domingo, 16 de outubro de 2016

O Caso Hayes*





Ninguém mais que Truman Capote soube bem, como que pratica um exótico exercício, descrever a típica família americana onde a lerda, ou reacionária e honesta conduta, guarda uma relação de identidade a toda prova com as concepções puritanas. Para falar a verdade, “somente a verdade, nada mais que a verdade”, coloca-se a mão direita sobre a bíblia, assumindo-se, previamente, a responsabilidade por um crime possível de perjúrio. E assim se torna claro que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Todos sabemos quais as recompensas a receber ou recebidas quando agirmos positivamente, repetindo sempre os truísmos, reproduzindo a cristalina ideologia de nossos pais. Até que venhamos, a saber, que o preço da vigilância é a eterna liberdade, não é de se espantar que já tenhamos passado uns cinco anos na cadeia. Talvez Allan Parker tenha pensado nisso ao realizar o filme Midnight Express / O Expresso da Meia-Noite. Usar o tema como tráfico de drogas levou alguns diretores a optar pelo moralismo ou pelas salvaguardas do rígido discurso do papai e da mamãe.  Tudo bem. Mas quem nasceu para William Wyler ou para Martin Scorcese, jamais chegará a Alan Parker, montante o talento a parte. E Parker é inglês, 35 anos, numa equipe cuja idade média é de 30 anos, que se torna responsável pelo ressurgimento da indústria cinematográfica inglesa sob a chancela comercial de Alan Marshall e David Puttnam. O conjunto não poderia ser mais promissor, principalmente levando em conta que o cinema é uma conspiração recrudescida pelo olhar lânguido de Humphrey Bogart á Ingrid Bergman em Casablanca. Paul Henreid que o diga.




 Mas, deixando para trás as divagações introdutórias, podemos falar de um filme que teve seis indicações para o Oscar (isso é completamente irrelevante) e levou dois: melhor música (Giorgio Moroder) e melhor roteiro adaptado (Oliver Stone). A história de “O Expresso da Meia-Noite” é real. O script foi “retirado” do livro homônimo de Bill Hayes, que passou cinco anos na prisão de Sagalmacilar, na Turquia, por contrabando de haxixe. Preso em 1970. As relações dos Estados Unidos com a Turquia não iam lá muito bem, além do mais, era moda sequestrar aviões, ameaçando pilotos com bombas caseiras. As cenas do início do filme denotam muito bem as reações do governo turco, com revistas de passageiros no aeroporto, e chega até o ser cômico quando o guarda que examina Hayes dá um salto para atrás, pensando que ele carrega uma bomba. Hayes é preso. Naquela época haviam agentes clandestinos, filiados às embaixadas estrangeiras que cuidavam de casos assim. Descoberto o haxixe, o infrator diria com que o conseguiu e seria mandado de volta para o seu país, sob conversações secretíssimas e muito dinheiro para lavar as mãos dos responsáveis pela fuga. Mas Billy Hayes comete a ingenuidade de tentar fuga antes do tempo, perdendo a sorte. E é o próprio agente da embaixada (Bo Hopkins) que o entrega. 


A partir daí começa a saga do rapaz na prisão, através de um impecável processo de imagens onde até os enquadramentos revelam a intenção patente do diretor: maniqueísmo já era. A primeira vista que o pai (Mike Kellin) faz a Billy deixa bem claro isso, quando ele diz que não havia mal nenhum no que ele fez: sua geração bebia, e a dele, fumava. E depois conversam sobre Istambul, onde a comida é péssima. Discutindo com amigos, eles me disseram que estava fartos de ver filmes onde os americanos são bonzinhos e do outro lado é o diabo mais feio que se pinta. Não prestaram atenção aos diálogos, aos enquadramentos, ao conteúdo, ao fato de que Hayes foi um peão no jogo de Richard Nixon contra os tóxicos e que a decadência do green power – o poder do dólar – começava sua arrancada. Também não prestaram atenção ao tratamento que os outros prisioneiros, mesmo os turcos recebiam “guardas gentis”. Não podemos esquecer a totalidade do filme, nem que a corrupção, o horripilante sistema carcerário, existe nos países mais civilizados. O que Allan Parker faz é desmetaforizar os clichês ideológicos mais sentidos na pele, mostrando o que se acontece quando não andamos na linha. Ninguém se atreveria a dizer que Billy Hayes não é um bom rapaz, vindo de boa família, cujos pais fizeram até um bom seguro de vida pensando no futuro dos filhos. Brad Davis, o ator que interpreta Hayes transpõe as expectativas como ator muitíssimo bem aproveitado, explorando seu potencial expressivo, numa acepção de tragicomédia tão impecável que será necessário muita integridade para não ser proximamente absorvido pela máquina de produção. Ele não é mais uma revelação do ano, ele é aquele que revela as coisas.


