguas, os peões são geralmente chamados de lavradores ou agricultores. Nós até dizemos “peões e peças”, não os incluindo na mesma classe dos bispos, cavalos e damas.
Os peões fornecem o sistema útil de equivalência de valores. Cavalos e bispos valem três peões, torres valem cinco, e dama, nove peões. ( O rei, cuja captura inevitável encerra o jogo, é fraco, mas de valor inestimável.) Com essas informações, um iniciante pode entrar no jogo sabendo que não pode trocar um cavalo pelo peão, ou a torre pelo cavalo.
Quando começamos a aprender o jogo, somos uns tremendos materialistas. Capturamos quantas peças do inimigo pudermos, sem prestar muita atenção em outros fatores. Uma partida entre dois iniciantes pode parecer mais com Pac-Man do que com xadrez, visto que comem rapidamente as peças. Esse é um modo fácil e saudável de começar. Terem dito a você o valor das peças é uma coisa, mas somente a experiência vai ensinar esse valor para você.
Também em outras áreas, a maior parte das avaliações objetivas de sucesso ou fracasso resumem-se ao aspecto material. Nada mais é do que o básico, comida, água e abrigo. Em épocas primitivas, as coisas tinham o valor exato do benefício que nos proporcionavam. À medida que a sociedade evoluiu, criamos o dinheiro – ouro, moedas, papel-moeda – e o valor representativo substituiu, ou uniu-se, à utilidade de nossa consciência material. Atualmente, muitos de nossos ativos são eletrônicos, em forma de ações e fundos em bancos. Na guerra, o que importa é que lado tem mais soldados, mais armas e mais navios. Nos negócios, são as fábricas, os funcionários, as ações, o dinheiro vivo em caixa.
Não é preciso muito tempo, no xadrez ou em outro lugar, para perceber que há valores muito mais importantes na vida do que a riqueza material. É uma lição valiosa para a primeira vez que você receber o xeque-mate, apesar de ter uma grande vantagem material. O valor supremo do rei sobrepuja qualquer outra coisa no tabuleiro, e seu sistema de valores começa a se ajustar. Material não é tudo.
Antes de passar para o próximo elemento de avaliação, precisamos observar um fator adicional referente a material. É comum nos apegarmos a bens que pouco tem a ver com seu valor objetivo. Essas ligações sentimentais podem distorcer bastante nossa capacidade de avaliação, até mesmo de modo prejudicial.
Quando eu era criança, minha peça favorita era o bispo, por algum motivo que não consigo me lembrar hoje. Certa vez, disputei um match curioso em Pioneer Palace local, contra um companheiro de equipe mais velho do que eu, em que eu tinha só bispos e ele tinha só cavalos. Mesmo em meus primeiros jogos, eu tinha muita fé no poder do bispo, e evitava sua troca, um hábito que poderia ser prejudicial. Pode ser que outros iniciantes sintam-se atraídos pela habilidade incomum que o cavalo tem de pular, ou, ao contrário, ter medo dessa peça muito imprevisível.
Normalmente, é o caso de nossos amigos, colegas e familiares, que sabem muito mais sobre os nossos maus hábitos do que nós mesmos. Ficar sabendo desses tiques psicológicos é tão surpreendente quanto ouvir o cônjuge nos dizer que roncamos. É improvável que preconceitos e preferências em nossas decisões sejam prejudiciais, contanto que estejamos cientes dele e trabalhemos ativamente para equacioná-los. A conscientização pode ser a diferença entre uma artificialidade inofensiva e uma tendência que conduza a uma perigosa perda de objetividade. [...] pág. 96.



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