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domingo, 26 de outubro de 2014

Review TV: Arrow



A moda é um negócio engraçado. Já repararam? Porque ela é cíclica. A mais nova ideia de hoje frequentemente é uma ideia de trinta anos atrás, que voltou pra panela, foi requentada e o garçom te serve como se essas batatas tivessem sido fritas agorinha, especialmente para você, só que não, essas batatinhas são do jantar do cliente anterior que sobejaram na mesa, e você aí, inocente. Em um momento é moda as mulheres usarem os cabelos compridos, e então é moda usar curto, e algum tempo depois volta a ser comprido e mais algum tempo depois, curto. Em um momento exalta-se acessórios minimalistas, e algum tempo depois já são os mais vistosos, mas aí passa-se mais algum tempo, e adivinha? Voltam a ser os minimalista!

O cinema é uma criação humana e compartilha essa natureza cíclica. Atualmente vivemos uma fase de exaltar heróis, vampiros, fantasias medievais e coisas correlatas, em suma, mundos bem diferentes desse que habitamos. Isso é um efeito colateral daquilo que poderíamos classificar como depressão social pós moderna, veja, ao longo de toda a história e evolução humanas, todas as guerras, todo o sacrifício, todo o sangue derramado, foi porque todas aquelas pessoas que choraram e sofreram consolavam-se em acreditar que passavam aquilo para construir um mundo melhor no dia de amanhã para seus filhos e netos. Mas agora, o amanhã chegou e ele não é nada melhor, na verdade a maioria das pessoas sensatas vai concordar que daqui pra diante a humanidade só vai ladeira abaixo, se afundando na lama cada vez mais. O amanhã será pior, tão certo como laranjas são laranjas. Então as pessoas se anestesiam na fantasia. O início do século XXI é a Era dos Heróis. Mas isso é uma fase, e eventualmente vai passar. Em algum momento tanta fantasia, tanta magia, tanto heroísmo épico vai encher o saco, e a maré  vai virar na direção oposta, toda a plateia vai ansiar por histórias que sejam o completo oposto dessa atual fase, começará uma era de dramas, melodramas e psicodramas, toda a ênfase da ficção estará no sentimento humano, na condição humana, na vivência humana. Pode parecer inacreditável para a geração que cresceu com Transformers e Crepúsculo, mas essa época vai vir. Mas esse dia não é hoje. Hoje, cavaleiros de Gondor e de Rohan, anões, elfos e homens, hoje nós lutamos!



A Era dos Heróis nos trouxe uma bela safra de lançamentos. E umas coisinhas bem ruinzinhas no meio também. A Warner lançou Smallville. Ah, Smallville, a semente da discórdia. Smallville é a cebola da DC. "Cebola?". Me explico: É que a cebola é um alimento extremamente polêmico, amado ardorosamente por uns e odiado por outros. Assim, Smallville coleciona admiradores em grandes quantidades, e desafetos em proporções épicas. Pessoalmente, nunca gostei de cebola. Pessoalmente, acho Smallville a coisa mais esquecível que já vi na TV. E ainda assim, Smallville é o pai biológico de Arrow.



Em seu ano de lançamento Arrow alcançou o invejável posto de maior audiência do Canal Warner, jogando para escanteio gigantes donos de público consolidado com Supernatural e Vampire Diaries. E isso não foi à toa. Claro que em grande parte o êxito se deveu à ampla campanha de divulgação do filme Batman O Caveleiro das Trevas Ressurge, da qual o seriado muito se beneficiou. Afinal, o Batman de Chris Nolan foi a grande fonte de inspiração para a criação do primeiro ano da série, admitiram os produtores. E precisava falar? Mais na cara impossível. E mais apropriado impossível. Porque também nos quadrinhos, Oliver Queen surgiu primeiro como um genérico do morcegão. Muitos pseudoespecialistas em HQ que torcem o nariz para a série ignoram esse fato, até aí, se existem uma mídia cheia de pseudoespecialistas que reclamam sem se dar ao trabalho de conhecerem aquilo de que estão falando, são os quadrinhos. Sim, nos quadrinhos Oliver Queen também apareceu primeiro como um genérico do morcegão. Leia os gibis antigos, está tudo lá. Flecha-Caverna, Flecha-Móvel, Flecha-Jato. Bem constrangedor, outro mundo, outros tempos. Esse Oliver Queen que surgiu a princípio como genérico do Batman depois foi ganhando identidade própria e trilhou seu próprio caminho, e esse é o legal da coisa, quando aquele Aquaman que era só a cópia do Namor evolui pra se tornar algo próprio e original, quando aquele Deadpool que era cópia do DeathStroke evolui para se tornar algo independente e original. Assim foi com Oliver Queen nos quadrinhos. Assim foi com Oliver Queen na TV.

