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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

BATMAN – A PIADA MORTAL – MINHA "TEORIA" SOBRE O "SENTIDO" DA PIADA...


Quase a minha vida toda eu detestei irracionalmente a DC. Se haviam dois símbolos máximos dela que eu odiava sem conhecer o mínimo eles eram Super-Homem e O Batman. Um por excesso de poder, e outro por não os ter, desde que eu tinha oito anos conhecendo e admirando apenas a Marvel com o nerd que vira um palhaço (no bom sentido) quando veste a fantasia, com uma família de astronautas voando em um carro, ou os mutantes sendo lixados na rua após algum ato heroico, sempre havia uma linha que eu hesitava em cruzar, no ápice da minha ignorância achando que estava muito seguro com tudo o que eu sabia e seguia, o que nos leva a esse cínico conto sobre o Coringa.


 “Afinal, quem cruzou a linha no final? Batman ou o próprio Coringa?

Ao meu ver, eu não classifico O Batman como um Super-Herói. No meu conceito, seres assim são os que possuem poderes, com adversários com poderes, nos levando a confrontos lógicos (ou não) sobre o fim do mundo. Não, Batman é um vigilante, não que isso diminua o heroísmo de suas ações, pelo contrário, enaltece, não lembro qual HQ, mas certa vez o Super-Homem disse “Se eu não tivesse todos esses poderes, eu dificilmente me arriscaria a fazer alguma coisa que Bruce faz”. Frank Miller deixou explicitamente claro em Cavaleiro das Trevas o quanto humano e às vezes falho pode ser Batman, ou o quanto sua grandeza humana pode inspirar e despertar atitude parecida na sociedade.

Um vigilante que encontra um individuo chamado Coringa, Não só um desafio moral ou físico, mas racional, Como pode parecer, Coringa realmente é como a velha piada: “O sonho do velho palhaço do circo sempre foi esperar o dia em que ele pegasse fogo.” Coringa nessa HQ é bem semelhante ao Comediante em Watchmen, alguém que abraça o lado negro da humanidade como verdade predominante, se comporta como tal e põe qualquer um ao redor em situações que o faça se comporta da mesma forma ou pior.
Em “Piada Mortal” Moore ironiza o quanto próximos e dependentes um são um do outro, começando com Batman indo ao Asilo Arkham para uma tentativa de conversa coerente com o Coringa, percebendo que esse fugiu e colocou um sósia no lugar. A sequência é centrada em Coringa nada mais menos que aleijando a filha do Comissário Gordon na frente dele, o capturando para um “circo dos horrores” e fazendo com que o mesmo veja fotos da filha nua e estuprada (tentando despertar no velho instintos sexuais sobre a própria filha, alguns supõem) e seja levado nu através de uma coleira.

Batman chega a tempo de uma luta ilustrada de maneira excepcional por Bolland. Um ponto recorrente nos quadrinhos de Batman é o comportamento do ser humano sofrendo mudanças extremas diante de tragédias, sejam elas benéficas ou em grande parte maléficas, e nesse ponto Moore faz com que Coringa insista, afinal ele não consegue se conformar com uma idéia de um homem integro se arriscando pelo bem comum, Coringa perde como mostrado na história a esposa e tudo o que tinha, tentava como ultima maneira ser um humorista, mas sempre fracassava, até um belo dia cair em um tanque de ácido e ter um “surto psicótico” e não ver mais seriedade na vida, que tudo não passa de uma grande e insensata piada de mal gosto ao qual ele quer comandar.

Encurralado, Coringa escuta a proposta sensata de Batman sobre esse conflito entre ambos acabar. Não se pode continuar em uma situação dessas, onde um a qualquer momento pode matar o outro, e tudo o que escuta de resposta de Coringa é uma piada (mortal?) sobre o que a situação lembra:

“Escute só... Tinham dois caras num hospício! Uma noite eles decidiram que não queriam mais viver lá e resolveram escapar para nunca mais voltar. Ai foram até a cobertura do asilo, e viram ao lado, o telhado de um outro prédio apontando para a Lua... Apontando para a liberdade. Então um dos sujeitos saltou sem problemas pro outro telhado. Mas seu amigo se acovardou... É... Ele tinha medo de cair. Ai o primeiro cara teve uma idéia. Ele disse: “Ei! Estou com minha lanterna aqui, eu vou acendê-la sobre os dois prédios e você atravessa pelo facho de luz!” Mas o outro sacudiu a cabeça e disse: “O que você acha que sou? Louco? E se você apagar a luz quando eu estiver no meio do caminho?”


Cada leitor que tem um modo próprio de enxergar determinada história, combinando os conhecimentos que tem, vivências, o que acha que o autor quis passar e inúmeros fatores, a minha teoria vem agora, por isso o parágrafo inicial sobre o cruzamento de linhas. Sejamos sinceros? Cair em um tanque de ácido e ficar louco? Seria o mesmo que chamar um personagem como o Coringa de unidimensional. Não, ele é tão racional como o Batman, mas é sua paixão pela desordem, seja no modo de agir, como no modo de amar. E quando eu falo amar, eu incluo o Batman, Coringa ama ele, é obsessivo por ele, precisa dele, e não possui um ódio irracional como a maioria dos vilões. Todo esse comportamento é apenas um modo dele atrair. E a paixão dele não é nada obvia ou entendível, ele ama o Batman por ele ser o que ele não conseguiu ser, ao mesmo tempo que tenta corrompê-lo como uma maneira de fazer com que Batman assuma o lugar dele, é doentio e curioso. Grant Morrison também crê nisso quando escreveu Asilo Arkham, e não fica nas insinuações, Coringa realmente avança sexualmente em Batman assim que ele entra no Asilo, e tenta quebrar a consciência que ele conheça por real o tempo todo. Em Cavaleiro das Trevas (mais uma vez, afinal é a melhor história do morcego até o fim do mundo), Coringa se insinua o tempo todo para Batman, pedindo beijos, abraços, e fazendo uma espécie de declaração de amor disfarçada no momento da própria morte. Pessoalmente, eu creio que Batman não mataria o Coringa, chegaria perto, como chegou muitas vezes, mas não mataria, mas acredito que a ultima sequência desse quadrinho, Alan Moore tenha colocado um possível assassinato do Coringa pelas mãos do Batman, ou que ele tenha colocado Batman como um maníaco que tem como perversão alimentar a vontade de Criminosos como Coringa para que essa batalha seja eterna e ele nunca fique sem adversários, o que põe o discurso racional de Batman como uma farsa que ele faz devido ao sentimento vago de culpa que possui por ser um maníaco...  Essa história é tão genial de múltiplos sentidos, que só agora na minha sexta leitura dela antes de terminar esse texto, que finalmente vi sentido na piada contada pelo Coringa... A Piada de um palhaço fracassado que teme atravessar o que o separa da liberdade, com medo de que seu “parceiro”, Batman não o corresponda com ele indo ao mundo civilizado, fechando com a grande tirada de Batman e Coringa sendo dois loucos presos por uma grande tragédia, com um pulando para a razão e o outro para a loucura, no eterno paradoxo de que um pule para a área do outro, o que convenhamos, nunca vai acontecer.


Nota: 9.3









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