Por outro lado, as concepções de poder estão presentes no filme de uma forma que faria Stanley Kubrick abrir a boca, fazendo seu Clockwork Orange / Laranja Mecânica parecer um filme ingênuo, uma brincadeira. Esta afirmação não é temerária, à revelia do fato de que certos aparelhos governamentais odeiam menos a violência que os resultados dela. Os veteranos Sagalmacilar, quando não cooptam e passam a serem “dedos-duros”, caem no marasmo que Max (John Hurt) caiu após sete anos, ligando-se por grata amizade a um gato e aos tóxicos. Não há moral da história, nem história de moral. A maior contribuição dada até hoje pela sociologia ao cinema talvez tenha sido a de Michael Cacoyannis, colocando em Zorba – The Greek / Zorba – O Grego o que representa a ação concreta de cada um, tendenciosos à parte, sendo que Parker, com uma outra formação, é mais baconiano, um sociólogo fazendo a descrição de um contexto. O poder, é claro, é privilégio dos que mandam, integrando uma fenomenologia particular, em que as possibilidades de mudança estão na razão inversa da razão e da evolução e progresso do que são mandados. Parker não recorre a soluções maniqueístas, coloca-se diante de coisas que acontecem dentro das possibilidades que podem oferecer a obra aberta à mais estapafúrdia interpretação. A opinião do próprio Hayes sobre o filme, cuja realização acompanhou, é das mais lisonjeiras: ele declarou que ficou morrendo de medo e com vontade de fugir ao entrar pela primeira vez no set de filmagem. A reconstrução da prisão de Sagalmacilar é perfeita, segundo Hayes.


A prisão é quase o único cenário, mas o filme consegue manter o espectador atento até o último momento. Há cenas de uma beleza antológica: uma tentativa de uma relação homossexual de Billy com Eric (Nobert Weisser), o sueco, que também cumpri pena por porte de droga, e quando Billy é visitado pela namorada Susan (Irene Miracle), legalmente impedidos por um anteparo de vidro. A plateia, digamos, pouco politizada, é obvio, dá gritinhos e assobios, principalmente na segunda cena em que o rapaz da a entender claramente que se masturba. Os mais circunspectos e sensíveis choram, manifestam, aos cochichos, a vontade de ler o livro (que ainda não havia sido traduzido para português, mas traria a tarefa para a Editora Record ou Nova Fronteira. A associação de imprensa estrangeira de Hollywood concedeu seis globos de ouro ao filme, que é a realização inglesa mais expressivas dos últimos dez anos no gênero. Parker só havia dirigido mais outro longa metragem, o adorável Bugsy Malone / Quando As Metralhadoras Cospem, com Jodie Foster no elenco, em 1975, também premiado cinco vezes pela Academia Britânica de Cinema, órgão não estatal e não platinado com a Academia Cinematográfica de Hollywood. Ele tem marca de gênio, exaure as possibilidades técnicas de abordagem, torna cada tomada do filme uma peça de resistência entremeada de sutilezas, de posse de uma linguagem própria que enfoca a perfeita sincronia de todos os elementos. Não é bastante ver Midnight Express só uma vez: a distancia existente entre o espectador e o que acontece na tela é tão pouca que só depois da terceira vez que se toma uma verdadeira consciência das coisas. E se consegue respirar calmamente.
Dentre essas qualidades, entretanto, o filme exalta uma péssima suposição: a de que realizado, futuramente um Midnight Express Part. II. Mas esperamos que os cinco anos de cadeia de Billy Hayes não tenha sido em vão. Certamente ele deve ter entendido que o preço da vigilância é a eterna liberdade. Se ele ao menos entendeu que não existem erros, e sim  aprendizagens, nada foi em vão.

*Artigo datilografado originalmente em 1979.

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