Ao lançar sua nova séria a Warner a princípio lançou mão das fórmulas que tinha como garantidas. Em Supernatural Sam e Dean matam tudo que passa na frente; Em Vampire Diaries Damon Salvatore mata tudo o que passa na frente. Série nova, caminho a seguir? Põe o arqueiro pra matar todo mundo que passar pela frente! Mas essa série é nova, Oliver Queen não é um caçador sobrenatural de demônios e nem é um vampiro bêbado que vive séculos à base de sangue humano. Oliver Queen é um herói. O caminho tem que ser diferente. Após uma primeira temporada apenas eficaz, começa a história de verdade. O primeiro ano era uma jornada de vingança. A segunda é a jornada do herói. Oliver evolui de matador mascarado à guardião da cidade numa jornada humana com a qual todos podemos nos identificar, quanto percebemos que tomamos uma estrada errada e tentamos consertar. Oliver evolui e a série evolui com ele. Deixa-se de lado qualquer que seja a história que Nolan esteja contando em seu Batman cinematográfico e trilha-se um caminho próprio, com Slade e o mirakuru, Felicity Smoak e Sarah, Roy e a Liga dos Assassinos. Arrow deixa de ser genérico de outra coisa, Arrow se torna somente Arrow, assim como o Oliver Queen dos quadrinhos que também encontrou seu próprio caminho.



Encerrado a saga do ano de lançamento, o que vem à seguir mostra-se um regalo para todos os nerds de plantão, superando todas as expectativas possíveis. Temos o Conde Vertigo e o Rei Relógio, Caçadora e Canário Negro, Estilhaço e Solomon Grundy, Roy Harper e o Tigre de Bronze, Pistoleiro e Merlyn, o Esquadrão Suicida e as Aves de Rapina,  temos um hiperfodástico Deathstroke, a bitch-sempre-sinônimo-de-boas-histórias-Amanda-Waller e até Ra's Al Ghul e sua Liga de Assassinos, sem mencionar uma Felicity Smoak que é a própria Oráculo, saltada diretamente das páginas da LJA de Grant Morrison. Tudo isso no perfeito estilo de ser facilmente apresentável a um novo público ao mesmo tempo em que é duplamente prazeroso para quem já conhece as personagens e histórias. Um material que nada fica devendo ao que o Marvel Studios vem fazendo no cinema. Um detalhe digno de nota é o romance Felicity/Oliver, pra quem assistiu vê que é algo que quase não ia rolar e está acontecendo na terceira temporada por pura pressão do público. Esse é o legal, quando você tem um público que se importa, você conseguiu o prêmio máximo. A Segunda temporada terminou explosiva e as expectativas para o novo ano estão nas alturas. Mas se no segundo ano a série colocou todas as expectativas no bolso, por que seria diferente agora? Me lembro que ao longo dessa "Saga DeathStroke" da segunda temporada eu parei e pensei que Arrow era provavelmente a melhor coisa da TV naquele momento. Exatamente uma semana após ter pensado isso, li uma matéria de um grande site que dizia exatamente isso, que Arrow era a melhor coisa da TV naquele momento, e eu aqui, tipo, "Já sabia...". Bom, "a melhor coisa da TV" não pode receber outra nota do Ozymandias Realista que não seja um 10. Nota dez para Arrow Season 2.

 - Ítalo Azul - 


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